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Râguebi

Por fim, um jogador negro vai capitanear a África do Sul

Vinte e três anos após Nelson Mandela imaginar o sonho de uma nação unida com base nos springboks, que consquistaram o Mundial de râguebi, em casa, a África do Sul terá, finalmente, um jogador negro como capitão da seleção. Chama-se Siya Kolisi

Diogo Pombo

GIANLUIGI GUERCIA

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Pouco mais de ano e meia tinha passado desde as primeiras eleições livres na África do Sul. O sufrágio colocou Nelson Mandela na presidência do país e acabou, formal e institucionalmente, com o Apartheid. As consequências do regime racista, segregador e discriminador, contudo, perduravam, como ainda perduram hoje, quando o país organizou o Mundial de râguebi de 1995.

O que então se passou, uma história contada e repetida e recontada, até em filme, foi um líder inteligente, gentil, pacífico e perspicaz a apostar todo o esforço reconciliador na força dos springboks. E a seleção sul-africana, que estava em cacos, fora de forma e longe de ser vista como favorita, chegou à final e ganhou à Nova Zelândia. Nessa equipa havia apenas um jogador negro: Chester Williams.

Nos 23 anos seguintes, a seleção continuou a ser uma representação invertida da demografia do país, mais do que desproporcional entre o número de jogadores brancos e negros na cor de pele – segundo os censos mais recentes realizados na África Sul, em 2011, quase 80% da população era de raça negra.

Na África do Sul, o râguebi era e ainda é visto como um desporto de brancos, para brancos e, mesmo que em menor medida, ainda praticado maioritariamente por brancos. Uma imagem que a federação do país tem tentado alterar, fazendo com que as convocatórias dos springboks, aos poucos, ficassem como a mais recente: em 26 jogadores, 13 não são brancos.

Mas, em 127 anos de râguebi na África do Sul, nunca acontecera o que se confirmou esta segunda-feira. Rassie Erasmus, o selecionador, anunciou que Siya Colisi será o capitão para a série de três jogos contra a Inglaterra, este verão.

E Siya Colisi é negro.

Será a primeira vez que um jogador com o seu tom de pele vai liderar os spingboks num jogo oficial. Já tinha acontecido num encontro, digamos, não reconhecido oficialmente, em 2006, quando a África do Sul defrontou uma seleção mundial e Chiliboy Ralepelle foi o capitão - no râguebi, denomina-se de test match, quando um jogo é reconhecido pelas federações que regem a modalidade em ambos os países.

O próprio Colisi já capitaneara a seleção, embora apenas por momentos, o ano passado, no encontro frente ao País de Gales, quando Eben Etzebeth se lesionou. Mazelas do mesmo Etzebeth e de Warren Whiteley, o habitual capitão, obrigaram o selecionador sul-africano a nomear um novo capitão.

Siya Colisi é flanqueador, tem 26 anos e lidera, também, os Stormers, equipa sediada na Cidade do Cabo que compete no Super Rugby, competição do hemisfério sul e equivalente à Liga dos Campeões europeia de futebol, que junta as melhores equipas da sul-africanas, australianas e neozelandesas, além de uma equipa argentina e de outra japonesa

Nascei e cresceu em Zwide, uma township (espécie de favela) da cidade de Porth Elizabeth, educado pela avó paterna. Rejeitado pela família da mãe e filho de um pai que o abandonou, para viver na Cidade do Cabo, teve que deixar a escola para cuidar da avó, que adoeceu. Após a sua morte, foi viver com uma tia, que também viria a falecer pouco tempo depois.

Siya teve que ir viver para um albergue da escola, até ser aceite pela mãe, já adolescente. Também a progenitora morreu antes de Colisi chegar à idade adulta. "Depois de tudo isto, é mais fácil valorizar o que tenho. Estou muito feliz com a minha vida e quero conseguir muito mais. Quero marcar a diferença nas vidas de outras pessoas, dar esperança às crianças dos subúrbios", disse, em 2015, em entrevista ao "El País".

O primeiro jogo na digressão da Inglaterra à África do Sul realiza-se a 9 de junho. O dia em que os springboks terão, por fim, um jogador negro a capitanear a seleção.