Tribuna Expresso

Perfil

Revista de Imprensa

Ironia, finanças e bolas de ouro: o imbróglio de Florentino Perez e Cristiano Ronaldo

Se fosse pelo número de títulos conquistados nas últimas épocas, Cristiano Ronaldo bem podia estar a pensar mudar-se para o Benfica de Rui Vitória, que irá começar a época e pensar no penta. Mas a Luz não tem os holofotes necessários para CR7 brilhar

Fábio Monteiro

Denis Doyle

Partilhar

Cristiano Ronaldo quer continuar a ganhar. A quinta bola de ouro, se as estatísticas não mentirem, está à curta de distância de meses. A sexta está nos planos - focado, eis o adjetivo mais vezes utilizado para descrever o capitão da seleção portuguesa. Cristiano Ronaldo quer ultrapassar Messi (ele próprio o assumiu há dois anos), inscrever-se na história do futebol; dissipar quaisquer dúvidas que existam sobre ele ser o melhor do mundo. Mas objetivos destes não se alcançam sozinhos.

Tudo não podia estar melhor nem pior para Cristiano Ronaldo - porque não há títulos individuais sem grandes coletivos. E os números são claros: foi no Real Madrid que o português conseguiu mais títulos, mais prémios. Bolas de ouro no Manchester United: uma.

Para ganhar, Cristiano Ronaldo precisa do Real Madrid e vice-versa. É uma relação simbiótica. Ou era, até ao início deste verão. Quando as Finanças espanholas acusaram-no de fugir aos impostos, o orgulho do português foi ferido - e a sua carteira, como o Expresso já noticiou -, e quem levou por tabela foi o Real Madrid. Vieram à tona fontes anónimas e próximas do jogador, a 16 de junho, dizer que este já tinha comunicado a Florentino Perez que queria sair do clube. Estava magoado com Espanha e os espanhóis.

Ronaldo, desde então, nunca negou que fosse isso que tinha em em mente, que fossem esses os seus planos. Mas também não confirmou. Desta forma, deixou-se de falar na mesma semana de uma possível fuga ao Fisco para uma saída milionária.

O primeiro desenlace, que demorou a chegar, veio de Florentino Perez. O presidente do Real, que também já deu os seus toques na bola, não cedeu às fintas de Ronaldo - não entrou no seu jogo. E ripostou sempre, em todas as entrevistas concedidas, com ironia.

Na primeira, à rádio “Onda Cero”, disse: “Nem eu nem ninguém do Real Madrid concebemos que ele saia”. Já na segunda, foi menos diplomático. Falou-se na possibilidade de Ronaldo estar a utilizar esta situação para fazer chantagem, de forma a subirem-lhe o ordenado. “Impossível. Está aqui há oito anos e nunca utilizou esses métodos para melhorar o salário”, disse Perez.

Segundo o jornal espanhol “AS” esta segunda-feira, Ronaldo foi de férias sem combinar nenhum encontro com Florentino Perez para esclarecer esta situação. Ou seja, esta situação, que pode nem ser uma situação, mantém-se. E tudo o resta é silêncio.

E se Ronaldo saísse do Real Madrid...

O PSG não seria uma má opção - mas o Mónaco de Leonardo Jardim é que ganhou o campeonato - e em Inglaterra, apesar de existirem clubes com bolsos fundos para pagar 200 milhões de euros, como Manchester City, não existe nenhum que seja hegemónico nas vitórias de títulos, por comparação com Real Madrid.

Se fosse pelo número de títulos conquistados nas últimas épocas, Cristiano Ronaldo bem podia estar a pensar mudar-se para o Benfica de Rui Vitória, que irá começar a época e pensar no penta, ou a Juventus que já vai no hexa. Mas estes clubes não têm os holofotes necessários para Ronaldo brilhar. Só o Real tem. Talvez seja a hora de pagar uma multa e fazer as pazes. Talvez não.