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Homens empoleirados em duas rodas que colidem com outros homens

Rara é a prova, de acordo com os arquivos do Tour de França, em que não haja acidentes e colisões como a de Sagan e Cavendish. Mais: há registo de casos de mortes. Em 1995, Fabio Casartelli caiu a 88 km/h, enquanto fazia a descida do Col de Portet d'Aspet

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JEFF PACHOUD

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Não há desporto que não possa desvirtuado com momentos menos bonitos. Pela violência, pelo doping. O ciclismo, o desporto daqueles homens e mulheres empoleirados sobre duas rodas a pedalar, não é uma excepção. Ainda esta semana tivemos um exemplo.

Peter Sagan prometia a vitória do Tour e ficou-se pela quarta etapa, depois de dar uma cotovelada a Mark Cavendish. Por querer, sem querer, não se sabe.

O gesto foi apelidado de “vil” nas redes sociais e criou muita discussão; Cavendish foi obrigado a desistir devido a ter ficado com uma fratura no ombro direito. (Sagan diz que a cotovelada não foi propositada e as imagens do incidente são difíceis de interpretar, é verdade. De qualquer forma, a comissão de organização do Tour decidiu afastar o ciclista.)

Entretanto, Cavendish veio anunciar nas redes sociais que tudo o que passou entre ele Sagan já está resolvido. “Perdi a corrida à volta da qual construí a minha carreira. Infelizmente, estas coisas acontecem no ciclismo, especialmente nos caóticos sprints finais; não há sentimentos feridos entre mim e o Peter. Somos amigos, ele pediu desculpa e ligou-me mais tarde[depois do incidente] também”, explicou o ciclista.

(Por estranho que pareça, junto dos aficionados do ciclismo, foi pior a expulsão de Sagan do que a lesão do mal-amado Cavendish; o ciclista recebeu várias mensagens de ódio nos últimos dias e veio pedir às redes sociais o fim desse tipo de comentários.)

A colisão destes dois desportistas não é uma novidade no ciclismo. Rara é a prova, de acordo com os arquivos, em que não haja acidentes como estes e lesões. Há, inclusive, registo de casos de mortes no Tour de França. Em 1967, Tom Simpson morreu de insuficiência cardíaca durante a subida do Mont Ventoux. Já em 1995, Fabio Casartelli caiu a 88 km/h, enquanto fazia a descida do Col de Portet d'Aspet.

Para além de alguns gestos violentos, há o doping. Há dezenas de expulsões, desqualificações, só por este mesmo motivo. Quem não se lembra de Lance Armstrong?

A qualidade de um desporto depende sempre da ética dos seus desportistas.

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