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Nélson Évora: “Há mais tempo que sou/fui benfiquista do que sou português”

Em princípio, Tóquio será o final da carreira de Nélson Évora, assumiu o próprio, em entrevista ao “Diário de Notícias”

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Srdjan Stevanovic

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Daqui a uma semana, Nelson Évora estará a competir em Londres para se tornar campeão do mundo. Mas ainda antes de partir, o atleta, que há um ano troco o Benfica pelo Sporting, deu uma longa entrevista ao “Diário de Notícias” esta segunda-feira.

Nélson Évora falou de tudo e sem pudores, como já vem sendo hábito.

Estes são os principais destaques da conversa.

Sobre o ex-treinador, João Ganço

Tal como já tinha vindo a público, foi João Ganço que rompeu com o vínculo de 25 anos de treinador e atleta.

“Foi um golpe muito duro na minha vida porque achava que tínhamos começado isto juntos e que acabaríamos juntos. Assim não foi e ambos seguimos caminhos diferentes. Muitas promessas foram feitas - ele sempre me disse que no dia que deixasse de me treinar deixaria de ser treinador - e foi tudo ao contrário. Não concretizámos esse objetivo de começar e acabar juntos, a opção foi dele”, apontou

Nélson Évora confessou-se ao “DN” que ainda está magoado com esta situação.

“Sem dúvida que estou. Ele não era só o meu treinador, era o meu segundo pai. Como podem imaginar, passei muito mais tempo com o professor João Ganço do que com a minha mãe, com a minha madrasta ou com o meu pai. Quase tudo o que sou hoje, quase todas as minhas grandes memórias foram passadas junto dele e com ele. Nunca se espera que algo do género possa acontecer”, disse.

Sobre a sua evolução como atleta

“Desde os meus 14, 15 anos que sempre foi posta em causa a minha evolução no desporto. "Neste ano saltou, para o ano não saltará", pensavam eles que eu treinava muito quando não treinava nada. Só comecei a treinar diariamente aos 20, quando acabei a escolaridade obrigatória. Tinha ganho duas medalhas de ouro no Campeonato de Europa de Juniores, o que me fez pensar: "Se apostar no desporto pode ser que me torne um atleta de elite." E antes de fazer os 20 fiz mínimos para os Jogos Olímpicos. O principal elemento do meu sucesso foi a paixão pelo atletismo, gostava de ver as provas, competir, treinar... Mesmo nas brincadeiras com os meus amigos recriava as situações, fazia o levantamento do peso e do dardo, o salto em comprimento. Atribuo ao meu sucesso à paixão por aquilo que faço e a não dar ouvidos a quem insistia em puxar para baixo”, explicou.

Sobre “treinar com Ferraris”

Há um ano, o atleta português disse que, com a sua mudança para Madrid, tinha começado a “treinar com Ferraris”. E o mundo caiu-lhe em cima.

“Esse comentário foi mal visto, mas a realidade é que trabalho com Ferraris. Tenho uma colega de treino que mede 1,93 e que salta 14,80 todos os dias, um tempo que é sempre para medalha olímpica ou campeonatos do mundo e europeu. Outra que ganhou a medalha de prata no Campeonato de Europa de sub-23. Um colega dois anos mais novo do que eu e que foi medalha de bronze e de prata em campeonatos do mundo ficou atrás de mim em Berlim no campeonato do mundo. E tenho um treinador que foi nove vezes campeão do mundo e saltou mais de nove metros, bateu o recorde do mundo, que só não foi válido por questões políticas”, explicou.

Sobre a saída do Benfica

“Passei os momentos mais importantes da minha carreira no Benfica, sou um atleta formado no Benfica e que foi campeão olímpico [2008, em Pequim]. Podemos ter muitos campeões olímpicos comprados, mas sendo eu da formação e ter atingido o que atingi, era um símbolo do clube. Não se deixa um símbolo fugir da forma como aconteceu. Tenho muitos bons momentos no Benfica, mas vivi esse momento com grande tristeza, não ser tratado como achava que devia ter sido”, confessou.

Sofre o possível final de carreira

“Os próximos Jogos Olímpicos [de Tóquio] são o meu objetivo, não penso em mais um dia depois disso, pensarei no momento. Mas, em princípio, Tóquio será o final da minha carreira. Assim o penso, mas nunca sabemos o que vem depois, as coisas nunca são como planeámos. Em Espanha, há uma atleta, a Ruth Beitia, que chegou a fazer uma competição de despedida, voltou a treinar e foi aí que atingiu o pico de forma, em quatro anos ganhou tudo o que tinha para ganhar. Prefiro levar este ciclo olímpico passo a passo para que possa lá chegar na melhor forma mas, para já, são os campeonatos mundiais”, explicou.