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Cocaína e múmias congeladas para convencer a FIFA. O que Paolo Guerrero lutou para ao Mundial chegar

Paolo Guerrero acusou positivo num teste anti-doping para benzoilecgonina - a substância ativa da cocaína - em outubro de 2017 e sempre disse que nunca consumiu a droga. Mas essa tese era difícil de acreditar, principalmente para os especialistas da FIFA

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Leonardo Fernandez

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Se o nome Paolo Guerrero evoca alguma lembrança na memória do leitor mais atento, isso não é de estranhar. No ano passado, o avançado peruano foi suspenso por doze meses e afastado dos relvados pela FIFA, depois de ter acusado de consumo de cocaína num teste anti-doping. E assim se fez um escândalo futebolístico.

Guerrero sempre negou ter consumido a droga e defendeu-se, por diversas vezes, dizendo que talvez tivesse consumido um chá com folha de coca - algo tradicional e legal na América do Sul - e que não se tinha apercebido. Só que a FIFA não acreditou, suspendeu-o à mesma por doze meses. O atleta viu-se, então, obrigado a assistir à qualificação do Peru para o mundial das bancadas e a lutar pela sua inocência.

Depois, já este ano, ocorreu uma espécie de milagre futebolístico: surgiram umas múmias incas congeladas no topo de um vulcão entre o Chile e a Argentina, há cinco séculos, que vieram salvar Paolo Guerrero, confirmar o seu álibi, digamos. Reduziu-se o período de suspensão, Guerrero voltou a ter uma janela de oportunidade para participar no Mundial.

Mas houve ainda mais uma reviravolta nesta história: em abril, a agência anti-doping mundial (WADA) recorreu da decisão da FIFA, voltou a aumentar-lhe o período de suspensão. No fim, só mesmo a 31 de maio é que Paolo Guerrero conseguiu garantiu a sua ida ao Mundial na Rússia.

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Paolo Guerrero acusou positivo num teste anti-doping para benzoilecgonina - a substância ativa da cocaína - em outubro de 2017 e sempre disse que nunca consumiu a droga. Mas essa tese era difícil de acreditar, principalmente para os especialistas da FIFA, tendo em conta os resultados dos exames.

O peruano justificou-se dizendo que, durante a campanha para o Mundial, foram-lhe dados dois chás herbais porque estava com gripe - um desses estaria contaminado com folha de coca.

Os advogados do jogador, em dezembro, apresentaram uma apelo à FIFA, com a ajuda de um especialista bioquímico da Faculdade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Este testemunhou que a percentagem de benzoilecgonina encontrada na urina do jogador era consistente com o consumo de chá de coca.

Para testemunhar, apareceu também Charles Stanish, um arqueologista norte-americano, especialistas em cultura inca. Este, por sua vez, trouxe três múmias, encontradas há alguns anos no cimo de um vulcão, ao barulho: apesar da cocaína só ter sido sintetizada pela primeira vez em 1859, estas, também tinham benzoilecgonina no organismo, de acordo com vários testes. Ou seja, Guerrero podia mesmo ter a substância ativa da cocaína no sangue sem nunca a ter consumido.

Com este apelo, a suspensão de Guerrero foi reduzida para seis meses… mas a saga do peruano não acabou. Já em abril, a agência anti-doping mundial (WADA) recorreu da decisão de encurtar a suspensão, aumentou-a para 14 meses.

Esta decisão provocou uma onda de indignação junto de muitos desportistas. Por sua vez, Guerrero levou o seu caso para um tribunal arbitral suíço - e aí, a 31 de maio, ou seja, há duas semanas, venceu, definitivamente o caso.

Esta sexta-feira, pelas 17 horas, o Peru vai defrontar a Dinamarca. Paolo Guerrero, depois de ter vivido uma montanha russa emocional nos últimos meses, estará em campo. Certamente com fome vingança, de marcar.