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Rogério Casanova

Uma sessão de psicanálise com Bas Dost (ou como Rogério Casanova quer ter um filho de William Carvalho)

Disposto a instalar um útero para dar um herdeiro a William, Rogério Casanova aconselha ainda Rui Patrício a arrepiar caminho: ou se envolve mais no jogo, ou corre o risco de perder o lugar para outro jogador de campo

Rogério Casanova

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PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Rui Patrício

Apático e pouco envolvido na manobra ofensiva da equipa, não se lhe viu um drible, uma tabela, um cruzamento, um remate. Foi, no fundo, um jogador a menos. Tem de melhorar os índices competitivos ou, neste tipo de jogos, arrisca-se a perder o lugar para outro jogador de campo.

João Pereira

Regressou ao Sporting com 31 anos de idade, mas integrou um programa intensivo de acumulação de aniversários e os seus primeiros jogos no início da época passada depressa revelaram um lateral-direito com pelo menos 45 anos a atacar, e já próximo da reforma obrigatória no momento defensivo. Não sei o que se passou entretanto, mas o João Pereira actual tem claramente 25 anos e parece mais magro, rápido, ágil, concentrado e chato para os adversários do que em qualquer ponto da sua carreira. Belo jogo.

Coates

Estava a ter um jogo tão absolutamente descansado, discreto, e sem qualquer crise para resolver que o golo que marcou foi um alívio, se não para ele, pelo menos para este parágrafo.

Rúben Semedo

Ouviu o que se adivinha ter sido uma espectacular colectânea de vernáculo popular da boca do treinador logo ao primeiro minuto, depois de um passe falhado para Jefferson. Depois arrancou para uma exibição ao que já se pode chamar com alguma confiança “o seu nível”: rápido, potente, atento, praticamente inexpugnável no corpo a corpo. Foi acumulando desarmes impressionantes na segunda parte (um sobre Paulo Henrique já na grande área é de antologia), até que se deixou antecipar na área e deixou o Estoril reduzir. Pormenores a rever, até porque daqui a dois anos podem fazer toda a diferença entre uma transferência de 35 milhões para o Real Madrid, ou de 18 milhões para o West Ham.

Jefferson

Custou quatrocentos mil euros em 2013 e fez uma primeira temporada (com Jardim) que alternou entre os quatro e os sete milhões de euros. Na segunda época, apesar de vários cruzamentos de oito, ou mesmo nove milhões de euros, o nível exibicional médio desceu um pouco e esteve ali na casa dos cinco ou seis milhões. No ano passado, terá começado como um honrado lateral de três milhões e meio, mas ninguém esquece alguns jogos próprios de lateral contratado a custo zero. Hoje, com mais espaço do que qualquer outro jogador, acumulou doze cruzamentos sem qualquer consequência, o que, dividindo os quatrocentos mil euros, dá 33 mil euros por cruzamento. É fazer as contas.

William Carvalho

A trajectória percorrida pela luz que chega do Sol aos nossos bronzeados antebraços, tal como as múltiplas lateralizações na vertical efectuadas por William Carvalho, é algo que a matemática clássica consegue descrever: a distância mais curta entre dois pontos. Mas como descrever as ramificações do sistema circulatório, os contornos de um cirro-estrato, o recorte dos Himalaias contra o céu, ou a certeza biomecânica exibida em cada movimento efectuado por William Carvalho de que não há problema nesta vida que não se resolva com um rodopio e um sacudir de ombros? Onde o olho humano vê desordem, há quem veja o hábito que a Natureza tem de repetir fractalmente as suas formas mais secretas. Ou, por outras palavras: o William já tem filhos? É que eu estou plenamente disponível para mudar de sexo e instalar um útero, caso seja necessário.

Gelson Martins

Provou-o mais uma vez: de todos os produtos da formação irremediavelmente condenados à bancada pela enxurrada apocalíptica de reforços estrangeiros, é o que tem mais habilidade para se disfarçar de titular indiscutível. Apesar de conseguir passar por qualquer pessoa a correr muito depressa, por vezes espera pacientemente pela chegada do lateral para jogadas de combinação, que na verdade sente serem desnecessárias, mas que também sabe fazerem parte da vida. O seu melhor momento no jogo foi de frustração: ao minuto 65, já com o resultado em 3-0, tinha dois jogadores na área, mas não cruzou da melhor forma – e reagiu como se tivesse falhado um penalty no último minuto da final do Campeonato do Mundo.

Adrien Silva

Mais uma boa exibição do atleta profissional entrevistado em exclusivo pelo jornal desportivo O Jogo no dia... bem, sei que foi ali em finais de agosto, mas já não me lembro exactamente do dia, ao contrário dos milhões de americanos que ainda se lembram do dia do ataque a Pearl Harbour, portanto é bom sinal, é bom sinal.

Bryan Ruiz

Será talvez um dos melhores jogadores de 45 graus que já passou pelo clube: os seus melhores momentos são quando a pressão tripla do marcador directo, do pé direito, e de uma extremidade do campo, lhe diminui o ângulo de opções até ser forçado a encontrar a única saída possível nessa reduzida periferia visual. (Foi mais ou menos assim que encontrou Gelson isolado na faixa, no lance que deu o 1-0). Quanto à finalização, é uma pena que na sua vida anterior tenha assassinado uma bruxa e que hoje seja o Sporting a sofrer as consequências, mas paciência.

Alan Ruiz

Teve a decisão mais intrigante do jogo, ao minuto 7, quando tentou rematar em força e ao ângulo, não só de fora de área, mas praticamente de fora do Espaço Schengen. Acumulou perdas de bola de duas categorias: por tentar fintar várias pessoas em câmara lenta, ou por se deixar antecipar com relativa facilidade. Nesta altura, e nesta equipa, parece um disco de 45 rotações a ser tocado a 33: distingue-se a música, mas a voz é grave, arrastada e não agrada a ninguém.

Bas Dost

“Qual é a sua primeira memória?” Uma bola. Uma bola que estava perto de mim, e que eu tentava enfiar dentro de uma baliza. “Não gosta de bolas perto de si?” Não me importo que as bolas estejam perto de mim, mas prefiro que as bolas estejam dentro da baliza. “Tem algum sonho recorrente?” Às vezes sonho com deslizamentos de terras. Ou com o barulho que assusta os cavalos nos estábulos a meio da noite, que ninguém sabe de onde vem, mas que depois percebo que sou eu. Mas principalmente sonho com bolas perto de mim, que eu tenho de enfiar dentro de balizas. “Fale-me da sua mãe” A minha mãe é boa pessoa. Quando eu era criança ofereceu-me uma bola. Que eu depois enfiei dentro de uma baliza.

André

Mostrou o tempo de reacção e a rapidez de pensamento em espaços curtos, tanto a pressionar como a tabelar, que Alan Ruiz ainda está longe de ter. Em muitos aspectos é um avançado da velha escola e de princípios elementares: dar e receber, passar e correr, etc. Estreou-se a marcar e candidatou-se com alguma plausibilidade ao estatuto de titular.

Markovic

Continua a relacionar-se com os colegas em campo não como alguém com três semanas de treinos colectivos, mas como se tivesse aparecido à última hora numa flash mob convocada por sms. Ainda assim, entrou, desmarcou-se, cruzou e quase oferecia um golo. A aceleração em contra-ataque ao minuto 81 mostrou o seu melhor atributo, mas também que, pelo menos por enquanto, será uma arma de utilização limitada.

Elias

Os anos passam, mas não passam por ele: o passe lateral para uma pessoa a três metros de si que conseguiu falhar ao minuto 82 pareceu feito pelo mesmo Elias de 2012. Mas temos tempo, temos tempo.