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Rogério Casanova

A autobahn de Zeegelaar, o krav maga de William, o fenómeno Gelson e a tolice de Elias. Por Rogério Casanova

Além destes, Rogério Casanova encontrou outros qualificativos para os jogadores do Sporting que hoje jogaram contra o Borussia. É ler a análise, por exemplo, a Markovic

Rogério Casanova

Comentários

FRANCISCO LEONG

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Rui Patrício

Mal teve tempo para aquecer quando viu ao longe o fulgurante remoinho de poeira levantado por Aubameyang a acelerar na sua direção, com aquele ar de quem arrasta atrás de si a heráldica de vinte ostrogodos ofendidos e acabou de ver o inimigo incendiar as suas colheitas. Depois, teve dois deslizes com sabor a déja vu, ao apunhalar o oxigénio deixado pela memória de cruzamentos passados, mas respondeu sempre bem nos remates à queima.

Schelotto

Começou o jogo com um túnel no meio-campo ofensivo e com um cruzamento, pelos seus padrões, bastante razoável. Foi comovente a sua esperança, demonstrada uma mão cheia de vezes, de que é possível correr com a bola ao lado de Dembelé e ganhar-lhe terreno. Com o passar do tempo, em especial depois do 1-2, foi-se tornando progressivamente mais argentino, fazendo faltas desnecessárias e vendo um amarelo por atirar a bola ao chão. Ao minuto 85 teve o golo na cabeça, mas voltou a atirar a bola ao chão, pelo que devia ter sido expulso.

Coates

Conseguiu durante o jogo inteiro evitar situações em que se notasse a sua clara diferença de velocidade e agilidade para o quinteto ofensivo do Dortmund. Isto, só por si, seria uma proeza assinalável – mas ainda mais por não ter andado a resguardar-se. Pelo contrário: ao minuto 61 fez um (de muitos) cortes decisivos já na grande área, endossou a bola a Zeegelaar, e depois, estranhamente para os mais desatentos, em vez de recuperar a posição, continuou a correr, assumindo que o colega ia perder a bola e que novo corte ia ser necessário. E tinha toda a razão.

Rúben Semedo

Assim que soou o apito inicial mostrou que tinha passado a semana a estudar com atenção os movimentos de um dos seus principais adversários: Zeegelaar. Decidiu de pronto auto-adaptar-se a lateral-esquerdo, e foi resolvendo na medida do possível os problemas provocados pelo talentoso holandês. Foram oito minutos extenuantes, que pareceram oitocentos. Quando voltou ao lugar de origem, passado todo esse tempo, mostrou falta de rotinas e deixou Aubameyang fugir para fazer 0-1.

Zeegelaar

A sua primeira intervenção foi promissora: perdeu a bola escusadamente ainda no seu meio-campo e deixou o habitual autobahn nas suas costas, mas não foi golo. Cada vez que recebe a bola com tempo e espaço mais do que suficientes, faz sempre uma pausa, como aquelas pessoas que demoram eternidades com a ementa nas mãos antes de encomendarem o prato do dia. Depois, lá a atira pela linha lateral, ou para os pés de um adversário. A sequência ocorre n vezes por jogo, e é sempre tão desprovida de fricções como um sketch de Buster Keaton. Aos 68 minutos fez um sprint e um cruzamento perfeito para Bas Dost: a melhor jogada da sua carreira, passada ou futura. Celebremos o momento e guardemo-lo com carinho na memória.

William Carvalho

Podemos falar da abertura de pé esquerdo aos 5 minutos a isolar Ruiz. Ou da desmarcação para o mesmo Ruiz na segunda parte, num passe feito com um golpe de krav maga. Ou do galope da ordem, a romper pelo meio. Ou do desvio corporal ao minuto 29, quando conseguiu supervisionar uma combinação entre dois colegas numa saída para o contra-ataque sem nunca tocar na bola, obrigando-os por omissão a tomar as decisões mais correctas. Mas isso seria escamotear os momentos mais efémeros, onde quase trivializa a sua qualidade através de rodopios tão exageradamente fluidos que parecem tentativas para caricaturar os seus atributos.

Gelson Martins

Começa a ser difícil discernir as consequências naturais de um “bom momento de forma” daquilo que podem ser fenómenos permanentes. Não é que todas as suas intervenções corram bem (mas quase). É a forma como consegue circum-navegar de forma espontânea quase todos os acidentes de percurso, chegando àquela fracção de segundo onde fica isolado perante uma emergência – a linha lateral, a linha final, a perna de um adversário, um colega coxo – e tem de improvisar um reflexo, e a coisa funciona, mesmo que seja preciso mostrar um recurso novo (como o remate de trivela logo depois do intervalo). Ainda assim, recomenda-se mais calma neste jogos, com muita gente rica a assistir.

Elias

Cumpriu na perfeição o papel de arma secreta. Não só fugiu aos radares dos olheiros do Dortmund durante as semanas que antecederam o encontro, como conseguiu a proeza ainda mais improvável de escapar aos radares dos jogadores durante o próprio jogo. Encarnando no terreno um anonimato muito mais competente do que o de Elena Ferrante, reduziu ao ridículo a manobra táctica do adversário, que se tinha ingenuamente preparado para defrontar onze jogadores. Só o jogador do Dortmund que finta pior se deu ao trabalho de o fintar, no lance do 0-2. Não era preciso! Que tolo!

Bryan Ruiz

A receção imperfeita logo aos 5 minutos, desaproveitando uma abertura de William que o podia ter deixado isolado perante o guarda-redes, não chegou a fazer soar os alarmes. Mas outra má receção três minutos depois, deixando fugir a bola pela linha lateral, já foi suficientemente incaracterística para se adivinhar mais um jogo semi-apagado acrescentado ao currículo da época. Desgastou-se a defender e soube temporizar com inócua competência em alguns momentos, mas o rasgo e a lucidez incessante continuam sem aparecer.

Markovic

Como escreveu um dia Isaiah Berlin, a raposa sabe muitas coisas boas, enquanto o Markovic só sabe uma coisa bué bem: pegar na bola e correr com ela até deixar de a ter e as pessoas começarem a chamar-lhe nomes. Já estamos tão bem treinados que, como os cães de Pavlov, começamos a chamar-lhe nomes mal ele pega na bola. E nunca falha. Nunca falha.

Bas Dost

Foi-lhe assinalada uma falta no lance do golo anulado a Coates, uma falta que, a julgar pelas repetições, poderia perfeitamente ter evitado caso nunca se tivesse transferido para o Sporting e ainda morasse na Baixa Saxónia. De resto, escolheu a pior altura para mostrar a sua veia perfecionista, não concretizando duas boas oportunidades de cabeça por tentar desviar demasiado a bola. (Em sua defesa, a segunda destas oportunidades implicaria atribuir uma assistência a Zeegelaar, pelo que pode ter havido um imperativo ético a funcionar).

Bruno César

Não foi perfeito na distribuição, e fez pelo menos dois passes absurdos, mas a energia e intensidade que mostrou nos momentos sem bola foram suficientes para lamentar não ter entrado mais cedo, ou mesmo de início. Depois de marcar no Bernabéu, marcou agora na sequência de um livre indirecto dentro da área: tem claramente uma embirração com as leis da probabilidade.

Joel Campbell

Entrou em campo, inscrevendo dessa maneira, com inquestionável veemência, o seu nome na ficha de jogo. Mas não fosse haver algum deslize administrativo, tratou ainda de ver um cartão amarelo, para que as gerações vindouras nunca esqueçam que Joel Campbell, cidadão costa-riquenho, participou no jogo de hoje.

André

A imagem dele a deslizar pela relva, na direcção do remate cruzado de Gelson ao qual chegou atrasado, parece-me ter excelentes qualidades pictóricas para fazer parte de um pesadelo recorrente.

  • Do Borussia, com amor

    Liga dos Campeões

    O Sporting perdeu em casa (1-2) diante do Borussia de Dortmund. A vida na Liga dos Campeões complicou-se após um jogo em que os de Alvalade estiveram uns furos abaixo do esperado na primeira parte - desconcentrações e falta de intensidade abriram o caminho da felicidade para os alemães