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Rogério Casanova

Foi um (razoável) prazer ficar a conhecer-te, diz Rogério Casanova a Castaignos

Há algo de novo entre as impressões que Rogério Casanova reteve do jogo do Sporting em Dortmund: ficou surpreendido com Zeegelaar, pela positiva. Mas não viu Markovic a “fazer muito mais do que perder ou não perder algumas bolas”

Rogério Casanova

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PATRIK STOLLARZ

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Rui Patrício

As críticas justíssimas que tem ouvido pela sua escassa participação na manobra ofensiva parecem finalmente estar a surtir efeito: fez, na primeira parte, o melhor passe longo de toda a partida, deixando Schelotto isolado na linha, criando um lance ofensivo praticamente do zero. Entre os postes: mais trabalho do que tem sido habitual – mas os mesmos desgostos. Pela segunda vez nesta edição da Champions, viu um colega campeão europeu insultá-lo com um livre directo; ao contrário de Ronaldo, Raphaël Guerreiro rematou à figura, provando mais uma vez que nada faz sentido nesta vida.

Schelotto

Demorou algum tempo a tirar partido do novo sistema tático (do qual seria, teoricamente, um dos principais beneficiados), mas foi melhorando ao longo do jogo. Apareceu mais agressivo depois do intervalo e recuperou várias bolas na antecipação. Foi uma pena que o seu melhor cruzamento – uma parábola perfeita ao minuto 77 – tenha ido parar à cabeça de Ruiz e não de Bas Dost (ou, na verdade, qualquer outro ser humano menos amaldiçoado). Chegou ao fim diminuído fisicamente, já sem conseguir fazer sprints, e mais parecido que nunca com uma figura num quadro de El Greco, a testemunhar a morte de um arcebispo.

Paulo Oliveira

Pode parecer absurdo incluir o talento para “ter sorte” entre as características elogiáveis de um futebolista. Provavelmente é mesmo absurdo. Da mesma forma, criticar um futebolista por “ter azar” será o cúmulo do disparate. Paulo Oliveira, durante metade das duas épocas anteriores, foi uma presença quase inexpugnável na defesa do Sporting. É um excelente defesa central. E hoje entrou a quente para fazer uma exibição quase perfeita, mostrando que só duas coisas que o separam dos actuais donos da posição: a diferença de qualidade com a bola nos pés; e (enfim, enfim) o esporádico azar de que os outros não padecem.

Coates

É engraçado que um defesa tão eficaz na antecipação e capaz de desarmes de tamanha delicadeza como o que executou ao minuto 67 (é rever, vale a pena), por vezes dedique mais atenção à anatomia dos oponentes do que seria estritamente necessário – como um ladrão de bancos que descobriu a password do sistema de segurança, mas mesmo assim prefere arrombar o cofre à cabeçada. Foi o que alegadamente terá acontecido logo ao segundo minuto de jogo, num lance dentro da área onde muitos dizem enxergar uma grande penalidade e outros tantos garantem nem sequer ter havido contacto. E assim vão as coisas neste nosso mundo cada vez mais ideologicamente polarizado, onde é impossível apurar a verdade dos factos.

Rúben Semedo

Arriscou muito num corte dentro da área ao minuto 6, mas safou-se. Viu um amarelo ao travar um contra-ataque na altura certa. Quando percebeu que a faixa esquerda hoje não era o cenário humanitário que tem ocupado os seus serviços de emergência nas últimas semanas, soltou-se um pouco e procurou até desequilibrar lá na frente. Uma dessas subidas, ao minuto 22, chegou a empolgar, mas no momento de definição não encontrou alguém a quem passar a bola.

Zeegelaar

Não faz a menor ideia daquilo que vale enquanto futebolista. É a única explicação. Alguém o ludibriou, e a ilusão é tão poderosa que lhe afectou faculdades emocionais cruciais, impossibilitando-o, por exemplo, de sentir vergonha ou sofrer quebras de confiança. Pelo contrário! Não se via um caso tão clamoroso de excesso de confiança desde que Eder entrou em campo na final do Europeu. Controlou Pulisic sem perder quase lance nenhum, deu constantemente profundidade ao corredor, arriscou dribles e toques de calcanhar, fez cruzamentos perigosos e chegou a vir dobrar os centrais ao minuto 37, cortando uma jogada que podia ter dado o 2-0. Talvez o melhor jogo desde que chegou. Inconsciência em estado puro.

William Carvalho

Depois de duas exibições penosas, foi um alívio voltar a vê-lo flutuar naquele estado semi-Zen, a dissolver problemas à sua passagem. A vantagem dos seus modos de expressão futebolística é que, tal como a magia em livros fantásticos, conseguem persuadir sem terem que dar razões. Nem tudo lhe saiu bem (especialmente a partir do meio da segunda parte), mas, no geral, o jogo que fez foi um alívio tão grande como o regresso de Adrien.

Bruno César

Muito melhor na pressão sobre o portador da bola adversário do que a safar-se em posse no meio das micro-barafundas que lhe foram surgindo pelo caminho. Tomou várias vezes a pior decisão possível no momento de lançar jogadas de ataque. Teve, por duas vezes, tempo e espaço para rematar de fora da área, mas as bolas saíram respectivamente por cima e ao lado. Era uma excelente noite para reproduzir a forma que mostrou contra o Porto e em Madrid, mas não foi possível.

Gelson Martins

Continua à procura do ponto de equilíbrio entre a abundância de recursos, a abundância de energia e a escassez de boas opções por perto. Passar-lhe a bola continua a ser quase sempre a melhor ideia num ataque da equipa, mesmo quando Gelson se assemelha menos a uma máquina de movimento perpétuo do que a um engenho de Rube Goldberg (o cartoonista americano que desenhou centenas de reacções em cadeia, complexas e redundantes, para executar tarefas simples). Por feitio ou por necessidade, Gelson nem sempre finta e passa e recebe; por vezes finta e coloca a bola num tabuleiro e deixa-a deslizar no sistema de roldanas que acorda um gatinho adormecido, que dá um salto e assusta um pássaro que tomba um balde de tinta, que pressiona uma alavanca, que ativa uma passadeira rolante que transporta a bola até Schelotto. Funciona muitas vezes, mas fica a ideia de que era possível poupar trabalho.

Bryan Ruiz

Tal como William, fez, sem deslumbrar, a exibição mais solta e competente dos últimos tempos. Mostrou um raio de acção maior e teve dois bons lances na primeira parte, a furar por dentro da área e a cruzar para zonas de perigo. É possível que tenha sido um dos indiretamente beneficiados pela alteração de sistema: como se o facto de haver menos opções para combinar no miolo tivesse apurado o seu discernimento. Antes de ser substituído, a oportunidade de golo da ordem, num cabeceamento dentro da pequena área: cumpriu o seu destino.

Castaignos

Foi um razoável prazer ficar a conhecê-lo. Ao minuto 13 sacou uma razoável recepção orientada que lhe permitiu fugir para a linha. Ao minuto 21 mostrou razoáveis atributos técnicos a imobilizar uma bola que lhe foi endossada com demasiada força. A meio da primeira parte fez uma bastante razoável tabela com Gelson, isolando o colega em frente ao guarda-redes. E foi exibindo, aqui e ali, uma razoável capacidade para proteger a bola com o corpo. Saiu ao intervalo, numa decisão razoável, mas fica a razoável promessa de que talvez ainda venha a justificar razoavelmente os tremendamente razoáveis dois milhões e meio de euros que custou.

Bas Dost

Não fez muito mais nem muito menos do que o compatriota que substituiu. Sem qualquer oportunidade clara de golo, limitou-se ao jogo paciente de guardar, devolver e esperar. Boa tabela com Adrien ao minuto 65.

Adrien Silva

Ao minuto 70 recuperou uma bola à saída da área do Dortmund. Não me lembro da última vez que alguém tinha recuperado uma bola ao minuto 70 à saída da área adversária, mas é inteiramente possível que o Adrien possa esclarecer este assunto, pois o mais provável é que tenha sido ele a fazê-lo, antes da lesão.

Markovic

Entrou para conduzir um contra-ataque de forma surpreendentemente competente no último minuto de descontos. Até lá, não teve tempo, nem oportunidade, para fazer muito mais do que perder ou não perder algumas bolas.

  • Jesus inventou. E a diferença, agora sim, quase esteve no treinador

    Liga dos Campeões

    Três centrais, uma tática nova e com dois titulares (Paulo Oliveira e Luc Castaignos) que apenas tinham estado num jogo cada um. Jorge Jesus quis experimentar coisas novas em Dortmund e o Sporting deu-se bem quando tinha tudo para se dar mal: jogou mais, foi mais perigoso e teve mais oportunidades. Só que falhou-as todas, perdeu (1-0) e fica quase fora desta Liga dos Campeões