Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

Rogério Casanova sabe perfeitamente o que nós estamos a pensar sobre João Pereira. E sobre André? “Whatever”

Mais uma análise tragico-cómica do universo sportinguista de Rogério Casanova, que espera ansiosamente o dia em que Rui Patrício vai entrar em campo com uma manta pelos ombros e uma guitarra acústica nas mãos

Rogério Casanova

FRANCISCO LEONG

Partilhar

Rui Patrício
Tudo aquilo que sabemos sobre a ansiedade específica da função de guarda-redes não tem a menor pertinência para as circunstâncias actuais de Rui Patrício, vítima de uma conspiração cósmica concebida para evitar que as suas qualidades sejam escrutinadas. A sua carreira parece resumir-se agora a longos períodos de tédio e reflexão, com esporádicos intervalos para ir procurar estabilidade ontológica ao fundo da alma, e procurar a bola ao fundo da baliza. Não é surpreendente que a sua barba esteja cada vez maior; o que é surpreendente é que ainda não tenha entrado em campo com uma manta pelos ombros e uma guitarra acústica nas mãos.

João Pereira
Sei perfeitamente o que é que vocês estão a pensar. Eu próprio, eu próprio, eu próprio estou a pensar o mesmo. Nesse aspecto concordamos. Estamos em sintonia. Vocês têm, no fundo, toda a razão, tal como eu, pelo que nem vale a pena falar mais sobre o assunto.

Coates
Fez uma exibição imaculada, com uma sucessão de cortes improváveis e decisivos, até se deixar antecipar por Benzema para o 1-2, tão perplexo como Montezuma quando as tropas de Cortés apareceram com as correntes.

Semedo
Forma com Coates a dupla de centrais mais segura que passou pelo clube nos últimos oito ou catorze anos (a dúvida prende-se com a importância que queiramos atribuir às vexantes e insultuosas estatísticas acidentalmente acumuladas por Tonel e Polga numa das épocas de Paulo Bento), e parte do efeito é uma função da complementaridade dos seus respectivos sentidos estéticos. A Semedo não lhe basta cortar a jogada; por vezes precisa de cortar a jogada enquanto deambula por campos floridos com véus e grinaldas e apertando no peito ciclâmenes e violetas bravas. É um estilo. E, como qualquer estilo, vai sodomizá-lo com violência três ou quatro vezes por ano.

Zeegelaar
Concluí que o melhor para todos será deixar de pensar em Zeegelaar usando categorias tradicionais (“futebolista”, “lateral esquerdo”, etc) e começar a pensar nele como um pretexto para explorar o mistério da consciência, o enigma da subjectividade. Thomas Nagel escreveu um célebre ensaio intitulado “Como É Ser Um Morcego?”. Essa é a pergunta certa: como é ser Zeegelaar? Que diagramas são desenhados nas suas sinapses? Qual a experiência concreta activada pelos seus qualia? O que pensa ele quando tenta fintar Carvajal? O que sente ele quando consegue mesmo fazê-lo? E mais importante, talvez, o que é que ele, Zeegelaar, vê quando olha para nós?

William
Embora não o seja realmente, será útil encarar a sua aparente descontração congénita como uma fachada, até para ser mais fácil perceber e perdoar-lhe as inevitáveis delinquências. A verdade é que William joga sempre no limite, sempre em situações de risco, sempre no fio da navalha: porque cada lance seu em situações de aperto (que são quase todas) é menos executado do que divulgado, e isso transforma-o num refém permanente da sua própria qualidade, pois a mera competência raramente chega para o safar das embrulhadas. Não me venham, por conseguinte, com merdas.

Gelson
Uma jogada ao minuto 29, quando consegue ganhar espaço nas costas de Marcelo, exemplificou bem um dos seus mais frustrantes atributos: as coisas correm-lhe bastante melhor quando há impedimentos físicos que é preciso negociar pela intuição do que quando há espaço livre que é preciso preencher com decisões.

Adrien
Podia ter alterado o jogo de forma decisiva logo aos dois minutos, mas foi vítima de um dos periódicos lembretes de que Sergio Ramos é um defesa central um pouco melhor do que todos achamos. Apesar de dois momentos de displicência na segunda parte, perdendo a bola em zona proibida, foi, juntamente com Coates, um dos melhores em campo.

Bryan Ruiz
Mais um jogo de sacrifício, em que passou grande parte do tempo a desgastar-se numa dupla função de “segundo lateral-esquerdo” e “líbero avançado”. Ao minuto 53 quebrou uma malapata que há muito o perseguia. Ao longo da sua carreira em Portugal, já consegui não marcar golos de pé direito, já conseguiu não marcar golos de pé esquerdo, já conseguiu não marcar golos de cabeça, e não marcar golos de fora da área, e não marcar golos de baliza aberta. Não conseguir marcar um golo de pontapé de bicicleta era claramente uma lacuna que lhe pesava na alma, mas o problema ficou hoje resolvido.

Bruno César
Começou muito bem o jogo, na posição de vagabundagem que mais o beneficia em jogos contra adversários deste calibre. Ao minuto 31, na melhor jogada ofensiva da equipa, foi vítima de um segundo lembrete de que Sergio Ramos é um defesa central um pouco melhor do que todos achamos. O livre directo que marcou antes do intervalo proporcionou um grande momento a todos os aficionados de ilusões de óptica.

Bas Dost
A tentativa de pressionar Navas ao minuto 37 foi um dos momentos do jogo, e um indicador seguro de que está a levar a sério o sempre penoso processo de, aos vinte e sete anos, se tentar transformar numa pessoa completamente diferente (Slimani, neste caso). Não está física nem espiritualmente preparado para andar ali a esgatanhar-se daquela maneira – mas tentou! E merece ser elogiado por isso, mesmo que o efeito visual tenha sido semelhante a um retrato cubista de um Shetland Poney a tentar dar uma cambalhota. No fim da primeira parte foi abençoado por um dos periódicos lembretes de que Sergio Ramos é um defesa central sobrevalorizado, mas decidiu mal quando podia ter tentado o remate.

Joel Campbell
Pode continuar a mostrar os seus intrigantes atributos técnicos e físicos todas as semanas, pode continuar a mostrar eficácia na área, pode até vir mostrar-me vídeos da sua carreira internacional: a mim ninguém me convence que ele começou a praticar esta modalidade há mais de seis meses.

Schelotto
Ao minuto 75, sozinho na área, ensaiou um dos seus típicos cruzamentos de Schrödinger, atrelado a um evento quântico aleatório que o faz existir em simultâneo como uma jogada de perigo e um passe para o apanha-bolas até ao momento em que alguém, normalmente eu, lhe chama nomes.

André
Whatever.