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Rogério Casanova

Rogério Casanova está agastado com certa crítica literária que não gosta de Rúben Semedo

O Homem Adrien Vitruviano, um William Carvalho que habita um espaço que existe fora de tempo e outras considerações esotéricas sobre o Boavista-Sporting, pela pena de Rogério Casanova

Rogério Casanova

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Semedo foi expulso e isso só pode ser obra de gente mal intencionada. Pelo menos é o que acha Rogério Casanova.

JOSÉ COELHO

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Rui Patrício

Agarrou a bola vinda de um canto aos dez minutos. Supervisionou atentamente um cruzamento ao poste a meio da primeira parte. Agarrou outra bola vinda de um canto a dez minutos do fim. Foi tudo extremamente simétrico. Mais importante que isso, não teve quaisquer culpas no golo sofrido. O que é natural, uma vez que não sofreu qualquer golo. Era simplesmente uma frase que estava aqui escrita sobre Rui Patrício, como está sempre, todas as semanas. Mas o facto de não ter sofrido qualquer golo não implica que não se saliente a sua total isenção de culpas, caso o mesmo tivesse acontecido.

Schelotto

Participou hoje (se a memória não me falha, pela primeira vez) num tipo de jogo que quase não lhe permitiu correr, e como é uma pessoa que corre não por excesso de vigor atlético, mas como consequência de uma patologia claustrofóbica, reagiu da forma esperada. É teoricamente possível que tenha sofrido uma lesão, mas o mais provável é ter sofrido um ataque de pânico; imagino que desatou a correr em direcção à A1 assim que abandonou as quatro linhas, e que talvez chegue a Lisboa antes do autocarro da equipa.

Coates

Depois da grande exibição a meio da semana, voltou a defrontar uma daquelas equipas que não lhe permitem a habitual consistência bruta e o limitam à mera competência. Tentou de vez em quando emancipar-se desse estatuto quase anónimo: primeiro livrando-se de um aperto perto da bandeirola de canto com uma jogada à futebol de praia, e depois fazendo uma breve viagem de negócios à área contrária para artilhar um pontapé de bicicleta que à primeira vista pareceu um movimento em câmara lenta, mas que na repetição em câmara lenta se revelou uma sucessão de fotografias a preto e branco. Esteve bem; não foi preciso estar melhor.

Semedo

As três faltas cometidas nos primeiros doze minutos foram a tripla profecia de um jogo menos dedicado à poesia em movimento e mais dedicado à folha de papel impacientemente amarrotada e atirada ao lixo – que foi o que aconteceu ao minuto 55, quando abandalhou esteticamente uma jogada controlada e precisou de ver um amarelo para resolver o problema. Depois viu outro, mostrado por um crítico literário vingativo e mal intencionado.

Zeegelaar

A ideia de que a sua qualidade futebolística é, na melhor das hipóteses, mediana deve parecer-lhe uma opinião tão absurda que nem merece refutação. Como é que alguém tão formidável, e a quem se pode pedir tudo, pode ser mediano? É preciso ultrapassar o adversário com uma mudança de velocidade? Ele está lá. É preciso fintar o lateral e cruzar? Ele está lá. O cruzamento foi curto e é preciso recuperar de imediato a bola? Ele está lá. É preciso furar meia defesa do Boavista na meia-lua? Ele está lá. É preciso desarmar alguém com uma tesoura perfeita e sair com a bola dominada? Ele está lá. Reparem bem nas conclusões que se podem tirar daquela rábula final nos descontos perto da bandeirola de canto: considerou-se que, dos dez jogadores em campo (incluindo dois campeões europeus), Zeegelaar era o mais indicado para proteger e guardar a bola. Ele próprio concorda, o que é o cerne desta traumática questão.

William

Por vezes é fácil exagerar na exaltação das suas qualidades. É fácil dizer que, enquanto toda a gente à sua volta anda ali a ver passar os minutos em ampulhetas e relógios de sol, William se transformou numa anomalia gravitacional, habitando um espaço que existe fora do tempo. É fácil dizer que William não segue o ritmo do jogo, nem lhe tenta impor o seu; limita-se a fazer o que faria num estádio deserto, e que por feliz coincidência as pessoas se vão desviando e posicionando em sintonia com os seus caprichos. É fácil dizer que William se transformou numa espécie parnasiana de buraco negro, repousando no seu vasto sono de mármore, no centro do Cosmos. Aconselha-se, portanto, alguma ponderação.

Gelson

Perdeu a chuteira direita logo no início do jogo e ficaremos para sempre na dúvida se a sua exibição seria muito diferente caso não a tivesse voltado a calçar logo de seguida. Podia ter marcado ao minuto 17, depois de se desembaraçar de um adversário nas costas, mas rematou fora de tempo devido ao hábito de fazer sempre as coisas em micro-segundos. Pouco depois, livrou-se de duas pessoas e fez um atípico cruzamento platónico, colocando a bola não no sítio para onde apontou a mira, mas no sítio onde, num mundo ideal, devia estar alguém para finalizar. E estava.

Adrien

A sua abordagem aos momentos em que a equipa perde a bola na manobra ofensiva e o adversário inicia um projecto de contra-ataque presta-se a várias analogias (cardumes de peixes, arrastões em Carcavelos, etc.), mas a imagem que mais evoca é a do movimento de Peter Schmeichel a fazer a mancha a um pobre avançado isolado: Adrien, como o “Homem Vitruviano” de Da Vinci, desmultiplica-se numa criatura com quatro braços e quatro pernas, uma correlação ambulante de proporções geométricas cujo único objectivo é não deixar ninguém passar. Hoje fez um daqueles jogos em que, há umas semanas, seria substituído aos 70 minutos, completamente esgotado – para assistir do banco de suplentes aos dois golos do Boavista, que sendo assim não existiram.

Bruno César

Não fez uma exibição invisível – antes pelo contrário, o que fez foi uma exibição opaca: o tipo de opacidade que nos pede tacitamente que a encaremos com reverência. Bruno César, nesta fase da sua carreira, é como um romance avant-garde, exigindo a nossa dedicação hermenêutica, uma vez que cada intervenção sua no jogo, em vez de fazer avançar a narrativa, precisa de ser descodificado numa nota de rodapé. Aquele minuto e meio entre a lesão de Schelotto e a entrada de João Pereira, por exemplo, em que foi ocupar a posição de lateral-direito? Reflecte a desorientação que as circunstâncias da Modernidade impõem à perspectiva subjectiva unitária. A deriva para o centro do terreno, depois da entrada de Ruiz? Reflecte a inadequação da ordem cronológica tradicional para representar o tumulto da disrupção tecnológica. O remate à barra ao minuto 72? Uma ousada metonímia para o facto de o Universo ser um lugar desolado, onde todos morremos sozinhos.

Campbell

Em 1528, Hernán Cortés arrastou um grupo de prisioneiros Aztecas até Espanha para exibirem os seus truques perante a corte do rei Carlos I. Dois desenhos do alemão Christoph Weiditz sobrevivem ainda como o primeiro registo histórico de pessoas a jogar à bola no continente europeu. É possível ver hoje esses esboços com quase cinco séculos e acreditar que os Aztecas tinham uma relação menos turbulenta com formas esféricas do que Joel Campbell. Mas mesmo no seu estilo quase satiricamente primitivo (o equivalente futebolístico a um poeta naïf) continua a demonstrar mais utilidade do que qualquer outro jogador testado esta época naquela posição.

Bas Dost

Grande jogada ao minuto 7, tabelando com Campbell e recebendo já na pequena área com uma raquetada ao poste. Assistiu Gelson ao minuto 22, deixando-o na cara do golo. No minuto seguinte recuperou uma bola perdida na zona ofensiva e deixou centena e meia de viúvas de Slimani com as axilas transpiradas. Que mais podemos pedir a alguém do que esta tenacidade em ocupar o espaço vazio nos nossos corações e repleto nas nossas memórias? Na jogada seguinte marcou o golo da vitória, na segunda oportunidade clara que teve no jogo inteiro.

João Pereira

Jogou muito melhor contra o Real Madrid sempre que a bola esteve dentro de campo. (E jogou muito melhor hoje sempre que a bola esteve fora de campo). Os seus cruzamentos foram, e não pela primeira vez, pequenos naufrágios de Sepúlveda na constante epopeia de descoberta que foi a manobra ofensiva do Sporting na segunda parte.

Bryan Ruiz

Tê-lo no banco será sempre uma tentação para qualquer treinador que se confronte com a hipótese de o jogo se tornar caótico. Entrou para desacelerar e temporizar, com resultados desiguais. Teve um excelente remate em em arco de fora da área ao minuto 76 – um método infalível de não ser acusado de falhar um golo feito.

Paulo Oliveira

Tal como Rui Patrício, não teve quaisquer culpas no golo sofrido, etc, etc.