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Rogério Casanova

A cotação de Gelson está a caminho de valer tanto quanto um colar de uma qualquer terceira esposa de oligarca russo, diz Rogério Casanova

A substituição de Adrien Silva por Elias a 15 minutos do fim fez estragos no maço de tabaco de Rogério Casanova, contente com a componente administrativa assistente que Bruno César traz ao jogo do Sporting. Ah, e sobre Marvin Zeegelaar, está entregue a vitória: Casanova desistiu

Rogério Casanova

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PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Rui Patrício

Um fragmento de osso encontrado por paleontólogos na Tanzânia em 2015 (a falange de um dedo mindinho) alterou o consenso sobre a evolução da mão humana, sugerindo que a mesma atingiu a sua forma atual há 1,85 milhões de anos, permitindo aos nossos antepassados abandonar finalmente aquela rotina fatigante de escaladas arbóreas e começar a usar ferramentas e desenhar uns bonecos em paredes. Quase dois milhões de anos de estabilidade formal – e para quê?, pensará Rui Patrício, cujas mãos têm tido a mesma utilidade das suas amígdalas. Aquele remate à queima do Setúbal na segunda parte terá sido a sua maior alegria dos últimos tempos.

João Pereira

Pertence à estirpe pouco numerosa de futebolistas de alta competição (como Vardy e Coentrão) cuja estrutura física lembra um arrumador de carros cujas grandes opções de vida foram baseadas no facto de a metadona ser mais barata que a heroína. Conseguirem manter o fôlego ao fim de cinco minutos já seria uma surpresa para o espectador; correrem sem limitações durante noventa é sempre um escândalo. Fez mais um jogo bastante bom, invariavelmente atento a fechar no seu meio-campo, e empenhado a subir, adornando a exibição com o lacinho que foi o belo cruzamento em parábola para Dost ao minuto 74. Está quase a fazer trinta e três anos, João Pereira; que consiga manter o seu retrato de Dorian Gray escondido no sótão mais umas épocas, é o que se deseja.

Coates

A sua função na primeira parte foi acima de tudo desmarcar João Pereira na faixa direita do meio-campo ofensivo. A defender, voltou a mostrar os atributos das mais caras apólices de seguro: parecem um desperdício de dinheiro, excepto nos raros momentos em que não parecem um desperdício de dinheiro. A qualidade das suas intercepções decisivas é tão serenamente invisível (hoje foram duas, uma em cada parte) que quase nem damos conta dos potenciais sarilhos que podiam ocorrer na sua ausência.

Rúben Semedo

Fez os possíveis para disfarçar o facto de não ter tido trabalho nenhum. Lá foi dando umas corridas de cobertura, lá safou um raro deslize de Coates ao minuto 51, mas passou o resto do tempo a fingir estar extremamente atarefado com saídas de bola rápidas, e a mostrar aquela urgente compenetração das personagens secundárias introduzidas a meio de uma telenovela, como se estivesse no centro de uma situação precária e muito preocupante. Não enganou ninguém.

Zeegelaar

Ok, desisto. Zeegelaar ganhou. Ganhou e eu perdi, o que significa que todos ficamos a ganhar. Desde o adepto mais intolerante ao mais crédulo selecionador holandês: estamos todos tão capacitados para explicar o Zeegelaar atual como os macacos no 2001 – Odisseia no Espaço estão capacitados para explicar o monólito. Uma civilização futura irá avaliar os registos dos seus jogos com a mesma atenção perplexa que nós hoje dedicamos ao Manuscrito Voynich ou aos geóglifos de Nazca. Zeegelaar é um mistério. Ou, parafraseando Churchill sobre a União Soviética, um mistério embrulhado num enigma dentro de um cachimbo de água.

William Carvalho

No amigável Inglaterra-Portugal jogado antes do Euro, um disparatado remate de cabeça arrancou uma memorável gargalhada à pessoa que comentava o jogo em estúdio, Jorge Jesus. “Não é o melhor do William, o seu jogo de cabeça”, explicou, “mas vai melhorar”. Passou o resto do jogo em serviços mínimos (que no seu caso são equivalentes à hipérbole mais próxima), até ver um amarelo que, no fundo, puniu uma perda de bola desnecessária. A partir daí, curiosamente, decidiu ganhar todos as disputas de bola em enérgicos lances de corpo a corpo.

Gelson

Começou a rasgar auto-estimas logo aos vinte segundos, traumatizando uma vítima e cruzando rasteiro para Dost, e só abrandou já na segunda parte. É um estilo de jogo que pode ser mais facilmente explicado através de tautologias: as fintas e mudanças de velocidade de Gelson permitem-lhe deixar os adversários para trás porque os adversários são deixados para trás pelas fintas e mudanças de velocidade de Gelson. A sua cotação internacional deve estar a atingir aquele nível partilhado por todos os objetos muito pequenos e muito valiosos: o tipo de objeto que a terceira esposa de um oligarca russo insiste em usar ao pescoço durante uma sessão fotográfica com a Vogue.

Adrien

Aquele momento na primeira parte em que alguém lhe passa a bola no preciso momento em que Adrien se vê cercado no meio-campo por um pentagrama de adversários satânicos e a única consequência possível seria uma perda de bola em zona perigosa? Bem, o que acabou por acontecer foi o costume: uma decisão muscular instantânea, um toque de raspão na bola, e dois segundos mais tarde o Sporting estava a fazer um contra-ataque. As cláusulas de rescisão também existem para proteger estes pormenores microscópicos. Voltou a sair a quinze minutos do fim, quando William já tinha um amarelo, porque aparentemente o Sporting acha que eu ainda não fumo cigarros suficientes por jogo.

Bruno César

Se William é a secção de cordas, Adrien o percussionista, Gelson o caloiro que insiste em trazer a guitarra elétrica, e Bryan Ruiz o maestro distraído que de vez em quando deixa cair a batuta ao chão, Bruno César é o competente assistente administrativo que se certifica que a marcação da sala de ensaios foi feita a tempo e horas, que transporta sozinho os instrumentos para o autocarro, que substitui os solistas quando um deles sofre um ataque de tosse, e que ainda vem apagar a luz no fim da sessão para poupar na conta da eletricidade.

Bryan Ruiz

As tabelas e devoluções saíram-lhe com um pouco de força a mais sempre que tentou jogar ao primeiro toque, exceto nas raras ocasiões em que lhe saíram com um pouco de força a menos. Ocupando um espaço mais central durante grande parte do jogo, foi orquestrando as coisas como uma cautelosa ronda diplomática: se dependesse dele, toda a gente seguia o protocolo, mas ninguém diria nada importante ou ofensivo.

Bas Dost

Nos jogos em que tem pelo menos três oportunidades claras, costuma marcar pelo menos um golo. Hoje foi a exceção à regra, em parte por causa de Bruno Varela, em parte porque o remate de primeira na segunda parte foi com o pé esquerdo e não com o direito, e em parte porque, ao minuto 32, infringiu uma norma pouco conhecida do Concílio Vaticano II, que impede os cidadãos de países maioritariamente Protestantes de marcarem golos recorrendo ao seu invólucro de carne pecaminosa.

Joel Campbell

Entrou, fintou, tropeçou, levantou-se, correu, tentou cruzar (mas chutou), correu, desmarcou-se, recebeu, rodopiou, vacilou, esteve quase, aguentou-se em pé, voltou para trás, devolveu, correu, pressionou o guarda-redes, tropeçou nele, levantou-se, correu, tentou chutar (mas cruzou), recebeu, caiu ao chão, veio para a esquerda, passou pelo meio de dois, perdeu a bola para o terceiro, correu, recuperou a bola, cruzou, ganhou lançamento, sorriu, saiu de campo, foi aplaudido, aplaudiu. Estamos todos de parabéns.

Elias e Markovic

Sim, sem dúvida, bem vistas as coisas. Só por má fé se poderia dizer o contrário.