Tribuna Expresso

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Rogério Casanova

O primeiro toque de Markovic é mau. E o segundo também, tal como o terceiro, o quarto e o quinto (Rogério Casanova contou-os)

Rogério Casanova agradece o grande sportinguismo de Rúben Semedo, que tentou afugentar uns quantos olheiros internacionais no lance do golo do Legia, provavelmente sem sucesso. Já Gelson esteve escondido, até não resistir ao projeto utópico que era não fintar polacos. Casanova só lamenta que nem sempre tenha tido o discernimento suficiente para cruzar mal, mas louva as tentativas

Rogério Casanova

Leszek Szymanski/EPA

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Rui Patrício

Cedo se percebeu que seria tarefa extremamente complicada perder um jogo contra o Legia, e que Rui Patrício, com a sua psicótica relutância em ter culpas nos golos sofridos, não estava ali para nos ajudar. Nos últimos minutos, entusiasmado com todas aquelas pessoas isoladas que lhe apareciam à frente, desatou a fazer manchas e a defender remates à queima. Felizmente não houve consequências.

Paulo Oliveira

É sempre ingrato exigir a um jogador com tão poucos minutos que contribua decisivamente para uma derrota improvável. Teve a vantagem de voltar a ser integrado a frio num sistema ao qual não está habituado, mas não foi eficaz a artilhar movimentos incompetentes na armadilha do fora-de-jogo, pelo que teve de improvisar uma ligeira falta de atenção no lance do golo. Foi suficiente.

Coates

Alguns promissores passes errados na primeira meia hora, mas pareceu pouco comprometido com os objetivos da equipa, e mais preocupado em não deixar os polacos ter a bola em zonas de perigo. Apesar de tudo procurou compensar na segunda parte, abrindo espaço a um ou outro contra-ataque do Légia com algumas intrigantes falhas de posicionamento que lhe devem ter dado imenso trabalho a conceber e executar.

Rúben Semedo

Muito bem em toda a jogada do 1-0, demonstrando o seu impecável sentido de antecipação e percebendo que só deixando o adversário progredir pelo lado do seu melhor pé poderia dar origem a uma jogada de perigo. Não terá servido para despistar olheiros internacionais e apagar totalmente a ultrajante boa imagem que tinha deixado nos jogos contra o Real Madrid, mas é de louvar o seu sportinguismo.

Bruno César

“Mas Bruno César não tem pé direito!” exclamou alarmado o comentador da Sport TV logo aos 5 minutos, um facto anatomicamente falso, mas metaforicamente irrefutável. Encontrar a posição em campo que lhe permita não jogar bastante bem tem sido uma das odisseias tácticas da época, mas Jesus terá hoje – finalmente – descoberto a solução optimizada.

William Carvalho

45 minutos iniciais de grande clarividência, sobretudo na forma como foi desocupando estrategicamente o território certo para os médios adversários penetrarem por zonas centrais. Na segunda parte contribuiu menos para a má exibição, especialmente em posse: ficou sempre a ideia de que podia e devia ter falhado mais passes. O remate na área contra o braço de um adversário foi uma irresponsabilidade que podia ter custado caro, mas felizmente o árbitro beneficiou o Sporting. Na altura de maior sufoco, quando se adivinhava o empate a qualquer momento, sacrificou-se pelo colectivo e viu dois amarelos brilhantes.

Adrien Silva

Tentou dar o exemplo e liderou um genial anonimato de meio-campo que lamentavelmente durou pouco mais de vinte minutos. A partir daí esqueceu-se das instruções e começou a recuar mais quando a equipa tinha a bola e a ensaiar algumas das suas irritantes recuperações. Na segunda parte mostrou sempre esclarecimento a mais e raramente soube transmitir à equipa o nervosismo atrapalhado de que esta tanto necessitava. Caso não tivéssemos alcançado a justa derrota, seria um dos principais culpados.

Zeegelaar

Depois de algumas semanas a acumular boas exibições, temia-se que não conseguisse adaptar-se à nova doutrina. E, de facto, demorou a entrar nos eixos, persistindo nos seus hábitos de fazer fintas rudimentares e eficazes, e sacando um ou outro cruzamento razoável. Ficou na retina a falta de solidariedade exibida num lance em que veio fechar ao centro do terreno, impedindo uma jogada de perigo do Legia que podia ter dado o 2-0 e permitido uma segunda parte mais descansada. Após mais um bom cruzamento (ganhando um canto) foi compreensivelmente punido com substituição imediata.

Gelson

Coube-lhe talvez a missão mais complicada de todos os atletas em campo. Não conseguir fintar os defesas polacos era um projecto utópico, portanto optou inteligentemente por aproveitar as subtilezas do esquema táctico para alargar o seu raio de acção e passar quase toda a primeira parte escondido em áreas onde não pudesse encarar ninguém no 1x1. Depois do intervalo, e mais perto da linha, começou a mostrar cansaço e frustração, que manifestou ultrapassando sucessivamente algumas pessoas. Nem sempre teve discernimento suficiente para cruzar mal, mas fez os possíveis.

Markovic

Abençoado pela Natureza com um péssimo primeiro toque, Markovic nem sempre tem oportunidade de demonstrar que o seu segundo toque também é uma coisa inexplicável. Hoje, no entanto, abriu o livro, e mostrou a todos os cépticos um exuberante repertório técnico que inclui também um péssimo terceiro, quarto, e até quinto toque, como naquele extraordinário slalom aos 44 minutos em que conseguiu furar pelo meio de três pessoas e depois atirar a bola de bico pela linha de fundo.

Bas Dost

Apesar da virtuosa generosidade com que evitou fazer um cabeceamento perigoso ao minuto 65 (permitindo em vez disso que a bola lhe batesse na testa), e de umas esporádicas más tabelas e devoluções, ficou sempre a sensação de que estava com vontade de marcar – e aquele remate de fora da área podia ter sido uma machadada decisiva nas aspirações do clube. Hoje, mais do que nunca, foi protegido pelo colectivo, que percebeu que ele podia deitar tudo a perder com demasiadas oportunidades claras, e portanto procurou sempre condená-lo ao ostracismo.

Esgaio

Entrou para lateral-direito e foi de imediato recebido por um jogador do Legia que o tentou fintar e ultrapassar em velocidade, uma opção de resto inteiramente compreensível: eu próprio tentaria fintar Esgaio e ultrapassá-lo em velocidade, caso o encontrasse na rua. Esteve bem ao deixar fugir um adversário nas costas ao minuto 75, mas não conseguiu cometer o penalty que se impunha. Ia borrando a pintura com uma sequência de bons cruzamentos, mas felizmente nenhum acabou por ter consequências práticas.

Bryan Ruiz

Entrou certamente para precaver a possibilidade de a equipa elaborar uma jogada que permitisse a alguém ficar isolado em frente ao guarda-redes, o tipo de situação em que Bryan Ruiz costuma ser exímio a não alterar o marcador. Acabou por não acontecer, mas enquanto esteve em campo fez, pelo menos, o essencial para que as coisas não mudassem muito.

André

Foi o finalizador deficiente pelo qual a equipa ansiava, naqueles minutos em que a manobra ofensiva ficou totalmente descontrolada e as oportunidades se sucediam. Apareceu no sítio certo e à hora certa em duas ocasiões, e o gesto técnico em que falhou o remate à meia-volta na pequena área não estaria ao alcance de qualquer um.