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Rogério Casanova

Como Rogério Casanova viu Coates a espetar pantufadas em gandulos com intenções malignas

Além de também lamentar o facto de Rúben Semedo não se ter comportado como o colega uruguaio, Rogério Casanova ainda pensou que Gelson e André Almeida estavam destinados a uma belíssima história de amor

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Rui Patrício

Aos doze minutos da primeira parte saiu da área para agarrar uma bola nas alturas, uma bola que Luisão se preparava para cabecear – o tipo de operação que o Vaticano costuma designar como “exorcismo”. Com o fantasma de Ricardo devidamente evaporado, dedicou-se a partir daí a colocar os ocasionais espanta-espíritos em posições estratégicas, fazendo uma mancha a Jiménez pouco antes do intervalo e resolvendo um atraso maníaco de Coates, pouco depois do intervalo. Mas foi impotente para combater a intervenção directa de Vladimir Putin na partida.

João Pereira

Espectador privilegiado nos primeiros minutos, com um lugar na primeira fila para observar as acrobacias Cirque du Soleil que Rafa ia ensaiando. Ao minuto 34, mostrando uma generosidade que nem sempre associamos à sua pessoa, conseguiu a proeza de fazer com que Rafa o fintasse mesmo estando ele na posse do esférico. Na segunda parte? Com toda a franqueza, ninguém prestou muita atenção, pois a instabilidade política global afecta a concentração de qualquer pessoa, e todos os envolvidos no dérbi sentiram os seus efeitos.

Coates

Passou grande parte do jogo hesitando entre aguardar serenamente que as instituições solucionassem os diversos imbróglios, ou precipitar acções concretas, nomeadamente o espetar de pantufadas em gandulos com intenções malignas. É o tipo de atitude que preza a sua própria facilidade de adaptação às circunstâncias, mas que também corre sempre o risco de resultar em complacência. No fundo, Coates representa o futuro frágil e incerto das democracias liberais neste período que nos deve levar a todos à reflexão. E a abandonar temporariamente frivolidades desportivas.

Rúben Semedo

Uma vez que Coates é o único detentor do monopólio do uso legítimo da violência nesta Gemeinschaft, Semedo viu-se relegado a um papel subalterno, agrilhoado às interacções indirectas da Gesellschaft, onde pode exibir a sua rapidez e agressividade apenas em movimentos que obedeçam ao consenso burguês, etcetera, como se viu no lance do 1-0, em que mostrou uma incompreensível relutância em assassinar Gonçalo Guedes no meio-campo.

Zeegelaar

Os seus cortes em tesoura no meio-campo (sobre Salvio, sobre Pizzi) foram quase sempre extremamente eficazes, excepto quando não foram. Conseguiu ganhar alguns duelos individuais, excepto quando não conseguiu. Fez um bom cruzamento para Dost, pelo que podemos assumir que também deve ter feito um mau. Colaborou activamente na jogada do segundo golo, abrindo as pernas para permitir que Nélson Semedo se isolasse nas suas costas, tal como já tinha participando activamente no primeiro. Foi amarelado com toda a justiça, depois de dissipar com inusitada violência uma acumulação indefesa de moléculas de dióxido de carbono.

William Carvalho

O filósofo inglês Timothy Morton cunhou o termo hiperobjecto para designar objectos com propriedades distribuídas de forma tão maciça que transcendem a sua especificidade espácio-temporal, como é o caso do aquecimento global, do plutónio radioactivo, da esferovite, e de William Carvalho. A sua totalidade nunca pode ser assimilada em qualquer manifestação local, mas apenas numa rede de condições, como a meteorologia. Foi, enfim, o melhor em campo. (Este parágrafo até nem estava a correr mal, se repararem, mas entretanto a esferográfica ressaltou num amontoado de papéis amarrotados e o raciocínio perdeu-se).

Gelson Martins

Parecia destinado a protagonizar uma belíssima história de amor. Logo aos sete minutos, numa jogada individual, fez a André Almeida não só aquilo que as outras pessoas costumam fazer a André Almeida, mas também aquilo que Gelson costuma fazer a outras pessoas. Pareciam feitos um para o outro! Apesar deste início promissor, e de o resto do jogo ter permitido mais alguns flirts e namoriscos, a relação acabou por nunca ser propriamente consumada, abrindo o caminho necessário para alguns espectadores explorarem imaginativamente a vida sexual de outras pessoas em campo, em particular a única que trazia um equipamento diferente.

Adrien Silva

A micro-gestão no meio-campo foi mais complicada do que tem sido hábito. Há um lance ao minuto 28 que explica porquê: por duas vezes conseguiu – através do seu complexo repertório de calcanhares, reviravoltas e brusquidão – desenvencilhar-se de dois adversários e progredir alguns metros em posse, apenas para ser desarmado por um terceiro. Insistiu nas cavalgadas pelo meio, e lá foi conseguindo ganhar jardas (ou faltas, ou cantos), mas a verdade é que não conseguiu fazer as coisas que faz com a frequência com que as costuma fazer. Escapou por sorte a um amarelo já nos últimos minutos, quando o árbitro vez vista grossa à maneira como molestou a chuteira de Luisão com a barriga da perna.

Bruno César

Teve o seu primeiro grande momento ao minuto 22, quando veio desarmar Salvio ao meio-campo, correu, recebeu a desmarcação de Ruiz, e centrou de primeira para Dost. Teve o seu segundo grande momento ao minuto 46, quando as pessoas perceberam a sua ausência. A partir daí teve mais quarenta e quatro grandes momentos, um por minuto, e sempre pelo mesmo motivo.

Bryan Ruiz

Veio fazer o seu papel do costume, movimentando-se sempre com lenta deliberação, como se em vez de fintar jogadores adversários, procurasse antes convencê-los a desviarem-se de sua livre vontade, através de argumentos, e citando alguns excertos avulsos do Código Civil. Desequilibrou apenas uma vez, quando isolou Jiménez com um milimétrico passe de cabeça. O ser humano partilha 35% do seu ADN com as algas, um facto que parece muito menos espantoso depois da exibição de Bryan Ruiz hoje.

Bas Dost

Pareceu mais sozinho que o habitual, naquele seu jeito de quem lavou à pressa a maquilhagem neo-gótica antes de entrar em campo e penteou compenetradamente todas as partes do seu corpo, excepto o cabelo. O seu melhor momento antes do intervalo, curiosamente, foi uma saída rápida em contra-ataque, quando conseguiu sacar um amarelo a Gonçalo Guedes. Marcou um golo; podia ter marcado pelo menos outro; mas mostrou pouca precisão a ligar jogo com os colegas. Despediu-se do encontro com um passe tão mau para João Pereira que levou o seu exasperado monólogo de auto-crítica até ao banco de suplentes.

Joel Campbell

Mostrou mais uma vez o seu grande atributo: a imprevisibilidade. Os adversários nunca sabem o que ele vai fazer a seguir; os colegas nunca sabem o que ele vai fazer a seguir; os espectadores nunca sabem o que ele vai fazer a seguir; o treinador nunca sabe o que ele vai fazer a seguir; ele próprio nunca sabe o que vai fazer a seguir. Durante os 45 minutos em campo, foi navegando esta maré de contingências, arrancando uma sucessão de desequilíbrios, um cruzamento para golo, e mais uma mão-cheia de jogadas perplexas.

Alan Ruiz

Entrou para esclarecer algumas vexantes questões teóricas com membros da equipa adversária. Discutiu com Rafa se a essência precede a existência, ou o seu contrário, mas com resultados inconclusivos. Pouco depois, explorou com Fejsa, num intenso debate dentro da área, a qualidade tautológica do princípio antrópico.

André

Nem tudo é negativo: aparentemente só faltam 4 ou 5 mil milhões de anos para o Sol explodir.

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