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Rogério Casanova

Campbell deu ares de um epiléptico que tentou aprender a fintar imitando as gravuras da Caverna de Altamira, diz Rogério Casanova

Rogério Casanova é um homem desiludido mas dá salvas ao cavalheirismo de Coates, que tomou as dores da equipa, entregando-se "de corpo e alma ao consenso social", afundando-se de pé. Gostou ainda de ver Zeegelaar dar instruções a um colega de equipa, até porque todos sabemos que o holandês percebe imenso, imenso de futebol

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Rui Patrício

Mostrou notável tranquilidade ao longo de toda a partida, tendo em conta que testemunhou na primeira fila o equivalente futebolístico ao colapso da Idade do Bronze. O próprio falhanço inicial de Wilson Eduardo, que decidiu adiar o inadiável e enfiar a bola nas malhas laterais depois de o ter ultrapassado, foi encarado por Patrício com a mesma complacente paz de espírito que o primeiro desgraçado da Mesopotâmia deve ter mostrado ao ver as suas primeiras colheitas falhar: “pronto, já fomos”. Mais tarde, recusando o cargo de mero cronista, decidiu participar ativamente nos acontecimentos.

João Pereira

Uma desatenção na área ao minuto 33, quando se deixou antecipar por um jogador do Braga, terá sido a sua maior falha defensiva. De resto, foi dos menos maus a atacar. Excelente cruzamento aos 6 minutos, entrada a rasgar na segunda parte, ultrapassando dois adversários na linha e ganhando um canto. Creio que foi, a seguir a Gelson, o jogador que mais lances ganhou no 1x1. Fez aquilo que se costuma chamar um jogo “honesto”, sempre na periferia das suas limitadas (mas extremamente “honestas”) capacidades. Ou seja: estão reunidas as condições para, daqui a oito anos, vir ganhar a Alvalade como treinador interino de uma equipa qualquer, e fazer uma extraordinária conferência de imprensa.

Coates

Já demonstrou por mais que uma vez que não podem nem devem contar com ele para destoar. Será a muralha do costume sempre que o resto da equipa estiver bem, mas em noites como esta entrega-se de corpo e alma ao consenso social, e afunda-se de pé, como um cavalheiro. Algumas semanas depois de ter feito Benzema parecer Wilson Eduardo, foi inteiramente apropriada a sua dedicação à tarefa de fazer Wilson Eduardo parecer Thierry Henry.

Rúben Semedo

Desgostoso com tudo o que viu acontecer à sua volta, tomou a compreensível decisão de abandonar o futebol ao intervalo e viajar para a Nova Zelândia, onde irá em breve dar início a sua nova carreira como autor de documentários independentes sobre espécies em ameaça de extinção.

Zeegelaar

Foi o último jogador da equipa a conseguir tocar na bola, aos 4 minutos de jogo, o que significa provavelmente que foi o último jogador da equipa a cometer um erro hoje. Teve a sua grande intervenção no jogo a meio da primeira parte, quando se virou para um colega com expressão austera e lhe deu instruções veementes para corrigir o seu posicionamento em campo, uma atitude que se compreende e respeita, pois Zeegelaar percebo imenso, imenso de futebol.

William Carvalho

Sei perfeitamente aquilo que estão a pensar: os versos finais do poema “A Valediction of Weeping”, de John Donne. E se não estão, deviam estar, porque William Carvalho não pensou noutra coisa o jogo inteiro, sussurrando-os em voz baixa enquanto nos mostrava aquele gingar do corpo, aprendido certamente a dançar a tarantela em Nápoles no séc. XIV, acossado por plebeus a falecer de Peste, antes de atirar bolas contra a cabeça de um parceiro não-cooperante, como aconteceu ao minuto não sei quantos:

Since thou and I sigh one another’s breath;

Whoe’er sighs the most is cruellest, and hastes the other’s death.

Gelson

Aos três minutos, com Matheus fora da baliza, tentou um chapéu, mas saiu ao lado. As coisas poderiam ter sido muito diferentes. Aos 49 minutos, na área, teve um bom golpe de cabeça, mas foi ao poste. As coisas poderiam ter sido muito diferentes. Exectutou aproximadamente duas centenas de cruzamentos para trás da baliza. Esses cruzamentos também poderiam ter sido muito diferentes. No geral, mostrou o mesmo espírito de equipa que Coates, procurando não ser o único a destoar, mas nem sempre conseguiu, até porque mostrou, num par de ocasiões, raça e energia suficiente para vir corrigir os seus próprios erros.

Elias

Ficou mais uma vez provado que não é solução para substituir Adrien, mesmo que desta vez se tenha dado à trabalheira exaustiva de se disfarçar para parecer exatamente igual ao capitão. O estratagema pareceu funcionar nos primeiros minutos, pois concentrou em si as atenções do Braga ao ponto de merecer uma cacetada no joelho esquerdo que não teria sido necessária caso o adversário soubesse que não se tratava de Adrien, mas apenas de Elias. De resto, o esperado: passes falhados em sucessão, posicionamento anárquico, um livre direto fraco, e um remate de fora da área que reproduziu o tipo de efeito balístico que só costuma acontecer no Cabo Canaveral. Deve sair da equipa no próximo jogo e ceder o seu lugar a Adrien. A Adrien Silva.

Campbell

Os bons jogadores por vezes fazem maus jogos. Quando os bons jogadores fazem maus jogos, normalmente sabem que são bons jogadores que fizeram maus jogos. E os maus jogadores também fazem maus jogos. Mas os maus jogadores que fizeram maus jogos não sabem que são maus jogadores que fizeram maus jogos. O que os maus jogadores que fizeram maus jogos acham é que são bons jogadores que fizeram maus jogos. Mas não são. São apenas maus jogadores que fizeram maus jogos. E, como as famílias infelizes de Tolstoy, todos os maus jogadores fazem maus jogos de maneira diferente. Mesmo quando as suas trôpegas iniciativas conseguem, por acidente estatístico, criar desequilíbrios, os maus jogadores que fazem maus jogos nem sempre se comportam em campo como um epiléptico que tentou aprender a fintar imitando as gravuras da Caverna de Altamira. Só alguns maus jogadores o fazem. No meio dos seus muitíssimo maus jogos.

Bryan Ruiz

Escolheu a dedo o momento para regressar às exibições (bastante) razoáveis. Teve um daqueles dias em que parece mais feito de atmosfera do que substância, jogando com o pessimismo cosmopolita que evoca a clarividente aristocracia intelectual do séc. XIX: um Tocqueville ou um Lord Acton, capaz de intuir antes dos outros as condições específicas que irão em breve torná-los supérfluos. Dando continuidade a uma tradição recente, saiu no momento em que era o jogador mais esclarecido da equipa.

Bas Dost

Depois de quarenta e cinco minutos iniciais de exuberante anonimato, apareceu mais em jogo depois do intervalo, desmarcando-se inúmeras vezes na direção errada dentro da área, falhando receções simples, e mostrando assinalável consistência a ligar o jogo com os colegas, capítulo onde esteve sempre péssimo.

Douglas

Meros segundos depois de entrar em campo, viu Ricardo Ferreira intercetar um cruzamento que vinha direitinho à sua cabeça. Hoje não era o dia. A partir daí tentou cumprir defensivamente e, no geral, comportou-se quase sempre com neolítica dignidade, patrulhando o seu espaço com o seu reduzido naipe de ferramentas – os seus enxós, os seus cinzéis, as suas pedrinhas lascadas.

Bruno César

Entrou, ao que tudo indica, para fazer cruzamentos aceitáveis: um bem normalmente precioso, mas que hoje depressa sucumbiu à lei da utilidade marginal.

André

Não me chateiem os cornos.

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    O extremo formado no Sporting voltou a marcar à antiga equipa e atirou os leões para o 4.º lugar, a oito pontos do líder Benfica. Um Natal amargo para Jorge Jesus, que vê a sua equipa perder pela primeira vez em Alvalade no campeonato desde março e ainda ouviu assobios no final