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Rogério Casanova

“Eu fui para aqui, mas mandaram a bola para ali” é a cara que Rogério Casanova viu Bast Dost a fazer

Depois de olhar para Jefferson e lembrar-se de Nietzsche e do abismo, a expressão intrigada do avançado holandês fez Rogério Casanova imaginá-lo como um perito forense que sempre chega atrasado aos sítios

Rogério Casanova

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MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

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Beto

Tradicionalmente, as funções do guarda-redes suplente são muito semelhantes à do mordomo na literatura inglesa: proporcionar um difuso “bom ambiente” mais pela ausência eficaz do que pela presença carismática. Ainda assim, Beto hoje foi mais Jeeves que outra coisa e, além de ter mostrado melhor jogo de pés do que metade das pessoas à sua frente, conseguiu, ao minuto 38, evitar o golo estatisticamente mais provável da história da modalidade.

Ricardo Esgaio

Sempre foi muito complicado descrever as qualidades de Esgaio a pessoas que raramente o viam jogar, mesmo naquele fulgurante período de seis meses em que foi, juntamente com João Mário, o melhor jogador de uma equipa B, na altura, recheada de talento. As pessoas perguntavam se era “rápido”; e a gente tinha de dizer relutantemente que não. As pessoas perguntavam se “cruzava bem”; e a gente tinha de admitir relutantemente que nem por isso. As pessoas perguntavam se tinha boa “finta curta”; e a gente tinha de abanar a cabeça e tentar mudar de assunto. Mas que assunto escolher, exactamente?

A reacção típica era encolher os ombros e balbuciar qualquer coisa sobre o facto de Esgaio ser um jogador inteligente. A coisa resume-se a isto: infelizmente, o seu QI futebolístico (bastante mais elevado, por exemplo, que o de Schelotto) é insuficiente para executar grande parte das operações decretadas por essa inteligência. Hoje esteve bem a defender, com alguns desarmes importantes, e mostrou-se atento a cobrir zonas interiores e cruzamentos do lado oposto. A atacar não comprometeu, excepto quando tentou cruzar. Seria um bom titular em 80% dos clubes da I Liga. No Sporting é duvidoso que venha a ser mais do que tem sido até agora.

Coates

Perdeu, incaracteristicamente, alguns lances aéreos defensivos, e na única oportunidade que teve para se redimir na área contrária, cabeceou por cima. A defender, mostrou o habitual superavit de testosterona, com algumas cacetadas estratégicas, e a também habitual perspicácia, como quando foi socorrer Jefferson, apesar de este parecer ter o lance controlado (não tinha).

Atravessou a linha de meio campo por duas vezes com a bola controlada, e das duas vezes conseguiu desequilibrar o suficiente para ganhar cantos – com aquele lento galope que consegue alterar proporcionalmente a grelha formada por todos os adversários, como se alguém tivesse bruscamente redimensionado a janela do browser.

Douglas

A relação do seu corpo com o esférico é semelhante à de Eder: ambos parecem posicionar-se em relação a ele com a mesma hesitação semi-desequilibrada, como alguém montado num uniciclo. Praticamente infalível a aliviar cruzamentos (o que também, vamos lá ver, era o que faltava), mostrou mais dificuldades sempre que a bola vinha rasteira, altura em que as suas pernas organizam sempre um pequeno referendo para decidir qual delas ia tentar primeiro o corte. As suas tentativas de construção foram uma comovente fan fiction sobre os centrais britânicos da década de 80.

Jefferson

Como escreveu Nietzsche, quando olhamos demasiado tempo para o Abismo, o mais provável é o Abismo perguntar “mas o que é que tu queres?”, antes de nos pregar uma galheta nas trombas.

William Carvalho

Jogou uma fracção de segundos abaixo do ritmo colectivo (que já não era elevado), quase sempre sem arriscar o transporte de bola e jogando como se procurasse uma utopia de ajustamentos simétricos, purgada de ansiedades. Falhou o primeiro passe longo que tentou, ao minuto 21; falhou o segundo que tentou, ao minuto 56. Nas bolas divididas a meio-campo, perdeu pelo menos tantas quanto as que ganhou a uma dupla do Belenenses que pareceu uma ressurreição morfológica de uma dupla antiga do Everton (Gravensen e Carsley). Talvez não precise tanto de férias como o seu colega do lado; mas anda lá perto.

Adrien Silva

Qualquer pesquisa na internet por “Eu no início de 2016 vs. Eu no fim de 2016” ilustrará o actual estado de coisas com eloquência suficiente.

Gelson Martins

Os seus modos de expressão futebolística são tão antagónicos em relação ao resto da equipa que o milagre é não serem totalmente irreconciliáveis. A manobra ofensiva do Sporting é neste momento uma colecção de provérbios portugueses, enquanto Gelson é um poema em verso livre. Quando se dedica àquela anestesiada circulação de bola no meio, inevitavelmente seguida de abertura lenta e denunciada para uma das faixas, o que o Sporting está realmente a dizer é que “devagar se vai ao longe”, ou que “água mole em pedra dura (etc)”, ou que “grão a grão (etc)”. Quando acelera, ou ziguezagueia, ou muda de direcção, o que Gelson está a explicar é que ele é um espírito amplo, que contém multidões. Seria interessante encontrar aqui uma síntese, e pôr toda a gente a falar a mesma língua.

Bryan Ruiz

Duas penetrações rápidas pela esquerda concluídas com falhas no último passe foram a soma total dos minutos que passou em campo, em que de resto procurou sempre publicar cada intervenção em fascículos para os adversários coleccionarem.

Alan Ruiz

O que melhor mostrou hoje veio quase sempre da sua cabeça e não do seu corpo; até porque os pressupostos de que parte da sua imaginação conseguem nesta altura ludibriar mais facilmente os adversários do que a sua capacidade técnica e (especialmente) atlética. Mas tem capacidade de choque. Sabe proteger a bola com o corpo. Remata bem de longe (um profundo mistério neste clube). Joga bem ao primeiro toque. Tem talento – e não é pouco; isso será mais ou menos indiscutível. Mas falta-lhe uma transformação atlética que não será fácil, nem rápida, nem é dado adquirido. É ter paciência (outro profundo mistério neste clube).

Bas Dost

Chega tão atrasado à maioria das solicitações que a sua tarefa na área é menos a de um ponta-de-lança e mais a de um perito forense. Com uma expressão intrigada, dedica grande parte do tempo a compreender o que é que correu mal, chegando quase sempre à mesma conclusão: “eu fui para aqui, mas mandaram a bola para ali”. Por duas vezes em noventa minutos, ele e a bola chegaram ao mesmo sítio, ao mesmo tempo. Voltou a mostrar que duas vezes chega.

Joel Campbell

Nenhuma das suas iniciativas obedece a uma sequência lógica. Nenhum movimento tem qualquer ligação de causalidade com o movimento seguinte: todo o seu futebol se assemelha a um erro da função auto-complete. Mas neste jeito de quem faz as fintas parecerem cortes, as intercepções parecerem remates e os cruzamentos parecerem alívios, mostrou, mais uma vez, a energia, a vivacidade, e a eficácia caótica que poucos colegas conseguem sequer fingir nesta fase.

Luc Castaignos

Sacou um amarelo com o seu primeiro toque na bola. Pouco depois teve uma boa arrancada pela direita, que culminou num dos melhores cruzamentos do jogo. Arrastou a defesa para o sítio errado no lance do golo. Não é isto que explica uma contratação, mas é assim que se justifica um prémio de jogo.

Bruno César

Um santo Natal para ele, que o merece como poucos.