Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

Fernando Santos, mais como nós do que como eles

Fernando Santos juntou-se a Ronaldo nas distinções planetárias: já tínhamos o melhor futebolista do mundo, agora a IFFHS e a Globe Soccer dizem (e dizem bem) que temos o melhor selecionador do mundo - ele mesmo, Dom Fernando. E como apreciamos a boa disposição, pedimos a Rogério Casanova que nos escrevesse um ensaio sobre o homem que acreditou primeiro que nós todos naquela conquista impossível - o Euro, o nosso Euro

Rogério Casanova

Comentários

FABRICE COFFRINI

Partilhar

O cidadão português Fernando Santos foi hoje reconhecido pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol como melhor adepto do ano, distinção inteiramente merecida, tendo em conta as dificuldades inerentes ao facto de ter acumulado as funções de adepto com as de seleccionador. O nome e a natureza da IFFHS confere ao prémio uma aura automática de objectividade numérica, mas o prémio é acima de tudo, um galardão espiritual. Não devemos encará-lo como um prémio carreira, nem vale a pena debater se o mesmo é “justo”, enquanto reflexo de uma hierarquia de competências. O melhor adepto do ano é o adepto que mais mereceu o sucesso colectivo que festejou. Nesse sentido, pelo menos, não haverá prémio mais justo tão cedo.

A minha história preferida sobre Fernando Santos ocorreu nos tempos do Porto, e tenho pena de não conseguir recapitulá-la em condições. Se a memória não me falha, durante uma entrevista com a imprensa, Santos revelou ter ficado com uma dúvida táctica depois de ser repetidamente interrogado nas conferências de imprensa pós-jogo sobre o triângulo de meio-campo, interrogações que presumiam sempre uma formação 2X1 com dois trincos, quando ele achava que a equipa jogava de facto com um triângulo, sim senhor, mas com um único trinco, e dois médios mais avançados à sua frente. O que Fernando Santos admitiu nessa entrevista foi que a sucessão de perguntas, de vários jornalistas que partiam todos do mesmo pressuposto, levou-o a pensar que se calhar a equipa não estava a jogar como ele julgava, e que portanto talvez fosse boa ideia ir ver um jogo para a bancada, numa posição mais elevada, em vez de ficar no banco, só para tirar as coisas a limpo.

A maioria dos técnicos com reputação internacional de futebol cultiva (em todas as vertentes, incluindo as aparentemente extra-curriculares) uma identidade cujo principal objectivo é encarnar a sua abordagem ao futebol, e criar uma ilusória continuidade entre a personalidade do treinador e a personalidade da equipa. Daqui o esforço de Guardiola para interpretar sempre um humilde idealismo perfeccionista Guardiola, ou o ininterrupto psicodrama de elegante hostilidade encenado por Mourinho. Num patamar inferior (em pelo menos dois sentidos da palavra “inferior”) temos as pessoas que fingem que Sun Tzu ou Clausewitz têm coisas relevantes a dizer sobre pontapés de canto e ambientes de balneário, mas o propósito não deixa de ser o mesmo: perpetuar a confortável ficção de que as directivas emitidas pelos treinadores são seguidas à risca pelos jogadores, e que ocorre uma transferência exacta entre os projectos concebidos nas suas cabeças e as coisas que acontecem dentro das quatro linhas.

Fernando Santos é o tipo de pessoa que se alguém lhe perguntasse o que acha de Sun Tzu, responderia provavelmente com um encolher de ombros carrancudo, dizendo “onde é que esse joga?” O que não deixa de ser também uma tentativa de cultivar uma identidade (pois saberá muito bem, talvez melhor do que a hipotética pessoa que faria a hipotética pergunta, quem foi Sun Tzu). Mas é uma identidade cultivada que parece ter mais ligação com a realidade, especialmente no contexto específico do futebol de selecções e dos torneios internacionais, onde a figura do treinador é quase cerimonial: um estranho híbrido de Chefe de Estado e Provedor do Adepto, cuja tarefa é pantominar na linha lateral as flutuações erráticas da auto-estima colectiva.

Tal como nós, o “Seleccionador” tem montes de ideias para alterar o rumo dos acontecimentos. Tal como nós, as suas oportunidades para o fazer são, na prática, inexistentes. Tal como nós, pensa obsessivamente sobre o que está a correr mal, critica quem comete erros, tenta gritar instruções impotentes para jogadores que não o conseguem ouvir, esbraceja furiosamente perante cada micro-injustiça. É um adepto. A única diferença é que depois do apito final tem de ir explicar a milhões de outros adeptos porque é que faz imenso sentido que tenha acontecido aquilo que aconteceu.

Há uma ideia que se tornou tão prevalente nos últimos 15/20 anos que foi elevada a um dos clichés do jogo, e poucos treinadores não ensaiaram já a sua versão: os esquemas tácticos (o 4-4-2, o 4-3-3) pouco significam; o que importa verdadeiramente é a dinâmica. Fernando Santos foi o único treinador no meu tempo de vida que conseguiu falar plausivelmente sobre esquemas tácticos (sobre o 4-4-2, sobre o 4-3-3) como se achasse tudo aquilo importantíssimo. E foi só ao ouvi-lo falar dessa maneira que finalmente percebi: os esquemas tácticos (o 4-4-2, o 4-3-3) se calhar pouco significam; se calhar o que importa verdadeiramente é a dinâmica.

Mas o seu maior mérito este ano foi ter sacrificado qualquer intenção de fazer propaganda à sua personalidade – como mentor, como guru, como responsável. Durante o período condensado do Europeu, Fernando Santos liderou de forma puramente reactiva. Nunca precisou de ser um génio a substituir jogadores porque foi um génio a substituir intenções e emoções. A sua melhor frase não foi o célebre “só volto para casa dia 11”, mas sim o crucial (dito no dia antes da final): “Quero que digam que ganhámos sem merecer, ia todo contente para casa”.

Fernando Santos percebeu antes de qualquer outro adepto qual seria a reacção mais racional e eficaz ao opróbrio despejado sobre uma selecção habituada a ser elogiada precisamente pelo seu estilo de jogo. Não fingiu que as contingências foram planeadas, como faria um treinador. Fez melhor do que isso, e fingiu que as contingências, aquelas contingências, eram precisamente aquelas que nós mais queríamos – como faria, e deve sempre fazer, um bom adepto perante o sucesso, por mais improvável e incaracterístico que seja esse sucesso.

Outros mereceram ser campeões da Europa. Mas naquela arena onde a justiça futebolística é uma função metafísica do investimento emocional na ideia (central para o adepto) de que o que acontece aleatoriamente é por vezes a melhor coisa do mundo , ninguém o mereceu tanto quanto ele.

  • Fernando Santos, o homem que tinha um plano

    Lá Em Casa Mando Eu

    Fernando Santos juntou-se a Ronaldo nas distinções planetárias: já tínhamos o melhor futebolista do mundo, agora a IFFHS e a Globe Soccer dizem (e dizem bem) que temos o melhor selecionador do mundo - ele mesmo, Dom Fernando. E como apreciamos a boa disposição, pedimos a Catarina Pereira que nos escrevesse um ensaio sobre o homem que acreditou primeiro que nós todos naquela conquista impossível - o Euro, o nosso Euro

  • Venham daí as derrotas morais, mister

    Um Azar do Kralj

    Fernando Santos juntou-se a Ronaldo nas distinções planetárias: já tínhamos o melhor futebolista do mundo, agora a IFFHS e a Globe Soccer dizem (e dizem bem) que temos o melhor selecionador do mundo - ele mesmo, Dom Fernando. E como apreciamos a boa disposição, pedimos ao Azar do Kralj que nos escrevesse um ensaio sobre o homem que acreditou primeiro que nós todos naquela conquista impossível - o Euro, o nosso Euro