Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

Sentido posicional de Baresi, qualidade de Cannavaro, pés de Torsiglieri, e felicidade cósmica de Tonel. Quem? (por Rogério Casanova)

Se quiser perceber de quem fala Rogério Casanova, é fazer scroll e descobrir a resposta a esta e a muitas outras questões, algumas filosóficas, outras literárias

Rogério Casanova

Octavio Passos

Partilhar

Beto

Um jogo perfeito para exibir as competências que adquiriu na sua pouco conhecida licenciatura em Psicologia. Com pouco trabalho, dedicou-se a ler atentamente o termostato emocional dos colegas e a tomar decisões em conformidade. Pouco depois do golo do Feirense, temendo a inércia que ameaçava instalar-se, despejou um inócuo pontapé de baliza pela linha lateral. Dez minutos depois, percebendo que o estratagema motivador não tinha funcionado em pleno, decidiu aliviar a bola para os pés de um adversário à entrada da área. Felizmente o jogo terminou sem ser preciso despir-se, fingir um ataque de pânico, e desatar a correr na direcção do fosso.

Esgaio

A imagem do stream extremamente dentro das leis em que vi o jogo passou para preto e branco em pelo menos seis ocasiões, todas elas – TODAS elas – durante intervenções de Esgaio na partida. Jogou mal? Não, não jogou “mal”. Jogou bem? Não, não se pode dizer que tenha jogado “bem”. Chama-se Ricardo Esgaio? Nesta altura é possível afirmar com alguma confiança que sim. É ele o problema? Não, Ricardo Esgaio não é o problema, nem a solução – é um útil jogador de plantel, e assim será durante o resto da carreira.

Coates

Parece contra-intuitivo, mas em certos jogos há algo de diáfano na sua presença, pela definição canónica da palavra – que qualifica algo compacto, mas que ainda assim deixa passar a claridade. Transmite a pose típica dos jogadores inteligentes e silenciosamente temperamentais, que existem numa postura permanente de crítica em relação ao que os rodeia; mesmo que não consigam articular fisicamente a substância dessa crítica, os adversários ficam sempre convencidos de uma coisa: Coates não considera a presença deles agradável. Apareceu num momento decisivo, no minuto mais perigoso de todo o encontro (a jogada logo a seguir ao golo do Farense) para fazer um grande corte na área e evitar o empate.

Paulo Oliveira

Uma perfeita síntese de laboratório entre o sentido posicional de Baresi, a qualidade nos duelos individuais de Cannavaro, os pés de Torsiglieri, e a felicidade cósmica de Tonel. Mostrou a habitual omnipresença perpendicular na linha defensiva, acumulando dobras semi-anónimas em zonas de perigo, no segundo exacto em que um contra-ataque perigoso podia começar (ao minuto 50’ fez duas, uma em cada faixa lateral). O semi-anonimato é um conceito importante para o perceber. Pela minha experiência, quando Paulo Oliveira faz um corte crucial, há sempre alguém quem pergunta “quem foi? Foi o Paulo Oliveira?”; sempre que falha um passe, por outro lado, nunca ninguém faz a mesma pergunta.

Bruno César

Participou na melhor tabela do jogo, se não mesmo da temporada, ao devolver a bola a Campbell para o golo inaugural, mas também é nas suas costas que foge o avançado do Feirense. Continua a ser provavelmente o melhor lateral-esquerdo do plantel – frase que, apesar de tudo, é menos um suspiro de desabafo do que possa parecer.

William Carvalho

Tentou apagar a má imagem deixada pelos assobios dissidentes antes do apito inicial, e esforçou-se mais do que ninguém para homenagear a memória do Dr. Mário Soares com noventa e três eloquentes minutos de silêncio.

Gelson

A trajectória do romance realista passa muito por certos marcos geodésicos – Dom Quixote, Madame Bovary, O Grande Gatsby – cujo tema é quase sempre a exploração dos efeitos do tédio da existência diária numa imaginação romântica incapaz de encontrar escape para as suas fantasias. Ou seja: Gelson Martins contra o Feirense. Reposta a normalidade na sua cotação de mercado, espera-se agora que transite de novo para o Modernismo no próximo jogo.

Adrien

Fez o primeiro remate da partida no primeiro minuto, por cima. Voltou a rematar aos 13’, um pouco menos por cima. A progressão aritmética indicava um inevitável golo ao ângulo por volta do minuto 39’, mas acabou por sair depois de uma tentativa falhada de decapitação por parte de um cidadão de Santa Maria da Feira, povoação medieval com a qual o Sporting deve de imediato suspender relações diplomáticas.

Joel Campbell

É possível que não haja outro ser humano no planeta que encarne com tamanha veemência o conceito de “futebol total” como Joel Campbell. Não o futebol total tradicionalmente associado à escola holandesa, mas um futebol total na medida em que abarca e ilustra a totalidade do espectro técnico e emocional que a modalidade é capaz de produzir – a modalidade que inclui recepções perfeitas de costas e cruzamentos para uma das luas de Saturno, piques curtos imparáveis e trambolhões não provocados. Num jogo onde terá estado entre os 3 ou 4 melhores em campo, e onde contabilizou mais uma assistência, o que fica na memória é a jogada ao minuto 14’, que pode e deve ser preservada no museu do clube para as gerações futuras saberem o que foi Joel Campbell: recebeu um balão da faixa contrária com o pé esquerdo, num gesto que orgulharia Berbatov, depois falhou um drible, depois recuperou inadvertidamente a bola com o calcanhar, depois ultrapassou um defesa, depois cruzou direitinho para o guarda-redes, depois voltou a correr para o seu meio-campo como se tivesse de acabado de participar na sequência de eventos mais natural do mundo.

Alan Ruiz

Ao descrevermos um jogador como “lento” podemos estar a descrever vários fenómenos diferentes. Podemos estar a falar de alguém como Esgaio, por exemplo, que chega sempre aos lances uma fracção de segundos depois daquilo que adivinhamos quando o vemos correr. Ou podemos estar a falar de uma lentidão muscular que se nota menos em corrida do que em micro-movimentos de travagem ou rotação. O biotipo de Alan Ruiz tem um antecedente recente em Alvalade (chamava-se Renato Neto), na medida em que vê-lo executar essas pequenas manobras evoca a imagem de um porta-aviões a inverter a marcha. A diferença (crucial) em relação a Renato Neto é que há ali uma cabeça muito especial na torre de comando e o pé esquerdo mais talentoso da frota. Foi, muito vagarosamente, o melhor em campo; e vai sê-lo mais vezes.

Bas Dost

Marcou o primeiro golo depois de fazer exactamente a mesma desmarcação (com o mesmo movimento, para o mesmo sítio) que andou a tentar durante várias vezes nos últimos tempos, durante os jogos consecutivos em que os colegas insistiam em passar a bola uns centímetros para a frente ou uns centímetros para trás. É possível que a equipa tenha demorado seis meses a interiorizar os fundamentos do Princípio Antrópico de Bas Dost: se as constantes da Natureza (a carga e massa do electrão, a constante de Planck, a porra dos cruzamentos rasteiros) fossem ligeiramente diferentes, os golos tal como os conhecemos não seriam possíveis. Conseguir ser o melhor marcador da Liga, mesmo no meio deste combate cosmológico, é um triunfo assinalável.

Elias

Certa manhã, ao acordar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se na sua cama transformado num enorme elias.

Bryan Ruiz

Boa entrada no jogo, com uma cavalgada pela direita e um cruzamento de trivela. Talvez por isso, começou a entusiasmar-se e depois de novo galope pelo centro do terreno, tentou rematar de fora da área, partindo certamente do princípio que enfiar a bola na baliza ainda é uma proeza ao seu alcance. Poucos minutos depois voltou a tentar a sorte, desta vez com um chapéu. De pé direito. Porque não?

Jefferson

Entrou para evitar que André voltasse a falhar um golo de baliza aberta, tarefa que cumpriu com 100% de sucesso.