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Rogério Casanova

Bryan Ruiz continua a protagonizar o blackout mais expressivo do futebol português (Rogério Casanova explica o empate em Chaves)

Rogério Casanova aproveita o empate do Sporting em Chaves para nos explicar as parecenças de Bruno César com Haussman e as saudades que William sente de Adrien - e dele próprio

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Rui Patrício

A especificidade contra-intuitiva da posição de guarda-redes resume-se, no fundo, a isto: reunir num indivíduo um conjunto de características físicas e técnicas excecionais – na expetativa de que nunca venham a ser usadas. É teoricamente possível ser o melhor guarda-redes do mundo, mas ter tão poucas oportunidades de o mostrar que o estatuto pode permanecer um segredo para sempre. Rui Patrício tem sido um digno representante deste paradoxo, em especial nos últimos seis meses, cuja montagem audiovisual mais evocativa não seria uma sequência de defesas arrojadas e manifestações de elasticidade, mas antes de expressões faciais resignadas, seguidas de gestos de motivação para os colegas.

Esgaio

Alguém pode dizer que Esgaio não se esforçou? Nunca ninguém o disse, nunca ninguém se atreverá a dizê-lo. Mesmo que passe o resto da carreira sem acertar um cruzamento, mesmo que corra como se a Lei da Gravitação Universal o tivesse desafiado para um duelo, mesmo sendo com toda a certeza o jogador preferido do Abrantes Mendes, mesmo sem evitar manchetes regulares garantindo que o Sporting “está no mercado” por um lateral-direito, Esgaio fará sempre exibições esforçadas. E ninguém alguma vez dirá o contrário.

Coates

Um grande momento ao minuto 71, quando apanhou um adversário embalado de frente e conseguiu desarmá-lo sem fazer falta e mantendo a posse de bola, conseguindo assim protelar por trinta segundos a inevitável expulsão do colega de sector. Mostrou a habitual eficácia nas interceções e a habitual precisão na saída de bola, até ao momento em que tentou combinar as duas coisas e (com um azar que pode ter a certeza de não encontrar em qualquer outro clube) fazer uma assistência involuntária para o melhor golo da carreira de Fábio Martins – ou pelo menos o melhor golo de Fábio Martins até à próxima quarta-feira.

Rúben Semedo

Exibição perra e atabalhoada do atleta do clube claramente mais afetado pela incendiária retórica eleitoral de Pedro Madeira Rodrigues.

Bruno César

Mostrou hoje que partilha com Haussmann, o arquitecto de Napoleão III responsável pela renovação de Paris, uma preferência por avenidas amplas e rectilíneas, como aquela que idealizou nas suas costas logo no início do jogo, permitindo que o ala direito do Chaves conseguisse chegar ao Arco do Triunfo sem pedir indicações a ninguém. Mesmo a atacar (lento nas combinações, impreciso nos cruzamentos) não fez esquecer Bruno César , e acabou por ser substituído ao minuto 75 por Bruno César que, fresco e acabadinho de entrar, desmarcou de forma perfeita André na jogada do 1-2, provando assim que devia ter jogado de início.

William Carvalho

Continua a ser um dos poucos jogadores do mundo capazes de executar o lance que costuma típica e justamente ser descrito como “chuveirinho” (parábola lenta para o coração da área) e fazê-lo parecer não uma jogada de desespero, mas uma excelente e revolucionária ideia. Ao contrário de quase todos os colegas, subiu um pouco de rendimento depois do intervalo, começando a ganhar bolas divididas e impedindo vários contra-ataques antes sequer de os jogadores do Chaves perceberem que estavam prestes a lançar um contra-ataque. Suportou as saudades que sente de Adrien – e de si próprio – mais ou menos até ao último quarto de hora, mas depois deixou-se levar pela mágoa.

Gelson

Desde que os colegas perceberam que lhe podiam passar a bola de qualquer maneira, começaram a passar-lhe a bola de qualquer maneira, de modo que é cada vez mais frequente vê-lo a tentar receções orientadas cheias de otimismo, mesmo quando enfiado num beco escuro com três marginais à sua volta a ameaçá-lo com navalhas. É uma das injustiças ontológicas que o futebol por vezes inflige aos virtuosos: reduzir a sua individualidade ao penoso circuito dos “processos coletivos”. Claro que faz sentido (e que é, aliás, a única maneira de fazer as coisas desde 1962), mas ver um jogador como Gelson a esperar por apoios, a procurar Esgaio pelo canto do olho, a fingir que é melhor tabelar do que fazer as coisas sozinho – tudo isto é um pouco como ver o deus Loki a redigir a acta de uma reunião de condóminos em Asgard.

Adrien

Às primeiras impressões pareceu totalmente restabelecido da tentativa de assassinato de que foi vítima na semana anterior, despejando litros de suor em várias zonas do campo e desenhando, ao minuto 20, um dos melhores lances ofensivos da primeira parte, depois de tirar um adversário do caminho e desmarcar Campbell na esquerda através do buraco de uma agulha. Foi perdendo gás com o passar do tempo (a maioria dos seus passes errados foi depois do intervalo) e, cumprindo uma tradição da época, desapareceu por volta dos 70 minutos – sendo que desta vez nem precisou de ser substituído.

Joel Campbell

Mais uma simbiose perfeita entre energia, júbilo, inocência e um profundo desconforto físico. Joga como se não fizesse a menor ideia do espaço que as diferentes partes do seu corpo ocupam, e usa cada músculo como se estivesse genuinamente curioso em saber qual vai ser o resultado: vou flectir um peitoral ou uma narina? Cada movimento de Joel Campbell parece camuflar uma hesitação permanente, como um ladrão de automóveis a tentar fingir que está apenas a fazer um test drive. É possível que haja ali uma disfunção motora análoga à sinestesia: em vez de ouvir cores ou saborear sons, Campbell remata centros e cruza tabelas. Está aqui o grande livro que Oliver Sacks deixou por escrever.

Alan Ruiz

Uma boa súmula das suas virtudes e defeitos ao minuto 25: encontrou (como poucos colegas conseguem fazer) um espaço vazio no último terço do terreno, recebeu bem e depois deixou passar algumas eras geológicas antes de preparar o remate. Não é muito arriscado profetizar que fará piores exibições do que a de hoje – nem que fará (mesmo que esporadicamente) exibições ainda melhores do que a da semana passada. Arrisquemos portanto outra profecia, esta mais oblíqua e rebuscada. Alan Ruiz custou 8 milhões de euros, o orçamento de Pulp Fiction: uma obra-prima sem sequência cronológica, onde se fala imenso sobre hamburguers, e que acabou por perder o Oscar para Forrest Gump, um filme muito pior, sobre uma pessoa não muito esperta, mas que se farta de correr.

Bas Dost

Teve duas oportunidades e meia de golo: a primeira logo aos seis minutos quando improvisou um chapéu depois de solicitado por William, e depois as duas que concretizou. É reconfortante pensar que algures, num Universo paralelo, Bas Dost foi contratado pelo Sporting em 2015, e terminou a época passada como campeão, com 450 golos marcados, e sem nunca ter de correr para se desmarcar nas linhas laterais. A sua expressão facial no banco de suplentes, aliás, era a de alguém embrenhado numa fantasia semelhante.

André

É quase a forma platónica de uma entidade a que podemos chamar o “Razoável Avançado Brasileiro”, e talvez o melhor elemento ofensivo do plantel a fazer aquele jogo básico de apoios, tabelas e mobilidade em espaços curtos. Nota-se uma inteligência especial em momentos como o amorti de cabeça para Adrien ao minuto 59 (que idealizou ainda a bola estava a vinte metros). A jogada do 1-2 é quase toda sua. Não é a primeira vez que sai do banco para deixar a ideia de merecer mais minutos; há-de regressar à titularidade para deixar a ideia de não merecer tantos.

Bryan Ruiz

Até nem entrou mal, mostrando aquela que nesta altura é a sua única vantagem clara sobre Campbell (a facilidade para jogar em espaços claustrofóbicos), mas a diferença na influência que tem na equipa da época passada para esta configura o exemplo de blackout mais expressivo da história do futebol português.

Paulo Oliveira

Entrou com instruções rigorosas para não ter quaisquer culpas no golo do empate que aí vinha, e cumpriu.