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Rogério Casanova

O Sporting venceu e Rogério Casanova tem coisas bonitas para dizer sobre isso. Como esta: "Calme bloc ici bas chu d'un désastre obscur"

Rogério Casanova ficou agradado com a vitória do Sporting sobre o Paços (4-2) e com a exibição de vários jogadores, como Alan Ruiz: "Concebido pelas pressões de quinze atmosferas, enriquecido pelos sedimentos acumulados por gerações anteriores de criativos temperamentais sul-americanos, transportando vagarosamente no fluxo sanguíneo mensagens secretasdos seus antepassados, vai mostrando um talento raro para encontrar os ainda mais raros espaços vazios para onde colegas podem correr"

Rogério Casanova

MIGUEL A. LOPES/ Lusa

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Rui Patrício

Excelente defesa a um livre direto mesmo em cima do intervalo, tendo desta vez concordado, ao contrário do que acontecera na Madeira, com o lado da baliza para o qual o adversário decidiu rematar. Ao intervalo foi obrigado a desviar as bolas de naftalina do cacifo para ir buscar o fato de São Patrício, que usou para fazer uma mancha a Welthon ao minuto 58 e para responder a um remate à queima já perto do apito final.

Encarnou o verso de Mallarmé sobre Poe: calme bloc ici bas chu d'un désastre obscur. Ou, na tradução mais conhecida: "aqui está o gajo que, grande parte do tempo, evita merdas piores".

Schelotto

Fez o melhor cruzamento pelo ar ao minuto 8, para Bryan Ruiz, e fez um dos melhores cruzamentos rasteiros para Dost fazer o 2-0. Também inventou um lance improvável, praticamente sozinho no meio de três adversários, ao minuto 56, conseguindo ganhar canto. A partir daí, como tem acontecido desde que regressou da lesão, começou a perder lances em velocidade, e chegou ao fim do jogo a hiperventilar, desfeito em parestesias, taquicardias, fadiga e alucinações.

Paulo Oliveira

Teve uma única falha de marcação, logo aos quatro minutos. Bem a resolver barafundas à entrada da área, nos minutos de tensão entre o primeiro e o segundo golo do Paços. Dois grandes desarmes na segunda parte, ambos recorrendo à sua especialidade: o corte em esforço, já no chão, depois de toda a civilização ter colapsado. Continua a ser extremamente italiano em tudo, excepto quando se penteia ou quando arrisca um passe para qualquer outro colega que não o mais próximo.

Semedo

Tem o condão de transformar a mais inócua saída de bola num momento de tensão generalizada. Não só porque o seu arranque muscular acompanhado de melena flutuante o faz parecer um extremo holandês da linha Taument, mas também porque a qualquer momento (e com maior frequência nos últimos tempos do que no ano passado), pode adiantar demasiado a bola e perdê-la para um adversário.

A defender manteve a bitola desde Outubro, alternando grandes desarmes no corpo a corpo (como no roubo de bola a Osei ao minuto 24), com deslizes comprometedores.

Bruno César

Bom movimento defensivo à meia hora, compensando uma má primeira abordagem ao lance com um bom corte em carrinho. Ao minuto 56 matou saudades dos tempos em que era médio-ofensivo cortando uma jogada de perigo do Paços com um remate à própria baliza (foi ao lado, como planeado). Pedir-lhe as proezas de atletismo que a função de lateral exige é pedir-lhe também para abdicar do que melhor mostrou nos primeiros meses da época em posições mais ofensivas: intensidade na pressão alta e esclarecimento em espaços curtos. Ninguém foi mais prejudicado do que ele pela falta de boas alternativas para lateral esquerdo. Substituído a dois minutos do fim, provavelmente para sair para o balneário e ser adaptado a roupeiro.

William

Errou inexplicavelmente um passe curto ao terceiro minuto. Errou um exatamente igual ao minuto dezanove. Fez uma grande abertura longa para Gelson ao nono minuto. Fez outra exatamente igual para o 3-0. Viu um amarelo que o impede de jogar contra o Porto ao minuto 45. Viu outro igual ao... não, afinal não foi necessário ver outro amarelo.

Embora tenha continuado a sua tendência recente de abordar a pressão ao portador da bola como se fosse alguém que cumprimenta um transeunte num quadro de Courbet, suspeito que estamos prestes a confirmar que faz muito mais falta à equipa do que aquilo que parece.

Gelson Martins

Acumulou passes demasiado curtos ou demasiado longos em combinações com Schelotto, em jogadas que poderiam ter sido perigosas caso tivesse combinado consigo próprio. Bom passe a rasgar aos 22, num lance que poderia ser perigoso caso o jogador desmarcado fosse ele próprio. Aos 27, num contra-ataque, tentou lançar em velocidade Alan Ruiz, numa jogada que poderia ter resultado em golo caso o jogador lançado em velocidade fosse ele próprio. Marcou um grande golo e fez uma boa exibição, mas talvez esteja na altura de, enquanto os colegas vêem vídeos dos adversários, o obrigar a ver vídeos dos colegas.

Adrien Silva

Sofreu uma agressão bárbara e claríssima dentro da área, justamente punida com grande penalidade, que depois converteu para o golo inaugural.

Sem energia para transportes de bola rápidos, sem a precisão automática que no seu melhor, consegue impor a qualquer toque transviado no meio-campo, sem a hiper-intensidade para recuperar bolas nas duas áreas no espaço de 15 segundos, foi apostando na circulação e nas variações longas de flanco, quase sempre bem. Saiu aos 60, em parte para evitar o amarelo que obrigaria o meio-campo no Dragão a ser formado exclusivamente por Brunos Césares adaptados.

Bryan Ruiz

Aos 8 minutos, na pequena área, só com o guarda-redes pela frente? Exato: Bryan Ruiz. Apesar de tudo fez a melhor exibição dos últimos tempos. É ele quem recupera bola na linha defensiva para lançar a jogada que deu origem ao primeiro golo; é ele quem desenha a melhor jogada colectiva da primeira parte (minuto 20), é dele um grande passe para Gelson ao minuto 29. Conseguiu até ganhar lances no 1x1 e ultrapassar defesas em velocidade. Foi um saudável interregno no que começava a parecer um processo irreversível de Aquilanização. Na segunda parte, especialmente depois de derivar para o meio, foi regredindo gradualmente para o "Bryan Ruiz de 2016/17".

Alan Ruiz

Concebido pelas pressões de quinze atmosferas, enriquecido pelos sedimentos acumulados por gerações anteriores de criativos temperamentais sul-americanos, transportando vagarosamente no fluxo sanguíneo mensagens secretasdos seus antepassados, vai mostrando um talento raro para encontrar os ainda mais raros espaços vazios para onde colegas podem correr (como fez com Gelson logo aos 7 minutos). Idealizou a jogada do penálti, demorando o tempo necessário a procurar a melhor opção. E no lance do 2-0, prolongou o período de "reflexão com bola" até descobrir o único cidadão do hemisfério norte que não estava em fora de jogo. Parece existir para escarnecer do conceito "rapidez de execução". Merece mais minutos – e a paciência e engenho necessários para utilizar um talento tão sui generis num futebol cada vez menos recetivo às suas qualidades e defeitos.

Bas Dost

Apareceu pela primeira vez ao minuto 20, num lance em que não podia marcar golo e, por conseguinte, tentou criar as condições necessárias para que fosse Bryan Ruiz a não marcar golo. (Não conseguiu, apesar de ter conseguido). A partir daí foi uma questão de desaparecer durante minutos suficientes para depois reaparecer no sítio certo. A forma como procurou Alan Ruiz, e não Schelotto, para agradecer o 2-0 revela uma personalidade crítica especial e bem informada – como aquelas pessoas chatas a discutir política que, quando se aponta o sucesso de uma qualquer medida governativa, apontam logo que o mérito é na verdade de medidas tomadas durante a legislatura anterior.

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Palhinha

Voltou a mostar boa agressividade sem bola, e passou os primeiros minutos em campo a tentar recuperações no último terço com a intensidade de um cleptomaníaco. Nem tudo lhe correu bem daí para a frente, mas teve um grande momento ao minuto 74: ganhou uma bola, perdeu-a, caiu ao chão, fingiu ter sofrido falta, percebeu que o subterfúgio não resultou, levantou-se e foi ganhar a bola outra vez, tudo isto em menos de cinco segundos. Ricardo Sá Pinto ficaria orgulhoso.

Zeegelaar

Aparentemente teve uma proposta do Norwich, o mesmo clube que há uns anos contratou Van Wolfswinkel, e recusou-a. Tudo nesta frase me parece engraçadíssimo, embora não consiga exactamente explicar porquê.

Matheus Pereira

Tendo em conta que durante os últimos seis meses foi considerado pior futebolista do que Campbell e Markovic, esperava-se que assinalasse este regresso à equipa principal com alguns passes transviados, recepções com a canela, e remates na direcção geral de Telheiras. Não o fez, o que é estranho.