Tribuna Expresso

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Rogério Casanova

O tarólogo que há em Rogério Casanova deitou as cartas e deu nisto (o poder da adivinhação antes do clássico)

A horas do jogo FC Porto-Sporting, nada melhor do que puxar do Tarot e ver o que o futuro nos reserva

JOSE MANUEL RIBEIRO

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1. Arcano Maior XVIII. A Lua

Falsas ilusões. Tudo é visível, mas nada se descobre.

É uma carta de dúvida, confusão, incógnita. Sugere inimigos ocultos, mas também soluções intuitivas. Assinala o início de uma viagem ao Norte geográfico - paisagem onde durante um efémero período no séc. XXI, o losango de Bento representava sempre o mais profundo dos mistérios para o triângulo de Jesualdo – mas também ao Norte misterioso. Ouvem-se histórias de viajantes, amplificadas pela repetição. Lobos e ursos percorrem esta terra selvagem, muitos deles internacionais mexicanos, procurando as suas presas pelo meio de donzelas com arco e flecha. Nas sombras distinguem-se pupilas incandescentes. A congregação inquieta coloca questões esotéricas: “Como trespassar o véu que separa este Reino do próximo?”; “Qual o justo equilíbrio entre prudência e audácia?”; “Como é que aquele palerma ainda não aprendeu a fazer cruzamentos por alto?”.

2. Arcano Maior XXII. O Louco.

As faculdades humanas atingiram o limite e desabam perante a Luz Interior.

É a última carta dos Arcanos Maiores, a carta número 22, mas também o 0, isto é: Marvin Zeegelaar (corajosamente designado pela Wikipedia e pela generalidade da imprensa como “lateral esquerdo”).

O Marvin Zeegelaar é uma carta de credulidade, impulsos irreflectivos e optimismo militante. Confronta-nos com as escolhas que fizemos no passado, nomeadamente no mercado de Verão.

A mente do Marvin Zeegelaar é uma paisagem calcinada. Reza a lenda que Werner Herzog filmou algumas sequências de Fitzcarraldono interior da sua auto-estima. O seu percurso leva-o normalmente à margem de um rio de águas glaucas, repleto de piranhas, que ele vê ingenuamente como jaquinzinhos, e que tenta acariciar com o dedo grande do pé direito - que acredita piamente ser tão eficaz como o seu pé esquerdo.

Tudo na vida é um ciclo.

3. Arcano Menor: Valete de Espadas

Reformulação, regeneração, emagrecimento.

O naipe representa a lucidez e a racionalidade. O valete, com recurso à lógica, representa a comunicação correcta de planos e projectos.Na posição “Futuro”, indica que foi concluído o rito de fertilidade sazonal conhecido como “A Devolução do Elias”. A regência de Júpiter indica que Adrien Silva vai sair exausto de campo ao minuto 72, sendo substituído por uma girândola de fogo.

4. Arcano Maior IV. O Eremita

Um cidadão da Costa Rica, envergando uma túnica, transporta a chama frágil da sua candeia através de uma paisagem desolada.

É a carta do desapego, da introspecção, do isolamento.

Após uma vida atarefada de criação, amor, compromisso e assistências para golo, o Eremita sente uma profunda necessidade de exílio e ascetismo. Num pequeno casebre rústico no coração do bosque, procura a paz interior; mas ao pôr-do-Sol pega no seu cajado e na sua candeia e aventura-se pela paisagem crepuscular. A chama do seu pavio ilumina insectos, plantas, e os recantos secretos do mundo. O eremita sente que também os recessos da sua mente são alumiados. A regência de mais ou menos todos os planetas do Universo visível indica que vai ter uma oportunidade de golo isolado ao minuto 56, e que quinze mil cigarros vão ser consequentemente incinerados.

5. Arcano Maior I: O Mago

Uma espada, um cálice dourado, uma varinha mágica, um Gelson Martins, alguns defesas sul-americanos espalhados pela relva.

O Mago consegue criar um futuro apenas com gestos. Todas as possibilidades estão em aberto, todas as direcções são possibilidades.

6. Arcano Menor: Dez de Paus

Representa o povo, os camponeses, a força de trabalho, a Idade Média, os foras-de-jogo e o André Silva.

Na posição “Obstáculo”, indica que o trabalho de outras pessoas poderá necessariamente exercer influência directa sobre o nosso. É um sinal de aviso.

7. Arcano Maior III. O Hierofante

Trono, apito, mãos erguidas num gesto de benção; dois acólitos por perto, segurando bandeirinhas. As forças ocultas, voluntariamente invocadas.

Tendo criado alicerces sólidos para construir o nosso futuro, somos assolados pela dúvida: e se tudo aquilo pelo qual trabalhámos nos for roubado ou destruído? E se os alicerces não forem suficientes sólidos? Em pânico, fazemos uma peregrinação ao Templo, onde encontramos o Hierofante, um homem santo e sábio. Dois acólitos ajoelham-se aos seus flancos, registando os ensinamentos. Partilhamos os nossos receios com o Hierofante e perguntamos como podemos livrar-nos deles.

“Há duas maneiras, caríssimo efebo”, responde sapientemente o Hierofante. “Ou abdicas à partida do que receias perder, para que a derrota não consiga exercer poder sobre ti, ou consideras o que ainda terás na tua posse caso os piores receios se concretizem. Caso perdesses tudo o que construíste até aqui, ainda manterias na tua posse a experiência e o conhecimento que adquiriste na Viagem, não é correcto?”

“Sim, mas e os penalties inventados?

“Cala-te”, explica magnanimamente o Hierofante, com um brilho de compaixão nos seus límpidos olhos azuis.

8. Arcano Polivalente: O Bruno César

Representa o lateral-esquerdo e o médio-esquerdo, o falso 10 e o verdadeiro 8, o Alfa e o Ómega,e, em caso de extrema necessidade, pode também ser adaptado a narrativa de redenção, a bode expiatório, a vereador municipal, e até acolunista do Expresso.