Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

*RECORD SCRATCH* *FREEZE FRAME*. “Sim, sou eu” (ou porque Rogério Casanova diz que Rui Patrício regressou a 2007)

Rogério Casanova, sportinguista sofredor, escreve sobre os jogadores do seu clube que hoje ganharam em Moreira de Cónegos

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Partilhar

Rui Patrício

*RECORD SCRATCH*

*FREEZE FRAME*

“Sim, sou eu. Provavelmente estão a pensar como é que vim aqui parar, como se o ano de 2007 nunca tivesse acabado”

Schelotto

Existe uma percepção colectiva, difícil de justificar, mas quase sempre consensual, sobre o estatuto de determinadas equipas em relação aos patamares futebolísticos que ocupam: equipa X pertence por direito próprio ao escalão superior, enquanto a equipa Y só lá se vai mantendo a prazo, e num tumulto de sorte e desespero. Acontece um fenómeno semelhante com os elementos do plantel de um clube grande, e Schelotto, que passa bastante tempo em constante risco de despromoção, esfarrapa-se como ninguém na candidatura ao estatuto de Paços de Ferreira. Mais um jogo na linha de água a defender, e de meio da tabela a atacar, com o ponto alto no cruzamento atrasado para o golo da vitória.

Coates

Algures numa pequena povoação no estado do Rio Grande do Sul, depois de gravar um pequeno reclame para uma empresa local dedicada à produção de soja, o ex-internacional brasileiro Anderson Polga vai retirar-se para o seu camarim, acender um cigarro, ver um .gif mostrado pela sua assessora pessoal com os três pontapés sem nexo para a molhada que Coates ensaiou esta noite, depois de não encontrar soluções credíveis à sua frente no meio-campo, e dizer num murmúrio gutural: “No meu tempo a construção de jogo também era assim, mas, em abono da verdade, eu abusava um pedaço”.

Semedo

Safou-se de um passe perigoso de Coates ao minuto nove, e vingou-se poucos minutos depois fazendo uma sucessão de passes ainda piores. Mais tarde perdeu a bola numa cavalgada acéfala pelo meio-campo, dando início à jogada do primeiro golo do Moreirense. A confiança, no entanto, parece intacta. Como Louis Armstrong está para o trompete, ou Kasparov para o tabuleiro de xadrez, Ruben Semedo está para o alívio de calcanhar em situações de pressão. Depois da bola na barra ao minuto 74, aquela hesitação de dois segundos antes de acabar por atirar a bola pela linha lateral? Foi o tempo necessário para processar toda a informação disponível e resolver a seguinte equação: mais um alívio de calcanhar nesta situação = Paulo Oliveira para a semana.

Bruno César

Testemunhou a sucessão de sacrifícios dos colegas na jogada do 1-0 com o coração a transbordar de amizade, e no fundo só teve o azar de ser o último a gritar “No, I’m Spartacus!”. Teve um grande minuto ainda na primeira parte, primeiro cruzando (de pé direito!) para um cabeceamento perigoso de Gelson; e pouco tempo depois com uma desmarcação perfeita para uma daquelas diagonais para a quina da área que Bas Dost começou a ensaiar de vez em quando, para não apanhar hipotermia – e que acabaria por resultar no golo do empate.

William

A relação entre as suas ideias e a sua função executiva já viu melhores dias. Hoje é marcada por tensão, amuo, prolongados silêncios. Toda a comunicação é regida por estranhos formalismos. As ideias estão sentadas no sofá, com a barba por fazer, a t-shirt desfraldada, as peúgas encardidas em cima da mesa. A função executiva envia um convite por estafeta: «A cabeça de William Carvalho solicita a comparência do seu corpo para a próxima transição ofensiva da equipa, a decorrer em zona do relvado a anunciar, dentro de aproximadamente trinta segundos». O corpo lê a mensagem com displicência, arremessa o cartão para a alcatifa e tira mais uma bolachinha do pacote de McVities que ampara no regaço.

Gelson

Terá sido o jogador mais prejudicado pelo estado do relvado. Por outro lado, o relvado foi talvez o mais prejudicado pela exibição de Gelson. Sempre uma velocidade acima dos outros, mas hoje com défice de esclarecimento e superavit de energia, pareceu o estagiário mais atarefado do escritório: veio ao meio, veio atrás, foi ao lado, correu, mudou de direcção, concebeu um novo projecto, cancelou um plano inconclusivo, recuperou bolas, corrigiu erros próprios, e lá foi fazendo os possíveis para desdobrar essas bruscas conversões de energia num impulso filantrópico. Deve haver colegas cansados só de olhar para ele.

Adrien

Ao minuto 31, naquele que poderia ter sido o início de um contra-ataque perigoso, conseguiram passar-lhe a bola no preciso momento em que já estava rodeado por três adversários (uma situação que lhe tem acontecido tantas vezes – neste jogo, neste mês, nesta época – que já deve dar para montar uma compilação no YouTube). A sua estratégia preferencial foi ganhar faltas, até porque nas poucas ocasiões em que conseguiu ultrapassar a multidão que o cercava foi obrigado a passar a bola a um colega, o que é abrir toda uma nova estratégia de risco. Marcou um livre directo antes do intervalo, rematando a bola de fora da área directamente para o século XIX. Na segunda parte, pareceu gerar suplementos vitamínicos a partir da sua própria autoridade e melhorou substancialmente. Mereceu o golo, que mais não seja porque o inventou sozinho.

Bryan Ruiz

Esteve bem a marcar livres da meia direita. Não esteve bem em mais nada. O seu lento, mas espectacular declínio tem sido um dos mais intrigantes sub-enredos da temporada. Vê-lo jogar, hoje em dia, é como consultar a sua página da Wikipédia depois de um ataque concertado de vandalismo. O seu nome, em vez de Bryan Jafet, é Jorge Alexandre; nasceu não na Costa Rica, mas em Paio Pires; veio do Cova da Piedade, em vez do Fulham – em vez de ter jogado 62 minutos hoje, passou a noite em casa a ler livros sobre a China.

Alan Ruiz

Sente-se que a sua versão idealizada do desporto que pratica seria mais semelhante a uma bizantinamente coreografada partida de bilhar não-competitivo, na qual as bolas seriam colocadas em movimento após morosos rituais de preparação, e as suas trajectórias definidas obedecendo a uma hierarquia privada de padrão, décor, cronologia e precedência. Rochemback, William, Alan Ruiz. É sina do clube cativar este tipo de jogadores: invariavalmente as melhores cabeças dentro campo, e talentos que se manifestam em incrementos geológicos.

Bas Dost

O seu olhar? Penetrante. A sua análise? Meticulosa. A sua perícia? Demolidora. Os seus testículos? Estão a ver a ideia. É dele a assistência para o 1-1, fez outro grande passe para Alan Ruiz (ao primeiro toque) logo depois do intervalo, e marcou um golo, porque sim, porque marcar golos é aquilo que faz. Proponho desde já que se pegue em metade do orçamento disponível para contratações no Verão e se entregue metade ao Wolfsburgo, como sinal de agradecimento.

Podence

Deu o primeiro aviso com um sprint e um cruzamento razoável. Na segunda intervenção desviou-se de alguns obstáculos em velocidade e rematou ao poste. Estava em campo há menos de 5 minutos. Não é fácil encontrar no plantel actual quem jogue com a mesma verticalidade objectiva que lhe parece ser inata.

Esgaio

Voltou a fazer uns minutos anonimamente competentes a lateral-esquerdo, permitindo assim que não fosse violado um dos estatutos do clube, que impede Bruno César de alinhar os noventa minutos na mesma posição.

Palhinha

Facto curioso: as únicas construções humanas visíveis do espaço são a Grande Muralha da China e o que Jorge Jesus pensa realmente sobre Palhinha.