Tribuna Expresso

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Rogério Casanova

Rogério Casanova viu alguém a jogar como se estivesse rodeado por escravas semi-nuas a abanar folhas de palmeira

Além de reconhecer a William Carvalho este tipo de tranquilidade, Rogério Casanova também elogia como Bryan Ruiz "não falhou escandalosamente" quando esteve sozinho à frente da baliza

Rogério Casanova

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

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Rui Patrício

Segurou dois honestos remates de fora da área na primeira parte, teve uma saída atenta aos pés de Kléber ao minuto 74, e foi aqui e ali fazendo resgates aéreos a cruzamentos dispersos. À parte isso, dedicou-se sobretudo a uma participação ainda mais activa que o costume na circulação de bola, tentando ajudar os colegas a compensar a ilusão de óptica que, durante largos períodos de jogo, fez o rectângulo do António Coimbra da Mota parecer mais pequeno que um recinto de futsal.

Schelotto

O corpo de Schelotto e o rosto de Schelotto estrearam-se os dois em simultâneo no futebol profissional no ano de 2008, ao serviço do Cesena, e têm formado desde então uma dupla inseparável, construindo uma carreira sustentada pela dialéctica das suas respectivas características. O rosto de Schelotto, o de um trémulo figurante assassinado por Zorro na primeira cena da sequela, publicita o seu pedigree argentino, e encarrega-se de sprints devastadores pela faixa, seguidos de cruzamentos arrogantemente precisos; o corpo de Schelotto, evocando tribos primitivas, monumentos megalíticos e cultos pagãos, vai fazendo passes optimistas para zonas do terreno há muito evacuadas, e correndo estrategicamente para a maior acumulação de adversários à sua frente.

Hoje fez aquilo que tecnicamente será contabilizado como uma assistência para golo; nos restantes 89 minutos, fez aquilo que tecnicamente será contabilizado como um motivo urgente para contratar alguém melhor que ele.

Paulo Oliveira

Ao minuto 36, dobrou a perna num ângulo não-euclideano e cortou um cruzamento rasteiro de Licá que podia perfeitamente ter dado o golo do empate. Um outro tipo de corte deixou-o a esvair-se profissionalmente em sangue, e retirou-se para os balneários parecendo um anúncio da Robialac transmitido durante o Halloween. Rodeado de colegas com chuteiras escarlates, demonstrou o seu clubismo regressando para a segunda parte com um pano verde-Stromp à volta da cabeça. E foi com essa cabeça sportinguistamente embrulhada que foi tirar a bola ao pé direito de Kléber no minuto 61. Mais uma exibição competente.

Sebastián Coates

Passou quase todo o seu percurso ideológico no clube encostado à direita, com uma abordagem marcial à resolução de conflitos, e defendendo intransigentemente a propriedade privada e a liberdade individual. Apesar de se ter mantido fiel aos seus princípios, a passagem para a esquerda alterou-lhe necessariamente a postura, de formas que nem sempre lhe agradam e hoje foi indisfarçável o seu desconforto com a quantidade de vezes que teve de redistribuir recursos, e ir a correr subsidiar Jefferson.

Jefferson

Sempre consistente no processo ofensivo: receber a bola, hesitar, recuar, e atrasar para Rui Patrício, nem sempre nas melhores condições. Ocasionalmente, para variar, arrisca o balão perpendicular à linha, uma manobra que Rui Jorge por vezes transformava numa desmarcação, mas que Jefferson faz invariavelmente parecer um alívio desesperado.

Stendhal escreveu que um romance é um espelho que vai sendo transportado ao longo de uma estrada. Analogamente, a carreira de Jefferson no Sporting é um painel de contraplacado transportado para um beco sem saída.

João Palhinha

Continua a demonstrar a mesma facilidade impressionante nos duelos físicos, e o mesmo instinto para se resguardar quando a equipa está em posse: na primeira parte, participou em menos trocas de bola do que Patrício. A relutância compreende-se: ao minuto 28, tentou sair de um aperto em dribles e perdeu a bola, e nem sempre mostra a agilidade necessária para receber e girar em espaços curtos (é muito melhor a usar o corpo para ganhar faltas, uma alternativa inteligente a tentar fazer um passe). Teve o seu melhor momento ao minuto 69, quando recuperou uma bola adiantada, progrediu, e desmarcou Gelson no segundo certo para o deixar isolado.

William Carvalho

Ocupando o lugar de Adrien, trouxe naturalmente outras características àquelas funções. Onde Adrien é frenético, instintivo, e tão combustível como a superfície de fricção numa caixa de fósforos, William joga com a tranquilidade de um homem permanentemente rodeado por escravas semi-nuas a abanar folhas de palmeira.

Foi apostando menos no transporte ou nas tabelas, e mais nas variações de flanco e nos passes longos em profundidade (muitos deles, infelizmente, para Slimani). Salvo episódicos deslizes, soube emprestar a sua qualidade técnica à tarefa de guardar a bola o tempo suficiente para ser possível prosseguir a jogada sem envolver um dos dois laterais.

Gelson Martins

Nos primeiros e soporíferos 20 minutos da partida, destacou-se mais pelos cortes em carrinho, intercepções in extremis, e outras recuperações de bola (muitas delas, em abono da verdade, previamente perdidas por ele). Foi melhorando. Três incursões pelas faixas permitiram-lhe oferecer três golos feitos (dois a Dost, outro a William). Para não destoar, falhou a sua oportunidade, ao minuto 69, só com o GR pela frente. Mesmo quando o desequilíbrio não saía, demonstrou sempre aquele optimismo de quem sabe que já nem é preciso fintar, pois basta-lhe correr pelo caminho mais longo para produzir o mesmo efeito – e de quem sabe que não se cansa ao mesmo ritmo das outras pessoas.

Bryan Ruiz

Fez o tipo de exibição que pode mais justamente ser descrita como “importante” do que como “boa”. Bem a defender, bem na pressão, recuperou bastantes bolas, e arranjou maneira de substituir a maldição da finalização pela maldição do último passe. Perdi a conta à quantidade de vezes em que ocupou o espaço certo, recebeu bem, rodopiou com critério e elegância, formulou o plano ideal – e depois deu a bola ao adversário. E no entanto, no lance do 0-1, sozinho à frente da baliza, NÃO falhou escandalosamente – uma notícia que seria muito mais bombástica antes do ano em que o título do Leicester, a vitória no Euro, Brexit e Trump nos prepararam para estes cisnes negros.

Alan Ruiz

Desenhou o lance do primeiro golo, depois de uma boa desmarcação para a linha, mas, de resto, foi acumulando lances em que conseguiu inventar espaços sozinho, progredir no terreno, mas falhar no momento de definir.

Quase desaparecido na segunda parte, ressuscitou ao minuto 72 para uma versão sublimada e concentrada do que tinha sido (à excepção da jogada do golo) a sua primeira parte: furou em drible pelo meio de três adversários, mas errou no último passe. Ainda assim, voltou a ser decisivo, o que começa a tornar-se um hábito saudável.

Bas Dost

Foi hoje vítima da Lei Universal que rege os ajustamentos cósmicos e os cancelamentos simétricos, falhando as oportunidades claras que Bryan Ruiz não chegou a tempo para ser ele a falhar, e deixando que fosse Bryan Ruiz a marcar o golo que em circunstâncias normais seria dele. A narrativa parecia tão estabelecida que o facto de não ter falhado o penálti foi talvez o facto mais surpreendente do jogo inteiro.

Bruno César

Entrou em campo disfarçado de médio-esquerdo e com instruções para se disfarçar de lateral-esquerdo sempre que as circunstâncias o exigissem. Ao contrário do que se podia esperar, não precisou de tapar muitos buracos.

Podence e Castaignos

Não sei qual é a política interna nestas situações, mas se fosse eu a mandar, os equipamentos de atletas que estão em campo menos de 5 minutos não seriam sequer lavados, para poupar na água e na luz. Fica a sugestão. Com o calibre de candidatos à Presidência que o clube produz, mais tarde ou mais cedo há-de aparecer num programa eleitoral.

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