Tribuna Expresso

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Rogério Casanova

Rogério Casanova viu Gelson a escapar-se várias vezes pela direita como fosse uma quantia de 10 mil milhões a caminho das Ilhas Caimão

E teve ainda a oportunidade de confirmar que Joel Campbell continua no plantel e de adaptar uma popular música portuguesa a mais uma exibição portentosa de Castaignos

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Rui Patrício

Um bom momento entre os postes ao minuto 13, a desviar para canto um remate cruzado de Hernâni. O resto do tempo passou-o a jogar com os pés, quer devolvendo atrasos à proveniência, quer saindo em dobras a um dos colegas da defesa (como fez com Esgaio já nos últimos minutos). Tendo em conta o tempo que passou fora da pequena área, tem ainda mais mérito o facto de ser o único jogador da equipa que não sofreu uma falta cometida por Celis.

Schelotto

Em 397 Santo Agostinho deduziu que o tempo cronológico era uma propriedade da mente humana contando as sílabas na frase Deus Creator Omnium. Não são realmente sílabas que contamos, mas o resíduo permanente que deixam na memória, onde coexistem três planos temporais: o passado das coisas presentes, o presente das coisas presentes, e o futuro das coisas presentes.

Esta elegante especulação teológica durou dezasseis séculos, até hoje, especificamente até ao minuto do jogo em que o comentador da Sport TV proferiu a seguinte frase: “Gelson a tentar desacelerar o jogo... passa para Schelotto” – sendo que Schelotto baixou a cabeça, correu desvairadamente para o local mais impróprio e concluiu a jogada com um cruzamento para Sebastopol, numa sucessão de sílabas que não deixaram resíduos, mas crostas, e provando que: a) o tempo têm existência material; b) é infinito; e c) vamos todos morrer sozinhos.

Paulo Oliveira

Um pilar de concentração durante 89 minutos e 55 segundos do tempo regulamentar: inultrapassável no jogo aéreo; intercepção crucial ao minuto 57, desviando um cruzamento que daria golo; e ainda acrescentou ao seu invisível currículo mais quatro ou cinco daqueles cortes popularizados por Ricardo Carvalho, e só ao alcance de defesas-centrais munidos de dois joelhos em cada perna. Nos cinco segundos restantes deu meio centímetro de espaço a um avançado que não marcava desde outubro, pelo que evidentemente aconteceu Sporting.

Coates

Se, ao contrário das pouco eficientes línguas latinas, a língua alemã tem uma palavra para “defesa-central-de-grande-qualidade-e-que-já-demonstrou-ter-sido-uma-das-melhores-contratações-para-a-sua-posição-feitas-pelo-clube-na-última-década-e-meia-mas-que-nos-últimos-três-meses-tem-alternado-exibições-implacáveis-com-jogos-como-o-de-hoje-em-que-não-tendo-estado-propriamente-mal-se-mostrou-desastrado-na-construção-falhando-passes-curtos-e-perdendo-bolas-a-um-ritmo-alucinante”, hoje é um bom dia para ir ao dicionário descobrir qual é.

Esgaio

Como prova de confiança, a equipa decidiu entregar-lhe a primeira saída de bola depois do apito inicial. Esgaio progrediu dois metros, arriscou um passe mais longo, falhou, e depois foi a correr tentar recuperar, falhou, mas conseguiu atirar a bola pela linha lateral. Foram uns meros segundos, teve uma intervenção ofensiva e outra defensiva, e nada de muito importante aconteceu, ou seja: Esgaio. Esgaio não é mau; nem bom. Se pegassem em todos os defesas-laterais de todas as ligas profissionais do mundo e os alinhassem por hierarquia de qualidade, Esgaio ficaria exactamente no meio.

William

Demonstrou a habitual inteligência e eficácia no acto eleitoral de Sábado, depositando certamente os seus quatro votos no melhor candidato, e cumprindo assim o seu dever mais importante neste fim-de-semana.

Gelson

Várias incursões perigosas pela direita, em que se escapou sempre em velocidade à atenção dos marcadores directos como se fosse uma quantia de 10 mil milhões de euros a caminho das Ilhas Caimão. No geral, fez um jogo um pouco acima do que vinha fazendo nas últimas semanas, não porque tenha produzido mais momentos de desequilíbrio, mas porque o somatório das suas intervenções não-desequilibrantes foi mais positivo, em especial na gestão dos ritmos da manobra ofensiva (excepto nos raros deslizes em que passou a bola a Schelotto, o que em termos de gestão de ritmos é o equivalente a esbardajar um relógio contra a parede).

Bruno César

O melhor em campo na primeira parte, e a primeira imitação bem sucedida do Adrien de 2015/2016 feita esta época (incluindo pelo Adrien de 2016/2017). Foi ao lado direito combinar com Gelson ao primeiro toque, foi ao lado esquerdo isolar Ruiz com balões precisos para dentro da área, distribuiu sempre com critério pelo meio, pressionou alto, e soube até replicar a maior especialidade do capitão ausente: os micro-toques cirúrgicos que transformam bolas transviadas em jogadas com sentido. Amarelado ao minuto 23, depois de travar um lance perigoso: o jogador do Vitória tinha a bola à saída da sua própria área, o que como se sabe é logo meio golo.

Bryan Ruiz

Atingiu um patamar tal que já nem entra dentro de campo, e todas as suas acções são delegadas: as tentativas de drible junto à linha são executadas por assessores, as combinações centrais são feitas por estagiários, as conversas com os colegas são ditadas por ghostwriters. Está, no entanto, na altura de despedir o staff todo e vir ao escritório ver a papelada que se vai acumulando.

Alan Ruiz

Primeira meia-hora sofrível, mostrando uma décalage entre planeamento e execução ao nível de uma pequena cleptocracia subsariana. Alan Ruiz pensou sempre, sempre, bem; e executou quase sempre mal. Foi como a primeira parte de um daqueles anúncios que a Nike costuma filmar antes dos Mundiais, onde os melhores jogadores do mundo andam a tropeçar pelos cantos porque ainda não calçaram as chuteiras certas. Acabou por não ter direito à segunda parte milagrosa, mas concretizou o milagre que já começa a ser habitual: o golinho à Frank Lampard.

Bas Dost

Admito que possa ser um exagero, mas se contabilizarmos apenas as intervenções fora da área de finalização, pareceu-me que fez a melhor exibição desde que chegou. É possível que tenha sofrido uma crise de meia-idade a meio da semana, daquelas em que uma pessoa se olha ao espelho, faz perguntas retóricas, e decide mudar de vida – experiências que costumam envolver a contemplação melancólica de salões de tatuagens, algumas experiências inconclusivas com guitarras acústicas, e uma viagem à Índia. Em vez disso, Dost resolveu assistir em vez de marcar, e dedicou-se a ser o médio mais esclarecido da equipa, o que, especialmente na segunda parte, fez todo o sentido.

Joel Campbell

Já não me lembrava da sua permanência no plantel, mas foi bom voltar a vê-lo, e confirmar que ainda continua a esforçar-se para deixar crescer uma cara na sua barba. A sua participação no jogo de hoje fez lembrar uma das melhores canções de Burt Bacharach: “I Just Don’t Know What To Do With Myself”.

Palhinha

Excelente capacidade para segurar a bola até sofrer falta, algo que, verdade seja dita, teria sido muito mais útil caso o resultado fosse outro nos últimos minutos.

Castaignos

Teus jogos, Castaignos

De encantos tão estranhos

São pecados teus.

Compras negligentes

Dispensas urgentes

Por amor de Deus