Tribuna Expresso

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Rogério Casanova

Sim, Rogério Casanova transcreveu o diálogo entre o cérebro, os pés e os braços de Zeegelaar

O Sporting goleou o Tondela e o autor desta crónica viu e ouviu coisas que mais ninguém consegue ver ou ouvir

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Rui Patrício

Um regresso aos bons velhos tempos em que a frase “Patrício teve pouco trabalho, resolveu bem os poucos problemas que apareceram e não teve culpas no golo sofrido” podia, com total confiança, ser escrita e enviada para a redação antes de qualquer jogo do Sporting.

Schelotto

É o figurante perpetuamente transpirado num filme de acção, sinédoque ambulante para o nervosismo que o espectador sente devido à sua presença em campo. Chega a todas as zonas do terreno como quem acabou de atravessar um jardim repleto de aspersores. Recebe cada passe como quem recebe uma pasta com plutónio. Devolve cada bola como quem tenta atirar uma granada para fora do tanque. Na semana em foi inacreditavelmente pré-convocado para a selecção vice-campeã do Mundo, fez mais uma exibição inacreditável, no sentido literal do termo.

Paulo Oliveira

Mais um jogo de solidez e hiperactividade horizontal, em que foi transportando o seu quase infalível sentido de posicionamento (que os colegas de sector transformaram numa espécie de radar para emergências localizadas) em múltiplas perpendiculares. Percebeu cedo que o elemento mais perigoso do ataque do Tondela era o promissor pré-internacional argentino Ezequiel Schelotto, mas apesar de este lhe ter colocado alguns problemas pontuais, Paulo Oliveira mostrou-se sempre atento na marcação e não lhe permitiu grandes veleidades.

Coates

Possui a fisionomia mais interessante de todos os atletas do clube, um hino à relação entre forma e função. O rosto tem uma clara solidez estrutural, mas uma subtil hiptertrofia das componentes individuais que irradia a partir do centro, como se reflectidos num espelho convexo, o que o faz parecer sempre mais próximo do jogador adversário do que se encontra realmente: uma brilhante armadilha cognitiva para avançados e uma das chaves da sua aura de ameaça passiva. É essa pelo menos a opinião deste parágrafo, que com toda a franqueza não prestou grande atenção ao jogo de hoje.

Zeegelaar

Cérebro de Zeegelaar: Sou indubitavelmente o melhor jogador do mundo.
Pé esquerdo de Zeegelaar: Vem lá uma bola.
Pé direito de Zeegelaar: Calma, eu trato disto.
Peito de Zeegelaar: Por acaso, e com a vossa licença, não me importo de ir lá eu.
Pé esquerdo de Zeegelaar: Bem visto. E agora?
Cérebro de Zeegelaar: Vamos tentar fintar esta pessoa! Todos juntos!
Braços de Zeegelaar: Eu ajudo: vou tirá-lo da frente!
Cérebro de Zeegelaar: É impressionante a minha qualidade.

William

Tem vindo a adoptar um estilo de jogo que, como os mitos gregos ou os provérbios populares, acomoda nas omissões a sua respectiva e fundamental lição, tal como, de resto, este excelente parágrafo.

Gelson

Teve duas recuperações de bola, uma finta e uma falta sofrida nos primeiros oitenta segundos, um início a todo o gás que prometia muito, mas que foi resvalando gradualmente para uma exibição desigual, em que o corpo esteve quase sempre atarefado a resolver os problemas colocados pela cabeça (quase o oposto, na verdade, da exibição de Ruiz). A capacidade de correr mais depressa que qualquer outro elemento em campo continua intacta, como demonstrou numa jogada caricata em que correu mais depressa que a bola e acabou por tropeçar no espaço onde ela devia estar, mas não estava. Ganhou um penalty ao minuto 69.

Bryan Ruiz

Na ausência de Bruno César (e de Zanetti, e de Lahm, e de André Almeida), coube-lhe hoje ser ele a fingir que sabe jogar em qualquer posição no terreno. Fez o que pode quando a equipa não teve bola, tentando manter-se em zonas recuadas e trocando a intensidade na pressão pela capacidade de adivinhar intenções; em posse, emprestou uma débil postura de urgência aos seus lânguidos maneirismos – como um bispo a tentar dar a missa cheio de pressa. Foi de um passe errado seu (acertou mais nos longos do que nos curtos) que nasceu o golo do Tondela. Apesar de tudo, já fez jogos piores esta época.

Matheus Pereira

Não deslumbrou na primeira parte, mas deu sempre linhas de passe, procurando receber a bola em espaços claustrofóbicos e dar seguimento ao lance com recepções orientadas ou devoluções precisas ao primeiro toque. Por três vezes fez um passe perfeito a isolar um colega na faixa esquerda; como numa parábola dos Evangelhos, por três vezes o colega isolado foi Zeegelaar. Continua a mostrar a mesma inibição em arriscar no 1x1 que tem pontuado as suas esporádicas oportunidades na equipa principal, mas redimiu-se com um mini-slalom no momento certo, que desfez o empate.

Podence

Não tem o aspecto de um típico futebolista. Não tem sequer o aspecto de uma típica mesinha de cabeceira. E mostrou hoje, mais uma vez, que a cabeça e os pés também não são típicos, mas bastante acima da média. Desenhou o lance do primeiro golo e mais três ou quatro jogadas de grande qualidade. Tal como o jogador que substituiu sabe procurar as zonas certas para receber; terá talvez a vantagem de conseguir fazer as coisas bastante mais depressa a partir daí – e de, sem bola, ser o tipo de jogador ofensivo que a equipa não tem desde Slimani: um gajo que chateia toda a gente e não deixa ninguém descansar. Desapareceu depois do intervalo, mas fez mais do que suficiente nos primeiros 45 minutos para continuar no onze.

Bas Dost

Tendo sido ensinado por Jorge Jesus a marcar grandes penalidades há apenas duas semanas, é natural que ainda não tenha adquirido grande confiança, pelo que foi inteiramente razoável fazer um ensaio prévio, e tratou toda a jogada do 1-2 como um penálti: recebendo a bola no sítio certo, aguardando tranquilamente até não ter adversários no caminho e, com uma clássica paradinha, esperando que o guarda-redes escolhesse um lado antes de rematar. Os dois seguintes correram bem, e percebe-se a sua decisão de falhar o último: teria de agradecer a Geraldes, e ao minuto 90 já não devia ter energia para pegar noutra criança ao colo.

Palhinha

Entrou bem, mostrando um raio de acção alargado, e andando a pressionar e fazer faltas em zonas avançadas.

Joel Campbell

Nos escassos minutos em jogo conseguiu fazer um drible bem sucedido, um drible mal sucedido, um passe certo, um passe errado, um corte, e uma falta. Ficou a dois remates (um enquadrado e outro para o rio Dão) de completar o cartão de Bingo.

Francisco de Oliveira Geraldes

Estreia na equipa principal, e o capítulo inicial daquela que será, daqui por vinte anos, a autobiografia mais bem escrita de um futebolista português.