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Rogério Casanova

Costumam ler a Bíblia? Há um excerto que se adequa a esta ocasião. Ezequiel 25:17? (Rogério Casanova pôs Schelotto no onze de Portugal)

Pedimos a Rogério Casanova que nos escrevesse qual o seu onze para o jogo de amanhã entre Portugal contra a Hungria

Rogério Casanova

MIGUEL RIOPA

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Rui Patrício

Foi uma longa década, a que assinalou a passagem do estatuto que Rui Patrício tinha em 2007 para o estatuto que tem hoje: de uma altura em que apenas a sua família e Paulo Bento tinham confiança absoluta no seu potencial (e mesmo a família devia vacilar por vezes), até ao ponto em que se tornou o jogador português com as mãos mais limpinhas a segurar um troféu europeu, e conseguiu reunir um quase-consenso de plácida (mesmo quando não entusiástica) aceitação. Deve somar contra a Hungria a sua 111ª internacionalização, enquanto, algures em Lisboa, um ex-ministro dos Assuntos Parlamentares rasga um guardanapo de papel em pequenas tiras simétricas.

Ezequiel Schelotto

Talvez seja a altura certa para decretar um jogo de descanso: não tanto para Nélson Semedo, mas sim para os olheiros internacionais que andam há meses a escrevinhar furiosamente notas sobre ele em blocos de apontamentos. Enquanto esta rede fatigada vai à Staples reabastecer-se, dê-se uma oportunidade a Ezequiel Schelotto, antes que, como Monti, Guaita ou Omar Sívori, integre o grupo restrito de lendas futebolísticas que jogaram pela selecção italiana e pela argentina. Podemos aqui jogar na antecipação (algo que, garanto, vai apanhá-lo de surpresa) e naturalizá-lo português. Legalmente não deve haver problema, pois, segundo o meu calendário emocional, Schelotto joga no nosso campeonato há pelo menos setenta anos.

Pepe

É certo que é um ano e meio mais novo, mas tem sido reconfortante confirmar que o fogo do inferno morre no seu coração muito mais lentamente do que aconteceu, por exemplo, com Bruno Alves. Aos 34 anos, Pepe ainda entra em campo com o peito cheio de gárgulas e as pupilas do tamanho de átomos de titânio; ainda desfruta dos minutos que passa sozinho no balneário a besuntar pacientemente os pitons das chuteiras com uma solução diluída de arsénico; ainda sente prazer em virar-se para o adversário directo a meio do jogo e perguntar num tom vagamente aborrecido: "Costumas ler a Bíblia, Ádam Szalai? Há um excerto que memorizei e se adequa a esta ocasião. Ezequiel 25:17?..."

José Fonte

Continua a ter o meu rosto preferido de todos os seleccionados, ainda que seja um rosto menos relacionado com o futebol do que com a poesia britânica das primeiras décadas do séc. XX. José Fonte parece um contemporâneo de Wilfred Owen e Rupert Brooke que sobreviveu à Grande Guerra, e passou a década de 20 a guiar um Packard Six Model pelas regiões vinícolas do sul de França, a poupa massajada pelos ventos setentrionais, a atropelar gendarmes inocentes, e a flirtar com a filha mais nova do estalajadeiro, antes de pedir uma rodada do melhor vinho da casa.

Eliseu

Ainda no Verão passado a Hungria nos espetou três golos, portanto nunca fiando. Nesta, como em qualquer outra ocasião, as coisas podem correr mal, e temos de estar preparados. Muitos dos convocados, tal como o seleccionador, encontram-se ainda em estado de graça pela vitória no Euro, pelo que é essencial a presença em campo de alguém com experiência enquanto bode expiatório, e que possa arcar sozinho com a responsabilidade de um resultado negativo sem sofrer a mais ínfima consequência psíquica.

William

Amigos, concidadãos! Não venho aqui louvar William, apenas defender a sua titularidade - pois Danilo é um homem honrado. O mal que os médios-defensivos fazem sobrevive-lhes; o bem costuma ser sepultado com os seus ossos. Que seja assim com William. Danilo anda a jogar bem, e Danilo é um homem honrado. Quando os seus colegas sofrem, William também sofre. O seu carisma atlético existe num ponto infinitesimal entre vivacidade e deliberação. A sua utopia de ascetismo eficiente é transformar-se voluntariamente num mecanismo para tornar todas as variáveis legíveis e todos os ângulos convergentes. A todos nós, em testamento, William deixa um título europeu, os cofres cheios de rodopios e quinze passes em profundidade feitos nas margens do Tibre (mas Danilo é um homem honrado). Este é William Carvalho. Quando teremos outro como ele?

João Moutinho

Ainda existe, ainda cá anda, ainda vai acumulando minutos na equipa mais entusiasmante das ligas europeias, e ainda só tem 30 anos de idade - um facto que nunca deixa de surpreender tendo em conta que parece ter-se estreado como futebolista profissional no perído pré-Cambriano, juntamente com outras formas de vida multicelulares. Comparado com as restantes opções para o meio-campo, a sua presença é vaga e insubstancial, como se fosse menos pixelizado que os colegas. Mas é precisamente essa baixa definição que o torna menos propenso a súbitos bloqueios ou imagens congeladas. Mesmo que não jogue bem, não fará disparates.

João Mário

Preciso imenso de matar saudades pelo que João Mário deve fazer os exercícios de aquecimento sozinho, jogar os noventa minutos, e depois ficar o resto da noite no relvado com uma bola só para si, numa transmissão contínua da RTP.

Bernardo Silva

Bernardo Silva conseguiu, com a coragem e determinação só ao alcance dos predestinados, ultrapassar a mais terrível contrariedade que pode acontecer a um jovem futebolista: não ser treinado por Rui Vitória. Muitos jovens prodígios superam problemas familiares, maus empresários, ou roturas de ligamentos; mas quantos talentos promissores não viram a sua carreira sofrer um desenlace prematuro pela fatalidade de não serem treinados por Rui Vitória? A história alternativa é sempre um exercício arriscado, e só podemos especular sobre o que estaria ao alcance de Bernardo Silva nas mãos de Rui Vitória - quantas Bolas de Ouro? quantos Prémios Nobel? Resta-nos portanto apreciar esta versão tragicamente diminuída de um talento que poderia ser muito maior.

Ricardo Quaresma

Quaresma deve ser titular porque Quaresma deve ser sempre titular. Não faço ideia do que tem sido a sua carreira no clube esta época, nem me lembro sequer em que clube joga, mas esse será o critério menos importante, até porque a anomalia na sua carreira não foi o percurso em clubes, mas o percurso na selecção. Quaresma tinha tudo para ser um daqueles meteoritos cujas parábolas se cruzam periodicamente com as nossas vidas: um fenómeno sazonal, como as alergias ao pólen ou as entrevistas de Carlos Severino. O seu lugar no panteão desportivo devia ser ao lado dos Okochas, dos Giovannis dos Santos, dos Podolskis: as aves raras que sempre foram mais memoráveis em competições internacionais do que nos mundanos campeonatos nacionais. Se tudo correr bem, chegará à Rússia com 34 anos, bem a tempo de acrescentar um mito à história dos mundiais; seja o "cabrito de São Petersburgo" ou a "trivela de Volgogrado", o importante é que lá chegue.

Cristiano Ronaldo

Ainda subsiste num envelope de soberania atmosférica, com aquele crânio que parece uma relíquia encontrada no atelier de Brancusi, e aquele penteado onde cada cabelo individual foi podado como uma bonsai por vinte cabeleireiros franceses, e ainda entra em campo com a braçadeira de capitão, para ocupar o cargo que é seu por direito no CICLO DE DESTRUIÇÃO E REGENERAÇÃO QUE LHE PERMITE SEGREGAR UM UNIVERSO INTEIRO A PARTIR DAS SUAS VIRILHAS. Correm rumores de Espanha de que voltou a tentar driblar a partir de posições estáticas. É menos veloz do que era, e há pessoas que chegam à bola antes dele. Talvez não seja tão decisivo como já foi. Mas se as agências de apostas abrirem odds para a pessoa em campo mais provável de ‘IMANENTIZAR O ESCHATON’ durante os noventa minutos, só há um favorito.

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