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Rogério Casanova

Rogério Casanova e a tese de mestrado de Gelson: “Como combinar com o lateral da minha faixa sem combinar com Schelotto”

Apesar de ter Bruno César como um ser humano que nunca lhe desagrada ver em campo, Rogério Casanova vê-o como "um aguaceiro portátil de transpiração". E também viu "um triunfante 56 inscrito na nuca" de Podence, a simbolizar "o número exacto de centímetros que separa o seu coração e as sobrancelhas intrigadas de Bas Dost"

Rogério Casanova

MIGUEL RIOPA

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Rui Patrício

Já é possível reduzir a sua carreira a um didáctico formato pergunta-resposta, ao género do Catecismo de Westminster:

O Rui Patrício sofreu um golo?

Sim, o Rui Patrício sofreu um golo.

O Rui Patrício teve culpas no golo sofrido?

Não, o Rui Patrício não teve culpas no golo sofrido.

Qual é o fim supremo e principal do Rui Patrício?

Não ter culpas nos golos sofridos.

Rui Patrício teve muito trabalho além do que não pode fazer no golo sofrido?

Não, Rui Patrício não teve muito trabalho além disso.

De onde se infere a existência de Deus?

Vai pentear macacos.

Schelotto

No primeiro minuto foi possível ver Schelotto a correr muito depressa com a bola na direcção da sua própria baliza. No último minuto foi possível ver Schelotto executar dois cortes decisivos, um deles uma intercepção inadvertida com o calcanhar. Ao minuto 58 foi possível ouvir a melhor frase de sempre jamais dita sobre Schelotto, vinda da boca sapiente do comentador da Sport TV: "Schelotto escorregou, mas reequilibrou-se e só depois perdeu a bola". Como se a perda de bola fosse o grande objectivo, e tudo o resto não passasse de um prólogo - uma tentativa honrada de criar as necessárias condições de dignidade para a bola ser perdida. Devia ser o seu epitáfio.

Coates

Exibição quase imaculada na tarde em que cumpriu o jogo nº 50 pelo Sporting. Mais preciso do que tem sido hábito na construção, em particular no passe longo: fez uma grande abertura para Gelson logo ao sexto minuto, e é nele que começa o golo do empate. Mostrando-se cada vez mais integrado no espírito do clube, soube escolher a dedo a única jogada em que foi ultrapassado por um jogador do Arouca: o período de descontos. Felizmente correu tudo bem.

Rúben Semedo

Acabou por fazer um jogo razoável, embora sempre num estilo muito mais atarefado do que as circunstâncias pareciam exigir. De qualquer forma, foi bom reconhecer um esforço para abandonar aquele tique para o excesso de ornamentação, de quem tenta transformar o corte mais inócuo num prato especial de auteur - golfinho órfão confitado com crumble de cartão multibanco numa redução de esmegma de marmota. Hoje, para alívio geral, serviu bifanas.

Zeegelaar

Recebeu instruções para se encarregar da primeira fase de construção do jogo ofensivo do Arouca e tentou cumprir a tarefa com brio, dentro das suas limitações, perdendo oitocentas mil bolas na primeira parte, e supervisionando atentamente a movimentação de Mateus no golo inaugural. Borrou a pintura ganhando uma bola na área e assistindo Bruno César para o 1-2. Marvin Zeegelaar é um anagrama de "Rega em relva Nazi". Deixo aqui esta informação, sem comentário adicional.

William Carvalho

Esteve muito bem a desdramatizar, de resto a sua principal função hoje. Desdramatizou situações de pressão encolhendo os ombros, desdramatizou picos de confusão no meio-campo com toques de primeira, desdramatizou passes errados dos colegas com recepções orientadas que podem ser traduzidas como "não precisam de pedir desculpa, vai correr tudo bem". Ao minuto 88 desdramatizou uma incursão de um adversário pelo centro do terreno e levou um nada dramático cartão amarelo.

Bryan Ruiz

Costuma ser dito de génios visionários - aqueles cujos fracassos são vindicados pelo futuro - que são homens "à frente do seu tempo". Bryan Ruiz é nesta altura um homem "atrás do seu espaço", no sentido em que quase todas as suas acções só seriam vindicadas se as coisas à sua frente fossem outras: se fossem, nomeadamente, as coisas atrás de si. Esta desorientação espacial costuma provocar uma sensação de náusea; eu, pelo menos, começo a senti-la com alguma frequência.

Gelson Martins

Continua a trabalhar na sua tese de mestrado de Lógica Modal dedicada aos paradoxos, provisoriamente intitulada "Como combinar com o lateral da minha faixa sem combinar com Schelotto". Mesmo num dia menos inspirado ao nível das habilidades impulsivas, acabou invariavelmente por dar melhor seguimento aos lances quando fez as coisas sozinho. Esteve perto do golo ao minuto 29, com um remate ao ângulo desviado por Bolat, um dos dezasseis mil e quinhentos guarda-redes com contrato profissional com o Porto - o mesmo que evitou aos seus pés, já nos descontos, o golo da tranquilidade.

Bruno César

Um cruzamento para trás da baliza, um golo decisivo, um aguaceiro portátil de transpiração, um prémio de jogo merecidíssimo, um ser humano cuja presença em campo nunca me desagrada.

Alan Ruiz

Tem uma ligação muito idiossincrática com o tempo de jogo, com o relógio, com o calendário - semelhante, aliás, à do Planeta Terra com os diamantes. Algures naquele rectângulo, há objectos preciosos, mas Alan Ruiz não se importa nada de aguardar pacientemente durante trezentos milhões de anos enquanto duas montanhas acasalam com átomos de carbono até vir oferecer jóias aos adeptos. E depois voltar a esperar por fenómenos vulcânicos violentos, enquanto pondera o futuro.

Como será esse futuro? Uma sucessão de acontecimentos discretos, cada um com existência autónoma nas suas próprias coordenadas espaciais? Ou um único acontecimento contínuo, desdobrando-se pela eternidade? E balizas? Há balizas no futuro? Temos tempo para o saber, temos tempo. (Foi o melhor em campo).

Bas Dost

Um cabeceamento à figura após um canto e uma tentativa de responder com o calcanhar a uma solicitação de Ruiz foi a soma total das suas semi-oportunidades para molhar a sopa. De resto, passou o jogo a tentar agressivamente assistir os colegas (a melhor das quais com um pique ao primeiro toque para Bruno César, na 2ª parte), exibindo uma curiosidade hostil em saber que jogador correriam eles a abraçar, caso marcassem golo.

João Palhinha

Entrou em campo com grande agressividade, como seria de esperar de um jovem de 21 anos que recebe as instruções tácticas gritadas pela capa de um álbum dos Iron Maiden, e fez um corte decisivo sobre Cuca Roseta.

Daniel Podence

Teve tempo para desassossegar com a sua velocidade a tarde tranquila que toda a gente desfrutava, para assistir Gelson com um passe em profundidade quase perfeito, e para exibir um triunfante 56 inscrito na nuca, simbolizando o número exacto de centímetros que separa o seu coração e as sobrancelhas intrigadas de Bas Dost.

Paulo Oliveira

Noventa segundos em campo e uma dádiva dos céus para todos os cronistas desportivos pagos de acordo com o número de caracteres.