Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

Rogério Casanova apreciou que Alan Ruiz tivesse rematado como se a baliza tivesse insultado a sua família e saqueado a sua cidade natal

Depois da segunda boa exibição seguida de Zeegelaar, Rogério Casanova não sabe o que fazer: está naquele ponto do relacionamento em que já se prepara uma conversa decisiva, mas em que, à última hora, o parceiro culpado decide limpar a casa de surpresa e comprar um ramo de flores.

Rogério Casanova

MIGUEL A. LOPES/Lusa

Partilhar

Rui Patrício

A bola pingada vinda de um canto que agarrou com as mãos ambas ao minuto 40 foi um anómalo interregno no jogo de hoje, em que se limitou a devolver à proveniência episódicos atrasos de colegas, e a andar na pequena área de um lado para o outro, como um noivo nervoso antes da cerimónia de casamento, esse sacrossanto vínculo de concórdia indissolúvel que, tal como o sudário de Cristo, nunca poderá ser dividido nem rasgado.

Schelotto

Comovente a sua tentativa para receber no ar um passe longo de William (em que nem chegou a tocar na bola), e ainda mais comovente a sua tentativa para desmarcar Podence 2 minutos depois (em que a bola saiu alegremente pela linha de fundo). Parece o último dos Moicanos e mexe-se como o primeiro dos pelicanos, sempre com aquela compenetração bizantina de quem se prepara para despir um casacão invisível e cruzá-lo para dentro da área, pois cruzar qualquer coisa para dentro da área é a sua reacção instintiva a tudo: a indecisão, a inadvertência, o cansaço, a imperfeição humana, etcetera. Fez uma assistência e esteve envolvido em mais uma mão cheia de lances perigosos - um vexame do qual os jogadores do Boavista não vão recuperar animicamente tão cedo.

Coates

Mantém viva a tradição de acumular sete segundos desastrados em cada jogo, independentemente do grau de dificuldade do mesmo. Hoje o minuto eleito foi o 27, quando amorteceu de peito para um adversário dentro da área e logo a seguir lhe permitiu cabecear à sua frente sem oposição. Reposta a ordem estabelecida, foi assistindo do interior do seu Panopticon privado aos ternurentos esforços do Boavista para montar uma única jogada ofensiva com princípio, meio e fim, um pouco como quem assiste aos esforços de uma criança de 2 anos para jogar Bridge.

Semedo

Ao contrário dos jogadores do Boavista, conseguiu por duas vezes colocar a bola nos pés dos jogadores do Boavista em zonas perigosas. Esteve algo desastrado no tempo de corte, especialmente na primeira parte, e um corte aleatório para canto ao minuto 39 foi dos remates mais perigosos da equipa visitante. Os seus maneirismos atléticos parecem desenhados por um artista da DC Comics nos anos 50: tudo é um pouco caricato, exagerado e, ao nível de forma actual, tão denunciado que cada mudança de direcção merece um painel autónomo. Continua longe da forma que mostrou no início da época.

Zeegelaar

Cometeu a primeira falta da equipa, cortando assim um dos vários lances absolutamente inofensivos do Boavista, mas o certo é que esteve defensivamente bem a partir daí. Esteve mesmo bastante bem, frustrantemente bem, indesculpavelmente bem: controlando melhor a profundidade do que é hábito, intransponível nos lances corpo a corpo, e mostrando fôlego suficiente para esticar sempre o jogo pela faixa quando a equipa atacava. É a segunda boa exibição consecutiva que faz, ou seja: andamos nisto. Naquele ponto do relacionamento em que já se prepara uma conversa decisiva - mas em que, à última hora, o parceiro culpado decide limpar a casa de surpresa e comprar um ramo de flores.

William

Esteve bem na sua missão, que como se sabe consiste em capturar o capricho dos elementos (águas, ventos, ervas, schelottos), encarnar o móbil humano que reduz essas forças naturais à categoria de objectos, e assim fazer da Criação um projecto, deixando que a humanidade se inscreva a si própria no espaço, cobrindo-o de gestos familiares, de usos e intenções, e vergando a obra de Deus à sua vontade domiciliária. E tudo isto sem precisar de correr, que isso é coisa de maluquinhos.

Podence

Ainda não havia um minuto de jogo e já Podence tinha ganho um lançamento lateral no meio-campo contrário, respondendo a um passe demasiado longo num lance que devia estar completamente perdido. Foi acumulando incursões em velocidade - mais até pelo meio do que junto às linhas - mas perdendo algumas vezes o tempo certo de passe, até que se redimiu ao minuto 34 quando se desmarcou e, vendo Bryan Ruiz completamente isolado e só com a baliza pela frente, lhe endossou a bola com um pouco de força a mais, salvando assim o colega de mais um falhanço escandaloso.

Bryan Ruiz

Lance paradigmático ao minuto 7: excelente a decidir (descongestionando a confusão central derivando a jogada para o flanco mais distante) e péssimo a executar (a bola saiu pela linha lateral). Jogar em zonas mais recuadas expõe-o obrigatoriamente a situações de risco, e viu-se um bocado aflito na primeira parte - reduzido em duas ocasiões a deselegantes alívios. E se há jogador que é aflitivo ver aflito, esse jogador é Bryan Ruiz. Até sair (foi o primeiro a ser substituído) foi alternando excelentes aberturas com passes inacreditavelmente errados.

Bruno César

Muito, muito boa exibição, mostrando ao que vinha logo ao 2º minuto, com o primeiro remate da partida. Conseguiu pouco depois transformar um mau cruzamento de Schelotto no que poderia ter sido mais uma assistência de Schelotto, mas cabeceou em esforço às redes laterais, e mais tarde aproveitou um erro defensivo para assistir Dost.

Logo no início da 2ª parte decidiu ganhar um penalty, o que não foi nada fácil: o jogador do Boavista deu-lhe tanto espaço para chegar à bola primeiro que Bruno César foi obrigado a fazer o equivalente a uma paradinha e a movimentar-se em elipse para conseguir chegar à bola ao mesmo tempo que a perna do adversário.

Alan Ruiz

Independentemente da bastante simpática contabilidade de golos, tem mostrado com alguma consistência ser dos jogadores ofensivos com mais critério da equipa. Os seus momentos de distribuição descontraída - recuando, recebendo, girando - são invariavelmente bem pensados e só raramente mal executados. E mesmo nesses raros momentos em que o passe final não sai, mostra uma disponibilidade (física e, suponho, mental) para pressionar que não se lhe via, ou sequer adivinhava, nas primeiras semanas da época.

E, claro, mais um para a conta pessoal: ao minuto 19, aproveitou o espaço que lhe deram dentro da área e rematou como se a baliza tivesse insultado a sua família e saqueado a sua cidade natal.

Bas Dost

Deve ter-se apercebido ainda em tenra idade da sua compulsão para abraçar pessoas, e mostrou a maturidade precoce para enveredar por uma actividade profissional que lhe permitisse dar seguimento a esse apetite de uma forma socialmente sancionada. Quebrou hoje um jejum de abraços que já durava há uns preocupantes 101 minutos, e merece destaque o seu refinado gesto técnico no lance do 1-0 (que viria a reproduzir na segunda parte) colocando o pé de apoio no momento do remate na posição que lhe permitira correr mais depressa na direcção de Bruno César.

Adrien

Substitui Bryan Ruiz e deu o seguimento adequado ao trabalho do colega, inclusive no capítulo das bolas perdidas. Ainda longe, como é óbvio e natural, da melhor condição física - e uma entrada ao tornozelo já perto do fim sugere que os adversários insistem em vê-lo menos como uma pessoa do que como um crucigrama de tendão e cartilagem, à espera de ser decifrado por um piton atento.

Joel Cambpell

Bom remate de primeira dentro da área com um dos seus piores pés (o direito), que não deu golo por muito pouco.

Francisco Geraldes

Excelente abertura a desmarcar Schelotto na direita, pouco depois de entrar, e um grande passe de pé esquerdo para Campbell na esquerda ao minuto 86, dois lances em que ficaram bem patentes todas as suas qualidades ao nível da técnica individual, visão periférica, ortografia e sintaxe.