Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

A circum-navegação dos neurónios de Zeegelaar, o exoesqueleto de Bas Dost e o escriturário que há em Alan Ruiz (por Rogério Casanova)

Bem vindos ao intrigante mundo das analogias e metáforas de Rogério Casanova, o sportinguista-cronista do burgo da Tribuna Expresso

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Partilhar

Rui Patrício
Um dos jogos da época em que mais dificuldades sentiu na por vezes árdua tarefa de não ter culpas no golo sofrido. O Vitória fez o primeiro remate à baliza ao minuto 69: saiu fraco e à figura. Um segundo remate, aos 88, prometia mais; mas acabou por sair fraco (e à figura). A única boa defesa que teve de fazer aconteceu já nos descontos, uma estirada a desviar para canto um remate de primeira de Nuno Santos: o lance já tinha sido interrompido por fora-de-jogo. Há noites em que nem Lev Yashin conseguiria não ter culpas no golo sofrido. Há que levantar a cabeça e voltar a tentar na semana que vem.

Schelotto
Houve jogos este ano em que a dupla de laterais do Sporting pareceu formada menos por duas personagens da mesma narrativa do que por ocupantes de celas adjacentes num manicómio relativamente bem organizado. Em mais um jogo de altos e baixos (ultrapassadíssimo em velocidade logo a abrir; atento na intercepção ao minuto 10, evitando contra-ataque perigoso; e assim sucessivamente), dois momentos merecem destaque: a recuperação defensiva e posterior galope que inicia o lance do 0-3; e uma proeza de multi-tasking que exigiu refinado virtuosismo técnico à meia-hora, quando conseguiu progredir com a bola em velocidade e – em simultâneo! – pregar uma bolachada nas trombas de João Carvalho (um inimigo). Por pouco não se estreava a marcar na Liga, ao minuto 55, mas o remate foi desviado pelo Universo, para fins simbólicos.

Coates
Apresentou-se em campo com o equipamento estritamente necessário: a postura desassombrada de irmão de mais novo de Boris Karloff , e aquela competência táctica e atlética que consiste em o adversário acreditar tão veementemente nessa competência táctica e atlética que acaba por fazer metade do trabalho de Coates por ele. Na metade que lhe competia, cumpriu.

Semedo
Regressou ao estádio onde fez uma excelente meia temporada e mostrou o suficiente para quase merecer ser emprestado outra vez. Inaugurou o festival logo aos 2 minutos, com um corte incompleto dentro da área, ornamentando ainda o lance com uma espectacular perda de posição que o obrigou a ceder canto. Depois limitou-se a acumular faltas desnecessárias, até que sentiu a necessidade de algo mais, artilhando uma das suas tradicionais perdas de bola ao tentar sair a jogar. Melhorou um pouco depois do intervalo (excelente corte ao minuto 51) e fez o suficiente para continuar a merecer a titularidade até Paulo Oliveira recuperar da sua frustrante rotura parcial nos ligamentos internos da completa incredulidade.

Zeegelaar
O seu fascinante processo de decisão consegue circum-navegar todos os neurónios do lobo frontal e atingir o recôndito beco do cérebro onde só o pânico e a escatologia são armazenados. Onde o adepto comum vê um sprint, um passe em profundidade ou um alívio, Zeegelaar sente um ritual com fogueiras, um ciclone de gafanhotes ou um sacrifício ao Deus da Relva! O treinador irlandês Martin O'Neill descreveu um dia o “golo ideal” como aquele que resulta de um cruzamento de um dos laterais para a finalização do outro. Ao minuto 55, um cruzamento de Zeegelaar para Schelotto podia perfeitamente ter resultado em golo, configurando dessa forma, de acordo com o critério de Martin O'Neill, um golo ideal. Ao minuto 32 foi ultrapassado pelo lateral-direito Vasco Fernandes e travou-o em falta, vendo o cartão amarelo que o vai assim impedir de ser ultrapassado pelo lateral-direito Nelson Semedo aos minutos 6, 27, 29, 35, e 49 (sequência que, de resto, é a próxima chave do Euro Milhões).

William Carvalho
Um jogo tão solitário e irregular como a exibição de Jesus Cristo no Jardim de Gethsemane, numa bonita homenagem à segunda estação da Via Sacra. Proclamou alguns passes longos, absolveu alguns passes curtos, cultivou sozinho os seus metros de terreno. Tinha marcado ao Vitória na primeira volta. Homem estável, conservador, e de hábitos regrados, voltou a fazê-lo hoje. Nem sempre acertou no passe, pois os colegas teimam em não ocupar as posições que reflictam correctamente o planetário que transporta constantemente no interior da sua cabeça. Boa cavalgada ao minuto 72, sendo travado em falta por um jogador adversário que não conseguiu acompanhar a sua velocidade. É uma frase que merece ser repetida, como na missa: um jogador adversário que não conseguiu acompanhar a sua velocidade.

Gelson
Um regresso enérgico e com a rotação vários níveis acima da maioria dos colegas, tanto a atacar como a defender. Foi tão útil a dar linhas de passe aos companheiros como a tapá-las ao adversário, e voltou a mostrar aquela ênfase deliberada que imprime a todos os movimentos, como se tentasse fintar em itálico. Inaugurou o marcador num lance em que viu a bola atravessar vários fusos horários, chegando ao seu pé já cheia de jet lag e num estado pré-trombótico. Saiu a meia-hora do fim, de forma a não ser amarelado hoje, e poder sê-lo tranquilamente no próximo jogo.

Adrien
Espero que sempre que lhe perguntem pela exibição de hoje no futuro, o capitão Adrien Silva dê a mesma resposta do Chefe Abraracourcix em “O Escudo de Arverne”: “Não conheço o Bonfim, não sei onde fica o Bonfim, ninguém sabe onde fica o Bonfim.

Bruno César
Vários bons cruzamentos, várias recuperações, mais uma assistência para golo, mais um jogo em que ocupou quatro posições diferentes. Está nesta altura a conduzir o autocarro de regresso a Alvalade, onde vai ainda fazer um turno de duas horinhas como administrador da SAD.

Alan Ruiz
Durante a primeira meia-hora, foi dos poucos jogadores da equipa a dar indicações de possuir um conhecimento básico do desporto que se praticava, sempre naquele estilo vagamente burocrático, em que cada acção é um colossal trabalho administrativo, parecendo envolver centenas de funcionários, mas na verdade envolvendo apenas o escriturário mais incisivo e ameaçador de todos os tempos. Quando teve a bola em posições frontais organizou-se prontamente uma pequena comissão de inquérito para decidir se pode ou não rematar. A resposta foi quase sempre positiva, mesmo que hoje não tenha produzido resultados conclusivos. Grande, enorme passe para o golo de Dost.

Bas Dost
Poucas oportunidades, mas um intrigante regresso àquele terço inicial da época em que marcava sempre matematicamente ao terceiro remate. Continua a mostrar-se exemplar na distribuição quando recua (algo que ainda se nota mais quando o meio-campo se exibe ao nível de hoje). Ao minuto 58 voltou a proporcionar o que ainda é conhecido como um “momento Slimani”, trazendo o seu exo-esqueleto de plasticina e adamântio à linha de meio-campo e recuperando uma bola perdida.

Bryan Ruiz
Trouxe a sua ectomórfica evanescência ao relvado do Bonfim o tempo suficiente para não marcar o que parecia ser um golo certo, e para nos mostrar todo o seu talento – bem como uma amostra considerável de todas as formas como o talento pode ser insuficiente.

Podence
Deixou Ruiz na cara do golo ao seu primeiro toque na bola, um erro que apesar de tudo se deve perdoar a alguém que ainda possui toda a inocência da juventude.

Esgaio
Ou, por outras palavras, Ricardo.