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Rogério Casanova

O Júlio Isidro das balizas nacionais que Rogério Casanova tem visto a mudar a vida a muita gente

Rogério Casanova destacou outros momentos do dérbi, como “o corte com os testículos à meia-hora“ de Coates, que foi, “no fundo, uma tentativa de descompressão”. Ou um dos cruzamentos de Jefferson, que “foi tão lento que foi possível ver a bola a atingir a puberdade pelo caminho

Rogério Casanova

FRANCISCO LEONG

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Rui Patrício

O Júlio Isidro das balizas nacionais começa a acumular um currículo assinalável na revelação de talentos insuspeitos (ou recuperação de talentos hibernados). Cristiano Ronaldo, depois de um período prolongado em que os seus livres directos se limitavam a acrescentar novos satélites à órbita de Júpiter, recuperou consigo (e esta época) a alegria dos livres indefensáveis; o na altura improvável Bruno Alves também lhe marcou um em 2008 (e neste estádio). E agora Lindelöf, numa estreia absoluta. Quem será o próximo a marcar-lhe um livre directo? Um guarda-redes? Vera Roquette? Pinto Balsemão?

Schelotto

Fez uma grande jogada aos 22 minutos, uma cavalgada indesculpável, que dependeu de ganhar uma estatisticamente absurda sucessão de ressaltos. Depois perdeu algumas bolas. Fez outra grande jogada dez minutos depois, concluída com um triunfante cruzamento para o fosso. Acumulou perdas de bola em lances controlados, depois do intervalo, seguidas de várias recuperações, seguidas de novas perdas. Aos 59, desarmou Cervi, avançou uns metros, puxou o gatilho, e enfiou a bola na gaveta (da mesosfera). É possível que alimente uma superstição elaborada que o impede de fazer duas coisas normais seguidas.

Coates

Mostrou grande controlo emocional em quase toda a partida, sempre com a testosterona em ponto de embraiagem. O corte com os testículos à meia-hora foi, no fundo, uma tentativa de descompressão. Só começou a chatear-se nos últimos 10 minutos, tentando sair com a bola colada ao pé, não tanto para iniciar jogadas ofensivas, mas sim para perder a posse em zonas mais adiantadas e poder aviar (por exemplo) Felipe Augusto sem correr o risco de sanção disciplinar. Vejam aquele rosto, quando está irritado: conseguimos ler nele a veemente revogação de todos os edifícios que os seres humanos construíram para se entenderem - todos os acordos, todos os tratados. Mas não magoou ninguém! Um exemplo de responsabilidade e abnegação.

Paulo Oliveira

Foi comovente a homenagem a Rúben Semedo mesmo em cima do intervalo, com um alívio de calcanhar em zona perigosa - mas, na verdade, não enganou ninguém. O seu estilo despojado está nos antípodas da sobre-ornamentação do colega, e falar em "estilo" já é uma deturpação, a não ser que estejamos a falar de estilos cardiovasculares. Fez o que pode, e tentou o que não pode, em permanentes picos de esforço, sempre à beira do colapso, transformando cada sprint numa prova de meio-fundo, e cada corte in extremis na batalha do Álamo, com a expressão de um homem que prefere perder a dignidade do que o lance à sua frente.

Jefferson

Não esteve mal, Jefferson. Não fez um mau jogo. É bom começar por aqui (e depois explicar que esta avaliação preliminar é uma função de expectativas iniciais).

Fez o primeiro cruzamento para trás da baliza aos minuto 19. Fez outro ainda na 1ª parte. Fez outro ao minuto 70. E fez ainda vários que em vez de saírem para trás da baliza, saíram pela linha lateral do outro lado. Um deles foi tão lento que foi possível ver a bola a atingir a puberdade pelo caminho.

Qual é, exactamente, a natureza do problema com os cruzamentos de Jefferson? É possível que a situação se resolva com uma chuteira ortopédica? Com um relvado ortopédico? Um planeta ortopédico?

William Carvalho

Fez um amplo e eficaz trabalho invisível, acumulou cortes, intercepções e desarmes (quatro nos primeiros três minutos). Enorme a recuperação em velocidade ao minuto 53, desarmando Rafa e anulando um contra-ataque perigoso. Em posse não conseguiu ser omnipotente, mas é como diz o provérbio popular (um provérbio popular que só William usa): nuns dias conseguimos coreografar o caos; noutros dias, resta-nos improvisar no meio dele.

A verdade é que se tornou o super ego da equipa - e também dos adeptos: um braço perpetuamente estendido, apontando na distância, com suprema autoridade, e para lá da linha do horizonte, o raio que vos parta a todos.

Adrien Silva

Marcou exemplarmente aquele que podia ter sido um dos penáltis mais celebrados da história do Porto e fez uma boa exibição, com uma frescura física a milhas de distância da que mostrou na semana passada (em que parecia estar a recuperar não de uma lesão, mas de uma adolescência em Chernobyl). Capacidade de choque, forte nas bolas divididas, lúcido a distribuir, e voltando até a mostrar o seu jeito para manter a posse de bola não só com circulação, mas com mini-incursões centrais em velocidade.

Gelson Martins

Era a única pessoa do onze inicial capaz de ultrapassar pessoas com fintas e em velocidade, portanto, dedicou-se a ultrapassar algumas pessoas com fintas e em velocidade, confiante de que o resto viria por acréscimo. Tem sido intrigante, a relação de Gelson esta época com o resto do talento disponível no Sporting; intrigante, mas nem sempre sinergética: como ver uma pessoa sem capacidade de interpretar silêncios (incapaz, por exemplo, de decifrar se significam conforto ou tensão) tentar obsessivamente manter uma conversa com um grupo de pessoas que procuram constantemente mudar de assunto.

Bruno César

Jogo de esforço, em que foi mais visível a fazer faltas e cortes de carrinho, a cobrir, dobrar e pressionar, do que propriamente a criar. Ainda assim, no ataque, conseguiu a proeza significativa de ser um extremo eficaz e esporadicamente perigoso sem ter ganho um único lance no 1x1 a Nelson Semedo. De assinalar a notável superioridade atlética que mostrou sobre Lindelöf num lance dividido dentro da área, ainda na primeira parte, conseguindo ganhar uma bola de cabeça ao sueco usando apenas partes do corpo localizadas abaixo do pescoço. Saiu aos 79 minutos, esgotado. E fez falta, como faz sempre que não está lá.

Alan Ruiz

Adivinhou-se (resiganadamente) nos primeiros minutos que a rapidez e intensidade do jogo não era a mais indicada para os seus talentos específicos, e passou ao lado de muitos momentos, tanto na pressão ofensiva como na construção em zonas mais adiantadas. Ainda assim, foi tentando uma ou outra jogada que teria resultado certamente em ocasiões de perigo - não contra esta, mas contra dezasseis outras equipas da Liga. Depois de algumas faltas ofensivas (quase sempre desnecessárias) veio dar uma perninha cá atrás e fez uma falta perto da sua área - a última acção em campo antes de ser substituído. Foi azar. (E foi golo).

Bas Dost

Conseguiu pressionar Ederson, obrigando-o a má recepção, e ganhar um penálti, sem em nenhum momento eu dizer em voz alta a frase "parecia o Slimani", o que talvez indique que atravessámos um ponto importante na relação entre as expectativas dos adeptos e a consolidação da sua imagem. Ganhou vários duelos aéreos e conseguiu combinar bem com colegas (mostrando, a espaços, qualidade de recepção de passes longos a lembrar Berbatov). Oportunidades claras é que foram poucas. A não ser aquela, mas não vale a pena falar nisso agora.

Bryan Ruiz

Não entrou nada, nada bem. Estamos num ponto em que a sua lucidez é pura e simplesmente auto-destrutiva. Ou então não, e isto é um exagero, e precisamos todos de ir beber um copo, ou de férias.

Daniel Podence

Bom lance individual na direita, ultrapassando dois adversários, mas perdendo o timing certo para soltar a bola. Ainda teve tempo para uma corrida pelo meio em que testou a integridade molecular do abdómen de Luisão; e para pouco mais.

Joel Campbell

Tentou, com optimismo panglossiano, ser útil. Não foi possível.