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Rogério Casanova

Rogério Casanova e o dia em que Schelotto entrará em campo com um carrinho em esforço (que ele acha que não está longe)

Rogério Casanova também viu a relação entre Matheus Pereira e a bola como momentos que o brasileiro "encarou sempre com a desconfiança de quem acordou em Tróia e encontrou um enorme cavalo de madeira no sítio onde deviam estar os chinelos de praia"

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Rui Patrício

Não teve culpas no primeiro golo sofrido! Ainda adivinhou o lado para o qual Camará rematou, mas era impossível adivinhar que o remate de Camará transportava informação encriptada directamente por Eurípedes sobre a fúria de Medeia, cidades incendiadas, o assassinato de Glauce e Creonte, e a honra ferida da cidade de Corinto, pelo que não era justo pedir-lhe mais. Também não teve culpas no segundo golo sofrido. Nem no terceiro golo sofrido. Durasse o jogo mais noventa minutos e estaria igualmente ilibado de quaisquer culpas no quarto, quinto e sexto golos sofridos. #consistência

Schelotto

Aos cinco minutos, em vez de cruzar, preferiu poupar tempo a todos os envolvidos (colegas, adversários, público) chutando a bola directamente contra os painéis publicitários em vez de a catapultar para trás da baliza de Ventura. Decisão que se compreende a aplaude, e que chegou a sugerir aos mais optimistas o florescer de uma nova maturidade competitiva. Ainda voltou a fazê-lo na segunda parte, mas um episódio de recidivismo levou-o depois a tentar cruzar para a área. Também na segunda parte - antes, muito antes, de perder criativamente a bola que viria a resultar no penálti para o Belenenses - mostrou toda a sua capacidade para a inesperada proeza de coordenação motora, ao fazer um carrinho em esforço para conseguir chegar a uma bola que lhe tinha sido passada para os pés, e quando estava sozinho junto à linha. O dia em que usa o "carrinho em esforço" até para entrar em campo não deve estar longe.

Paulo Oliveira

Quando nos metemos em cima de uma balança, estamos essencialmente a aprender a soma dos núcleos dos nossos átomos, essas centelhas de massa que nos dotam de integridade e (em casos excepcionais) competência, no interior de uma nanovastidão de espaço vazio; subtraíssemos essa massa e pesávamos todos 20 gramas. É tudo uma questão de escala: se o núcleo de um átomo fosse uma bola de futebol no centro do planeta, os electrões seriam uma nuvem de pevides a pairar nas camadas exteriores da atmosfera. Entre a bola e as pevides, não haveria nada: nem níquel, nem ferro, nem magma, nem solo, nem Terra, nem ar, nem amor, nem sorte, nem a perna esquerda do Paulo Oliveira, nem tão pouco a direita, e muito menos a cabeça. Apenas a presença solidamente espectral de Gonçalo Silva, natural do Barreiro, onde se situam, de resto, imensos electrões.

Coates

Começou o jogo a dobrar William, que tentava dobrar Bruno César, que tentava dobrar Zeegelaar, que tentava dobrar Hezron, que tentava dobrar Amminadab, que tentava dobrar Jehoshaphat, que tentava dobrar Eliakim - e assim sucessivamente, na intrigante recriação do Evangelho segundo São Mateus que foi hoje o processo defensivo do Sporting. Ao minuto 57, depois de nova dobra defensiva em que desarmou Camará depois de este ultrapassar Paulo Oliveira, ensaiou uma dobra ofensiva, desenvolvendo a melhor jogada feita por um indivíduo na posição de lateral-direito durante a partida de hoje.

Zeegelaar

Tal como filmes e romances, os desportistas também se podem dividir em géneros. Há desportistas trágicos, com carreiras dramaticamente enriquecidas por várias calibrações de desgraça e acidente; desportistas épicos, destinados a percursos coroados com momentos de glória. Há desportistas que são ficção científica (Messi); e desportistas que são epopeias bélicas ao estilo Tora! Tora! Tora! (Ronaldo). Há desportistas da Harlequin, cuja popularidade depende menos da qualidade do que de satisfazerem outras preferências (Nuno Capucho, Anna Kournikova). E depois há desportistas que laboram a vida inteira num equívoco, absolutamente convencidos de que são um soneto de Petrarca, quando na verdade são uma curta-metragem de Ed Wood: tentáculos de borracha presos por arames, erguidos no topo de um ego inexplicável.

William Carvalho

Desde que a época deixou de proporcionar expectativas realistas para a conquista de algum troféu, William tem alternado exibições no limite inferior do razoável e exibições francamente incompreensíveis. A de hoje esteve num ponto intermédio desse penoso eixo, sempre naquele estilo de deus otiosus: a divindade que imaginou o futebol e todas as suas implicações num passado longínquo, mas que agora encara a Criação com a apatia perplexa de quem sente o fragmentar da sua infalibilidade, de quem vê a sinistra obstinação dos objectos em resistir às suas intenções, de quem prefere retirar-se para o Olimpo e pintar aguarelas em vez de continuar ali a tentar perceber o que raio nos aconteceu a todos, e a ele.

Adrien Silva

Na melhor oportunidade da primeira parte, rematou ao lado, e foi ele quem fez a falta que resultou no 1-2. É outro caso de fadiga mental permanente, que lhe parece reduzir a cada lance o número de alvos ao dispor da sua frenética intuição. Dedicou quase toda a energia hoje a recuperar bolas que ele próprio tinha perdido, dissipando o resto em más faltas, e más ideias. O esforço que se lhe vê é nesta altura mais desespero do que garra - joga como um revolucionário cujo objectivo inconsciente não é a tomada do poder, mas a gloriosa auto-imolação

Matheus Pereira

Entrou muito mal na tomada de decisão e presidiu ao velório de algumas jogadas promissoras nos primeiros minutos. Quando passou para a faixa esquerda teve mais bola, e mais espaço - dádivas que encarou sempre com a desconfiança de quem acordou em Tróia e encontrou um enorme cavalo de madeira no sítio onde deviam estar os chinelos de praia. Os gemidos de impaciência da bancada fizeram-se ouvir infalivelmente nas situações erradas - as raras vezes em que arriscou o lance individual, nalgumas perdendo a bola, noutras criando esporádicos desequilíbrios - quando o que devia ser assobiado sem contemplações é a sua propensão para se livrar da bola o mais depressa possível. A ideia que fica desde que se estreou na equipa principal é que lhe falta arrogância à altura do talento.

Bruno César

Marcou cantos (com a inócua competência do costume). Tentou desequilíbrios (com a inócua competência do costume). Na sua passagem pela faixa esquerda (jogou, também como é costume, em quatro posições diferentes) construiu a melhor jogada ofensiva da primeira parte, deixando Adrien em boa posição para fazer golo. Acabaria por ser ele a fazê-lo, finalizando em esforço um centro disparatado de Ruiz e embatendo com violência no poste. Para surpresa de todos, não se auto-adaptou a médico para resolver ele mesmo o problema.

Terá sido, não pela primeira vez, dos menos maus hoje.

Bryan Ruiz

Grande momento ao minuto 33 quando apalpou a bola com a perícia de um connoisseur e exigiu ao árbitro a sua troca imediata. "A bola", esclareceu o comentador da Sport TV, "que é um instrumento fundamental neste jogo". É irrefutável. Outro instrumento fundamental neste jogo é a presença em campo de jogadores que saibam fazer mais do que perceber se a bola tem ar ou não.

Bas Dost

Um jogo em que supervisionou atentamente o tráfego aéreo de bolas que sobrevoaram o seu instinto finalizador ao longo de noventa minutos. A época que fez, o número de golos que marcou, é própria de um titular num clube campeão (embora em jogos como o de hoje pareça um milagre). Por outro lado, sem Dost, a época seria um cadáver encontrado num contentor nas traseiras de um armazém em Xabregas.

Joel Campbell

Substituiu Ruiz e assumiu ele as despesas de fazer maus cruzamentos a partir da faixa esquerda. Entrou cheio de vontade de cumprir essa honrosa missão, e nos primeiros minutos em campo conseguiu fazer maus cruzamentos por alto, maus cruzamentos rasteiros, e maus cruzamentos contra os adversários. Depois foi-lhe faltando a versatilidade necessária para conseguir não tropeçar na bola quando progride com ela, o que dificultou naturalmente a execução de maus cruzamentos adicionais.

Luc Castaignos

A "Hipótese Campbell-Castaignos" poderia ser um bom nome para uma teoria científica sobre o comportamento de partículas sub-atómicas. Nunca poderia, nem nunca poderá, ser uma dupla substituição feita na segunda parte para tentar ganhar um jogo.

Francisco Geraldes

DÊEM-LHE. MAIS. MINUTOS. PORRA.