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Rogério Casanova

Bruno César: médio-esquerdo, médio-direito, médio-centro, vogal da Mesa da AG, cantoneiro e czar de todas as Rússias (por Rogério Casanova)

Rogério Casanova esforçou-se por manter a eloquência habitual após outro desaire do seu Sporting. É ler

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Rui Patrício

Uma pequena viagem no tempo, e um jogo bastante diferente do que tem sido hábito nesta época penosa. Teve culpas nos golos sofridos? Não, não exactamente. Mas o que teve no primeiro golo foi, num certo sentido, ainda melhor, mais profundo, mais característico: teve um bocado de azar! Antes já tinha evitado outro, com uma defesa por instinto aos 13 minutos, e voltou a fazer excelentes defesas aos 38 e 87. Nos descontos, com todos os colegas animicamente de rastos e sem vontade alguma de estar em campo, deu uma corrida desenfreada para ir buscar a bola fora da área e acelerar a reposição em jogo, na esperança de que o empate ainda fosse possível. Foi o momento mais comovente da noite, e talvez da época.

Schelotto

“Onde reside a contradição cómica?”, perguntam vocês, tendo fumado a quantidade suficiente de charros para tal. Aqui, por exemplo, respondo eu, a partir das profundezas intoxicadas da minha total incredulidade: na colisão entre as leis imutáveis e inorgânicas que regulam o universo material (que não possui telos) e o comportamento de criaturas vivas e conscientes – que são dirigidas por impulsos de curto ou longo prazo, ou então, em casos raros, se chamam Schelotto. Ignorar o presente em função do futuro é o que nos torna humanos. Mas também é o que nos faz tropeçar no obstáculo ignorado, ou espatifar passes simples contra tornozelos não antecipados, ou então, em casos raros, ganhar uma internacionalização pela Itália e jogar no Sporting. “Porquê, porquê”, perguntam vocês, acendendo mais uma. Porque lol, porque nothing matters, porque um dia vamos todos morrer.

Coates

Quase sempre intransponível nos lances disputados com os avançados do Feirense, roubando bolas no confronto directo com a tranquilidade do costume. A construir esteve menos bem, e participou em algumas saídas de bola atabalhoadas e precipitadas, o que pode reflectir apenas uma vontade de se integrar no espírito de grupo. Aos 92, numa altura em que ainda podia haver algumas dúvidas sobre a exibição do guarda-redes adversário, teve a generosidade suficiente para ir lá à frente permitir-lhe uma defesa para acabar com as dúvidas.

Rúben Semedo

Adivinhou-se-lhe cedo a intenção de conceder imunidade diplomática ao adversário, e a defender foi intransigente na aplicação da doutrina da coexistência pacífica. A bola, quando existe, é para todos, e não seria Rúben Semedo a criar as condições de opressão para impedir 50% da população em campo de se divertir também com ela, tendo por esse motivo evitado fazer muitos cortes. Mas quando um avançado do Feirense lhe ganhou espaço já dentro da grande área, considerou que isso era ir longe demais e abusar da sua magnanimidade, tendo retaliado de pronto.

Jefferson

Ronaldinho Gaúcho patenteou a habilidade que consiste em olhar para um ponto indefinido à sua frente e passar a bola para o colega ao seu lado. Imbuído da mesma criatividade brasileira, Jefferson desenvolveu a proeza análoga de olhar para um colega ao seu lado e passar a bola para a bancada à sua frente. Apesar de tudo, não fez um jogo horrível (é este o padrão de avaliação actual), e ganhou algumas faltas com jogadas de insistência. Nota artística também ao minuto 82, quando teve algum espaço na linha, mas antes de efectuar novo cruzamento, decidiu ensaiar uma pequena dança regional em cima da bola.

William Carvalho

A diferença entre a boa forma e a má forma não redefine ontologicamente um jogador, mas ver os mesmos atributos na sua versão satírica tem a rara capacidade de ampliar drasticamente a nossa capacidade para dizer palavrões, dos quais, se formos justos, logo nos arrependemos. Não deixa de ser triste, ver aquele fluído rodopiar sobre flanela reduzido nos últimos tempos a uma colecção de maneirismos de barroca futilidade – como as vénias protocolares diante da Raínha de Inglaterra, em que é preciso um algoritmo para memorizar a sequência correcta de movimentos.

Gelson Martins

Marcou o único golo da equipa, na sequência de um lançamento lateral em que a bola não passou pelo pé de nenhum colega antes de chegar ao seu, uma jogada que transporta uma lição valiosa sobre quais as partes do corpo que os futebolistas do Sporting devem evitar usar nesta fase complicada. Além disso, cumpriu a sua função: imprimir desorganização à manobra defensiva adversária, algo que seria colectivamente mais eficaz caso os colegas tivessem a mesma capacidade de improvisar no meio do caos, em vez de parecerem tão surpreendidos como os defesas fintados por Gelson. Mas continua a nem sempre decidir bem. Aos 48 minutos deixou Schelotto isolado na área, com um passe, por definição, indesculpável.

Adrien Silva

Ao minuto 72, num espaço de 3 segundos, a bola atingiu a barra da equipa do Farense, o poste da equipa do Farense, e a luva direita do guarda-redes do Farense (neste último caso, rematada por Adrien). Seria a imagem perfeita da época de Adrien, caso a bola tivesse também sofrido um estiramento muscular antes de sair pela linha de fundo.

Bruno César

Numa época em que foi médio-esquerdo, médio-direito, médio-centro, segundo avançado, lateral-esquerdo, lateral-direito, vogal da Mesa da Assembleia Geral, fisioterapeuta adjunto, cantoneiro, motorista, nadador-salvador, e czar de todas as Rússias, foi hoje adaptado a nova posição: homem invisível. Cumpriu a tarefa, como faz sempre, com brio e imensa competência.

Podence

Notou-se, logo nas primeiras duas ou três intervenções, a preocupação em procurar Dost o mais rapidamente possível – o que serve, nas actuais circunstâncias da equipa, como uma boa definição do que constitui esse raro atributo a que chamamos “objectividade”. O impulso pragmático não durou muito e a sua exibição, até por ter deixado o jetpack em casa, terá sido das mais discretas desde que se estreou.

Bas Dost

Assistiu Gelson para o 0-1 e passou o resto do jogo a pensar como raio é possível esta gente ter-lhe permitido marcar a carrada de golos que acumulou ao longo da época. Terá sido uma alucinação? Um erro de contabilidade? Hoje à noite vai adormecer a olhar para a tabela oficial de melhores marcadores, repetindo com a força de quem se agarra à última réstia de sanidade: “eu, Bas Dost, marquei mesmo estes golos todos. Marquei-os todos. Ninguém me pode tirar isso. Ninguém”.

Bryan Ruiz

Excelente vitória portuguesa na Eurovisão, os meus parabéns a Salvador Sobral!

Matheus Pereira

Ultrapassou dois adversários em velocidade assim que entrou. Pouco depois, com espaço para arriscar novo lance no 1x1, apercebeu-se das intrigantes parecenças fisionómicas entre o lateral do Feirense, Barge, e Pedro Madeira Rodrigues, tendo portanto optado por esborrachar-lhe a bola em cheio nas trombas, uma opção de dúbia eficácia para os objectivos competitivos da equipa, mas que acaba por se compreender, e até aplaudir.

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