Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

Rogério Casanova e os heterónimos de Esgaio: o veloz lateral Esgainho, o possante lateral Ricky Esgailéz, o implacável Ryszard Esgayolov

Rogério Casanova continua a achar que o cidadão comum Ricardo Esgaio é uma espécie de encarnação de Fernando Pessoa que nunca publicou um verso e que passou toda a sua santa e tranquila vidinha a traduzir correspondência comercial e aponta desde já Francisco de Oliveira Geraldes, visconde de Alvaláxia, como futuro Prémio Nobel da Literatura em 2053

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Partilhar

Beto

Assim que se soube a notícia da sua merecida presença no onze inicial havia apenas uma dúvida a esclarecer: seria Beto capaz, depois de tão longo período de inactividade, de se mostrar à altura do titular e não ter culpas no golo sofrido? Não ter culpas no golo sofrido nem sempre é tarefa tão fácil quanto Rui Patrício a faz parecer, e as perspectivas não eram animadoras. Só ao fim de 20 minutos (no segundo exacto em que a greve das claques terminou) Beto conseguiu mostrar trabalho, com uma saída aos pés de Elhouny. E a partir daí pouco mais teve a fazer, excepto resolver episódicos atrasos. O seu ânimo já certamente esmorecia quando, com uma hora de jogo, não teve - de forma triunfante - quaisquer hipóteses de defesa, e portanto quaisquer culpas, no golo do Chaves. Antes do apito final ainda fez mais uma excelente defesa a um livre, mas uma saída atabalhoada num cruzamento podia ter corrido mal. Apesar dessa única falha, provou que podem continuar a confiar nele para não ter, de vez em quando, culpas nos golos sofridos.

Esgaio

Um indivíduo tão discreto, tão pacato, com tamanha aura de boa e anónima pessoa, que a obrigação profissional de jogar futebol à frente de tanta gente parece sempre uma maldade que lhe estão a fazer. Ricardo Esgaio faz lembrar uma encarnação de Fernando Pessoa que nunca publicou um verso, e que passou toda a sua santa e tranquila vidinha a traduzir correspondência comercial, a beber um casto copo de vinho ao fim da tarde no Abel Ferreira da Fonseca, e a escrever o ocasional bilhete à Ophélia, antes de se retirar para um quarto alugado e adormecer a inventar heterónimos: o veloz lateral Esgainho, o possante lateral Ricky Esgailéz, o implacável lateral Ryszard Esgayolov...

Coates

Um jogo tranquilo, em que algumas pessoas más invadiram de vez em quando a sua privacidade, perturbando assim o funcionamento regular do heteropatriarcado normativo que transporta constantemente num perímetro de 5 centímetros à volta da sua pessoa.

Rúben Semedo

O brilhante deslize aos 4 minutos, com uma recepção deficiente dentro da área em que deixou a bola patinar-lhe alegremente pelos pitons a caminho de outra pessoa, podia prometer uma exibição desastrada. Como Semedo reage nestas ocasiões é sempre uma lotaria, mas começa a detectar-se um padrão: encarar a calamidade latente como um desafio, e encontrar o mais depressa possível um ritual de passagem que lhe permita superá-lo. Hoje optou por ensaiar um desarme arriscadíssimo ao minuto 22, em que conseguiu roubar uma bola numa posição quase impossível, e em que o risco de fracasso seria quase de certeza uma grande penalidade e uma penalização disciplinar.

Rúben: pardonne-leur, car ils ne savent ce qu'ils font.

Jefferson

A cidade de Tebas era assolada por uma cena bué medonha chamada Esfinge, e Édipo, recém-nomeado director-adjunto do Departamento de Lidar Com As Esfinges, foi ao terreno avaliar a situação. Cruzando-se com ela num relvado secundário, abordou-a. A Esfinge pousou a mão na sua fronte e presenteou-o com um enigma: "Qual é a criatura que no início da época tem zero pernas; a meio da época tem uma única perna, mas coxa; e no último jogo, quando já nada interessa, parece ter o número correcto de pernas, o mesmo que tinha durante a época 2013/14?".

Édipo pensou um pouco no enigma da Esfinge, e foi nesse dia que começou a fumar.

Palhinha

Lance paradigmático aos 7 minutos: depois de uma perda de bola de Gelson e desposicionamento de Esgaio, mostrou noção perfeita do espaço que podia cobrir, deu passos na direcção certa, desarmou um contra-ataque potencialmente perigoso antes sequer de o rastilho acender, e transformou o sobressalto em novo ataque com dois toques simples. A segunda parte da equação nem sempre lhe corre tão bem (e falhou o único passe mais arriscado que tentou), mas é intratável nos duelos individuais, sabe usar o corpo como poucos, e desde que se refugie na lucidez que possui, pode vir a dar melhor jogador do que alguns (eu, por exemplo) adivinhavam.

Gelson Martins

Uma exibição de capoeira a decorrer em permanência no interior de um TGV: para o bem e para o mal, Gelson é isto. E é quase tão difícil assimilar aquela hiperactividade enquanto colega do que enquanto adversário. Formou, nos primeiros 45 minutos, uma intrigante tripla de trincos todo-o-terreno com Adrien e Podence: um vendaval de intensidade sem bola que mostrou um vislumbre daquilo que poderia ter sido uma época diferente. Com bola, a intermitência do costume na decisão, mas capacidade suficiente para desequilibrar sempre que quer, e para somar mais uma assistência.

Adrien

O grande passe para isolar Jefferson na esquerda logo a abrir terá sido a sua intervenção ofensiva mais vistosa, mas mostrou mais esclarecimento intuitivo com bola e mais energia nas compensações frenéticas sem ela do que tem sido norma nas últimas semanas e isso contribuiu subterraneamente para aquilo de bom que a equipa fez. Ao minuto 38, aproveitou a primeira ocasião que teve para protestar (uma falta que, de facto, não cometeu) para soltar alguns meses de frustração acumulada. Como eu o compreendo.

Matheus Pereira

Entrou com quilos a mais no pé esquerdo e, não pela primeira vez, mostrou mais boas ideias (raramente toma uma má opção ofensiva, excepto quando não arrisca o que sabe) do que boa execução. Toque com demasiada força ao minuto 8, outra excelente ideia estragada com passe demasiado longo ao minuto 24, e um livre indirecto pouco depois que proporcionou à bola a oportunidade de conhecer a mesosfera. À passagem da meia hora, desconfiando que se calhar isto de ser canhoto foi uma mentira que lhe contaram na infância, puxou para o pé direito e marcou golo. Ainda não mostra a intensidade e solidariedade defensiva de Gelson, e deixou por duas vezes o seu lateral sozinho contra dois, mas compensou vindo à faixa contrária cancelar um contra-ataque, numa jogada que lhe valeu o amarelo. Saiu pouco depois.

Podence

Vê-lo a receber a bola sozinho no meio de calmeirões continua a estimular o instinto maternal de qualquer pessoa saudável, mas na verdade precisa tanto de protecção como um troll do 4chan a semear a discórdia por motivo de lulz. Aquele constante frenesim de agitação, e a capacidade para acelerar o jogo com e sem bola, deram frutos logo aos 10 minutos, quando sacou um penalty - e proporcionou um divertidíssimo momento ao minuto 36, quando conseguiu colocar - sozinho - dois defesas do Chaves em inferioridade numérica.

Bas Dost

Acumulam-se os sinais de uma incompreensível falta de egoísmo. Ao minuto 26, com tempo e espaço na área para receber a bola, sentar-se, puxar de um tablet, preencher a declaração de IRS, esperar que a aplicação Java carregasse, validar, submeter, levantar-se, e consumar o hat-trick, preferiu assistir de cabeça um colega que não chegou a tempo. Mais preocupante ainda foi o momento em que veio dobrar Jefferson à lateral esquerda, recuperando uma bola em esforço e atrasando para Beto.

Não sei se o merecemos. Despediu-se do jogo, e encerrou oficialmente a Liga, com mais um golo (o segundo penalty do jogo), que agradeceu de forma típica, envolvendo nos seus braços o amor que emanava das bancadas.

Bruno César

Adaptado a Bryan Ruiz, cumpriu, na medida em que, certamente, e, portanto e em suma, sem dúvida.

Francisco de Oliveira Geraldes, visconde de Alvaláxia, e futuro Prémio Nobel da Literatura em 2053

Entrou bem, para surpresa de exactamente ninguém.

Gelson Dala

A última substituição da época, que assim a definiu na perfeição: não chegou a tocar na bola.