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Rogério Casanova

Subsídios preventivos para o Museu CR7 (Rogério Casanova atualiza o Excel com mais 7500 golos de Ronaldo)

Rogério Casanova escreve sobre "a continuação do sucesso, individual e colectivo, do atleta profissional Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro", que marcou mais dois golos pela seleção portuguesa - desta vez à Letónia

Rogério Casanova

FRANCISCO LEONG

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Acabei de ser informado, e transmito essa informação surpreendente no mesmo espírito de humildade com que a recebi, que decorreu ontem à noite um jogo de futebol entre as selecções de Portugal e da Letónia. Ou, para traduzir uma frase tão desoladora em termos mais significativos, ontem à noite o atleta profissional Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro entrou em campo na companhia de um elenco de sombras para, ao longo de 90 minutos, tentar enfiar a bola dentro da baliza mais vezes do que o conjunto de espectros que o rodeia, e dessa forma criar as condições necessárias para a continuação do sucesso, individual e colectivo, do atleta profissional Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. (Foram mais dois, aparentemente).

Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro tem neste momento 32 anos, 4 meses e 5 dias de idade. Com a mesma idade, Pelé jogou (e perdeu) um amigável pelo Santos contra o Plymouth Argyle, Maradona preparava-se para trocar uma época inconclusiva no Sevilha por uma época inconclusiva no Newell's Very Old Boys, Cruyff assinava contrato pelos Los Angeles Aztecs, Futre participava na pré-época, e pré-reforma, do Yokohama Flugels, e Eusébio arrancava para o último campeonato ao serviço do Benfica (na qual participou em 26 jogos e marcou 8 golos), para a sexta operação ao joelho esquerdo.

Ronaldo, entretanto, marcou sete mil e quinhentos golos no último trimestre, dezoito dos quais desde que vocês começaram a ler este texto, conquistou mais uma Liga Espanhola, mais uma Liga dos Campeões, ordenou a arrumação compulsiva de milhares de violas en el saco, e vai bem lançado para arrecadar a quinta Bola de Ouro de uma carreira que padeceu do azar cósmico de coexistir temporalmente com um anão sul-americano que por acaso será o maior talento natural da história do desporto.

Esta absurda acumulação de factos recentes, e a maneira como interage com as nossas intuições e predisposições, contribuiu para exumar o debate sobre QUAL É O MELHOR JOGADOR PORTUGUÊS DE TODOS OS TEMPOS, bem como os inevitáveis debates subsidiários: O COMENTÁRIO TELEVISIVO MAIS ASININO DE TODOS OS TEMPOS e O DEBATE NO TWITTER MAIS DESINTERESSANTE DE TODOS OS TEMPOS. A manufactura de hierarquias é interessante, embora a empreitada de as fabricar raramente o seja, em parte porque as conversas necessárias para tal obedecem aos mesmos furtivos princípios emocionais que nos levam a fingir com muita força que temos opiniões extremamente negativas ou extremamente positivas sobre pessoas como Marco Silva ou o juíz Carlos Alexandre: na verdade usamo-los como pretexto para falar do "outro gajo" sem falar do "outro gajo", ou como oportunidade para traficar lealdades tribais sob a forma de opiniões desassombradas.

O que será mais interessante na carreira recente de Ronaldo não é o consolidar de um lugar no Panteão (tarefa que o Tempo, a seu tempo, se encarregará de cumprir), mas o privilégio de testemunhar mais uma vez, e ao mais alto nível, o processo misterioso pelo qual o talento se adapta às fricções do calendário. A transformação de jogadores em jogadores radicalmente diferentes é um dos fenómenos mais fascinantes do futebol, um fascínio que consegue sobreviver à proliferação de exemplos: a época que agora termina assistiu à transformação de Mandzukic em médio-esquerdo (algo tão contra-intuitivo como, aqui há 15 anos, seria a transformação de Nuno Gomes em trinco), e à transformação de Bruno César em palimpsesto; e não passa uma semana sem que alguém, algures, tente adaptar um promissor extremo-direito a titubeante lateral-direito.

As transformações ditadas pela idade pertencem a outra ordem e costumam oferecer ao espectador consequências nem sempre agradáveis: um dos períodos mais trágicos da era moderna do futebol português foi o período de oito ou nove meses (ali entre 2002 e 2003) que Luís Figo demorou a perceber que já não conseguiu ultrapassar qualquer lateral que lhe aparecesse à frente. A reacção intuitiva de futebolistas superiores é a inevitável geração espontânea de um maneira diferente de fazer as coisas - e a de Figo, nas últimas épocas do Inter, não foi nada má.

Cristiano Ronaldo, pelas suas características específicas, sempre foi um candidato mais plausível a este tipo de especulações do que, por exemplo, Messi. No seu pico atlético, era um jogador que não desrespeitava a organização básica de pesos, forças e ângulos visíveis a olho nu: limitava-se a percorrer todos vectores, com pressa e à bruta. Enquanto Messi vive na deformação subtil das geometrias entre os eixos x e y, Ronaldo era uma perpendicular violenta, em linha recta, sempre entre o 9 e o 12 na escala de Beaufort.

Numa das (várias dezenas) de colunas condescendentes que dedicou a Ronaldo, Cruyff aconselhou-o a perceber que não podia fazer tudo o que queria fazer durante o jogo inteiro, e a gerir melhor as suas forças. O artigo foi escrito em 2010, e o conselho foi patuscamente prematuro (seguiram-se alguns períodos prolongados em que o aconselhado fez tudo o que queria fazer durante o jogo inteiro), mas estava condenado a tornar-se profético.

A distribuição eficaz de recursos foi precisamente a tarefa que Ronaldo se auto-impôs nos últimos tempos. Aprendeu a subordinar a sua omnipresença à burocracia inerente do meio-campo - um meio-campo, por sinal, tão perfeito que até se dá ao luxo de incluir Casemiro - sem sacrificar a sua função executiva. Pelo contrário, o processo fê-lo renascer como uma espécie de Chefe de Estado com papel cerimonial: o que aparece para marcar o golo, cortar a fita, acenar às massas e levantar a taça.

Nada disto implica que Ronaldo se tenha rendido ao conceito de solidariedade. Por Deus! O homem não é comunista. #NoHomo e #NoCommunist continuam, aliás, a ser as hashtags tutelares (contemplem, por gentileza, a colecção de viaturas, namoradas e abdominais). Implica apenas a prossecução por outros meios da tarefa para a qual foi posto neste Reino: a resolução de problemas - de uma forma que admite a histeria, mas não o sentimentalismo, e que mede a glória não em imagens na retina, mas em estatísticas na página.

Uma análise superficial à dimensão do seu ego tornaria fácil, aqui há tempos, adivinhar outro rumo, e não deixa de ser um alívio constatar que o declínio gradual do seu potencial atlético não o levou ao auto-pastiche nem à paródia involuntária. Sente-se que a pergunta operativa nas suas sinapses, a meio de qualquer jogada potencialmente decisiva, não é "O Que Faria Ronaldo?" (pergunta que seria a morte do artista), mas sim um muito mais saudável "Como Pode Ronaldo Voltar a Ser Decisivo Neste Momento?".

É um dos caminhos disponíveis para aquilo a que Adorno e Edward Said chamaram o estilo tardio: o que acontece quando (na paráfrase de Said) a Arte recusa abdicar dos seus direitos em favor da realidade. Em vez de disrupções, desarmonias e excentricidades, Ronaldo optou pela serenidade adaptativa. Continua a competir fora do tempo, não contra o passado e as suas hierarquias mitificadas, não contra o presente e a sua entropia galopante, mas contra o futuro: cada jogada sua pretende emendar enciclopédias, invalidar historiadores, preencher almanaques, redecorar museus, acrescentar entradas ao Guinness.

A sua reacção alegadamente indiferente (ou positiva) àquele infame busto bronzeado no Funchal é perfeitamente característica e um bom índice da especificidade da sua auto-estima: claro que Ronaldo acha o busto mais feio que o reflexo que vê todos os dias, várias vezes por dia, num de múltiplos espelhos; mas isso não importa: esse reflexo é, por definição, impossível de reproduzir por mãos humanas. É no espelho a magia reside; o que acontece dentro das quatro linhas é apenas trabalho. O semblante que lhe interessa será prosaicamente desenhado na posteridade por tabelas e Tovares nos arquivos do IFFHS. Daqui a uma semana, na Rússia, haverá novas oportunidades para actualizar o Excel.