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Rogério Casanova

Rogério Casanova viu Patrício, Bryan Ruiz e até Diego Capel na seleção mexicana

Os jogadores do México conseguiram empatar Portugal (2-2) e entreter Rogério Casanova, que viu algures um tipo chamado 'Chiribitatatarito Hernández' e outro alegadamente com feições de narcotraficante

Rogério Casanova

YURI CORTEZ/GETTY

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Ochoa

Um dos melhores utilizadores de tecido craniano desde Axl Rose e David Foster Wallace, Ochoa é recordado menos pelas suas exibições do que pelo facto de ter sido suspenso da Gold Cup em 2011 depois de falhar um controlo anti-doping. Mais tarde justificou a situação por ter comido um frango drogado com Clenbuterol - que a Wikipedia descreve como uma substância simpaticomimética que atua principalmente em receptores beta-adrenérgicos. Hoje parecia lançado para um jogo Patriciano de pouquíssimo trabalho (tocou pela primeira vez na bola aos 11 minutos; com os pés), até ao momento em que Quaresma lhe esfrangalhou os receptores beta-andrenérgicos com uma revienga simpaticomimética e marcou o golo inaugural. Ainda fez uma grande defesa, a 5 minutos do fim, impedindo o que seria o melhor de cabeça na carreira de André Silva.

Salcedo

Na sua adolescência, Salcedo foi três vezes deportado dos Estados Unidos, depois de atravessar ilegalmente a fronteira, uma experiência traumática que talvez ajude a explicar o cataclismo que experimentou ao minuto 17, quando foi enganado por um drible curto de André Gomes, algo que deve levar qualquer jogador a considerar a hipótese de se auto deportar da modalidade que pratica. Ao minuto 33, superiormente assistido por William, ia marcando um autogolo de cabeça, mas falhou por centímetros. No lance do primeiro golo, deixou fugir Ronaldo, recuperou, mas ainda foi a tempo de escorregar no momento certo. Foi das exibições mais bem conseguidas da seleção portuguesa.

Diego Reyes

Diego Reyes é. Diego Reyes. Diego Reyes esteve. Olá a todos, muito boa tarde. Creio não andar longe da verdade ao presumir que todos estão à espera que Diego Reyes. Perdão, que Diego Reyes seja o início de uma frase, que terá posteriormente um meio e um fim. A questão é que a exibição de Diego Reyes. Perdão, que a exibição de Diego Reyes não foi propriamente geradora de verbos transitivos, e muito menos de complementos directos. Jogou grande parte do jogo a central, sem que eu tenha dado pela sua presença. Jogou os últimos 20 minutos a lateral direito, sem que eu tenha dado pela sua presença. Aqui há uns anos passou pelo FC Porto, sem que eu tenha dado pela sua presença. Tudo isto indica que pelo menos não cometeu grandes asneiras, uma vez que, para dar um exemplo contrário, hoje deu-se bastante pela presença de José Fonte no outro lado do campo.

Moreno

Um belíssimo jogador, cuja exibição ajudou a dissipar o amargo de boca sentido por todos aqueles (nomeadamente eu) que gostariam de ter visto em campo Rafael Márquez - um dos dois jogadores em competição mais velhos do que certas e determinadas pessoas (nomeadamente eu). Aquele pé esquerdo é old school, tal como a sua saída de bola. Fez algumas aberturas precisas a 50 metros - na retina ficou uma diagonal milimétrica para Vela aos 18 minutos, de um lado ao outro do campo. Na fase em que Portugal apostou mais nos cruzamentos, esteve imperial dentro da área, com dois cortes decisivos. E foi ele quem foi empatar o jogo, já nos descontos. Se alguém do México merecia esse prémio era ele, na opinião de algumas pessoas (nomeadamente eu).

Layún

Jogou sempre mais subido na faixa do que Salcido, assumindo quase o posicionamento de um extremo na primeira fase de construção. Tem um pé direito extremamente talentoso, mais ou menos da mesma maneira que Bryan Ruiz tem um pé esquerdo extremamente talentoso: é agradável apreciar as suas operações, mesmo que não resultem em nada, como é frequentemente o caso. Ao minuto 65 fez uma variação de flanco com um passe tecnicamente perfeito: o corpo no ângulo de inclinação optimizado, o peso certo no pé direito, a bola a descrever um arco tenso e rigoroso - antes de aterrar na única zona do relvado onde não havia ninguém (colegas ou adversários) num raio de 5 metros em todas as direcções. Genial.

Herrera

Bastante agressividade no meio-campo, que sinalizou preventivamente logo aos oito minutos, com uma cacetada polivalente a Nani, utilizando várias partes do corpo em simultâneo. Aqui há seis séculos, os Aztecas andavam a esventrar crianças no topo de pirâmides, pelo que apesar de tudo, a agressividade de Herrera representa uma notória evolução. E está, claramente, um jogador mais maduro. Ao minuto 55, por exemplo, André Gomes tentou ultrapassá-lo em velocidade. Demonstrando todo o seu profissionalismo, Herrera não se desmanchou a rir e manteve a concentração necessária para se apoderar facilmente da bola.

Jonathan dos Santos

Na Copa América 2011, Dos Santos foi um dos protagonistas da mais hilariante versão sul-americana do "Caso Paula". Convidou um batalhão de prostitutas para o seu quarto de hotel no Equador, e acabou por confessar ele próprio a delinquência quando se queixou aos directores técnicos que as prostitutas lhe tinham roubado o iPad, o telemóvel, o passaporte, e a carteira. Em campo, mostra com regularidade maior discernimento, embora padeça daquela patologia Concacafizante que consiste em jogar à bola como eu navego na internet: cheio de curiosidade, e com dezenas de separadores abertos, mas muitas vezes sem fazer a menor ideia do que ando à procura, ou do sítio onde vou acabar. Intenso, eléctrico, e com superlativo toque de bola, acabou por fazer um jogo de qualidade, e foi o vértice invariável das melhores trocas de bola do México.

Guardado

Em 2011, foi alegadamente opção para reforçar o Sporting, mas a direcção na altura alegadamente presidida por Godinho alegadamente Lopes viria a optar por outro alegado médio alegadamente esquerdo, Diego alegadamente Capel. Tendo alegadamente derivado para posições mais centrais nos últimos anos, foi hoje o o elemento alegadamente mais anónimo do trio de meio-campo do México.

Carlos Vela

Foi dos piores jogadores em campo na primeira parte. Mal na recepção, cruzamentos disparatados, uma sucessão de jogadas promissoras que se estragavam inevitavelmente quando chegavam aos seus pés. Como tal, evidentemente, depois de 41 minutos em que nada lhe correu bem, aproveitou uma falha incaracterística de Raphael e somou uma assistência para o golo do empate (feita sem olhar, e com o pior pé). Logo a seguir uma cavalgada pela faixa inteira, levando tudo à frente como um pequeno Popócatepétl ambulante, e que só não resultou em golo por acaso. Concluí há muitos anos, com a arbitrariedade que caracteriza todas as minhas embirrações, que Carlos Vela é o tipo exato de jogador ofensivo que mais me desagrada, quer jogue em equipas que eu apoie, ou equipas adversárias: aquele cujos malabarismos se assemelham à nuvem de tinta segregada pelo polvo para dissimular a sua fuga, aquele que devia sempre jogar melhor do que joga, mas que também é quase sempre mais decisivo do que merece.

Chiribitatatarito Hernández

Aos 29 anos, continua a apresentar-se em campo com cara de um miúdo de 12 anos que veio a correr para o recreio, e a jogar mais ou menos da mesma maneira: sendo bom, sendo chato, e não tendo vontade nenhuma de ir para casa.

Oscilando entre o centro e a faixa esquerda, foi carraça (sem bola) e pulga (com bola): sempre aos saltinhos, ensaiando alguns sprints em que circum-navegava três ou quatro pessoas antes de se espalhar triunfantemente na relva, mas escolhendo as alturas certas para dar a picada. Ameaçou pela primeira vez ao minuto 38, com um cabeceamento sorrateiro dentro da área. Três minutos depois, à segunda oportunidade, não perdoou.

Raul Jiménez

Independentemente das suas prestações individuais no resto do torneio (hoje esteve melhor a chatear José Fonte e o resto da defesa do que a ligar o jogo com os colegas) o importante é que não voltemos a vê-lo festejar um troféu, situação que já estou francamente cansado de testemunhar.

Gio dos Santos

Que prazer voltar a vê-lo! Não porque seja um jogador de cujo talento é legítimo sentir saudades periódicas (é bom, mas não assim tão bom), mas porque pertence àquela estirpe de futebolistas (como Rigobert Song, Okocha, Landon Donovan, etc.) que fazem parte da paisagem interior de todos os espectadores habituais de torneios internacionais. A maior surpresa da tarde, aliás, foi confirmar que Gio dos Santos tem apenas 28 anos de idade - uma anomalia numérica, tendo em conta a minha certeza absoluta de o andar a ver serpentear inocuamente pelas linhas laterais desde os Jogos Olímpicos de Seul, em que a Rosa Mota ganhou a maratona.

Araújo

Entrou para permitir que Diego Reyes transferisse a sua anónima competência do centro do terreno para a faixa direita.

Oribe Peralta

Oribe Peralta, além de ter um excelente nome para um narcotraficante, tem também um excelente rosto para um narcotraficante. Néstor Pitana, árbitro da partida, além de ter um excelente nome para um guarda-prisional, teve uma efémera carreira de actor na sua juventude, onde interpretou o papel de um guarda prisional no filme argentino La Furia. É uma pena que os escassos minutos de coabitação no jogo de hoje não tenham proporcionado mais oportunidades para interagirem.