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Rogério Casanova

O jogo contra o México foi calamitoso e Rogério Casanova apresenta-nos um onze profilático

Rogério Casanova sugere, entre outras coisas, que Francisco de Oliveira Geraldes seja titular, esta tarde, contra a Rússia (16h, RTP1): "Trata-se do futebolista português mais qualificado para defrontar futebolistas russos, tendo em conta os conhecimentos que adquiriu através da exposição prolongada à grande literatura produzida no país"

Rogério Casanova

Se dependesse de Rogério Casanova, Fábio Coentrão estaria agora a caminho da Rússia (o lateral não foi convocado por Fernando Santos)

Felipe Oliveira/Getty

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Rui Patrício (Um Soneto de amor)

Desde a estreia enquanto puto introvertido
acabadinho de sair da Academia
Me deixaste plenamente convertido
Ao valor de uma específica magia.

Encontraste na inocência um sentido.
E não precisas da qualquer acrobacia
Para não teres culpas no golo sofrido.
Isto chega para uma estátua em Leiria

Mas era giro que a malta de Milão
(O rumor ainda não foi desmentido)
Te quisesse para o lugar do Donnarumma

E pagasse meia cláusula de rescisão
mesmo que sem o IVA incluído.
Gosto mesmo da ideia, tipo, em suma.

Cédric

A competente exibição (e a surpreendente frescura física que demonstrou) contra o México é um bom motivo para se manter como titular, mas na verdade existem três motivos ainda mais fortes: Nélson Semedo, João Cancelo e Diogo Dalot. É uma procissão de talento que ali anda, a diferentes distâncias dos seus calcanhares, e a candidatar-se violentamente ao lugar que ocupa. Cédric não possui, objectivamente (e apesar da incaracterística inscrição na ficha dos marcadores no último jogo), a espectacularidade ofensiva de qualquer um deles, portanto resta-lhe o atributo que melhor o define: a capacidade para dar conta do recado, mesmo sem ser espectacular. Aproveitemo-la enquanto é tempo, porque a sua titularidade crónica deve ter os dias contados.

Pepe

Além de continuar a ser o melhor central português, é sempre bom ter em campo alguém que dá valor aos pequenos prazeres do desporto competitivo, como por exemplo o êxtase que se sente ao esmigalhar o crânio do inimigo com as mãos nuas, sentido os restos pulverizados de um occipital a escorrer-lhe entre os dedos, esboçando um sorriso carnívoro enquanto a família recém-enlutada chora de mágoa nas bancadas e o árbitro tacteia nervosamente as suas cartolinas, pateticamente ineficazes como instrumentos de dissuasão.

Bruno Alves

Não se trata de punir a pior exibição de José Fonte com a camisola da seleção, embora o jogo que fez contra o México tenha sido tão calamitoso que uma medida profilática não seja de todo má ideia. Mas Bruno Alves deve jogar por ser o produto final de uma das mais intrigantes experiências científicas conduzidas pela humanidade: uma experiência desenhada para testar a hipótese de que descartar toda a alegria de jogar pode tornar um jogador imortal. Bruno Alves, ao contrário das fábulas que contam as enciclopédias online, tem pelo menos 350 anos de idade, e nem se pode sequer garantir nesta altura que ainda habite a nossa dimensão. O mais provável é que aquela figura de ancião aborígene subsista no seu próprio dreamtime, sintonizado perpetuamente numa frequência com ligação directa a um monólito de arenito no deserto, onde os seus antepassados ainda vivem entre gramíneas e dragões. Não é que eu ache que os avançados russos vão perder a bola; acho é que vão perder a vontade.

Fábio Coentrão

Terá alegadamente "passado" uma bateria de exames médicos do Dr. Varandas há menos de 24 horas. Despistada assim as suspeitas de padecer de entorse, luxação, lombalgia, anemia falciforme, catarro crónico, síndrome de Cotard, gravidez ectópica ou mamilos supranumerários, estão reunidas as condições para lhe marcarem uma passagem (num avião com lugar para fumadores) a caminho de Moscovo, ainda a tempo de participar no jogo de hoje, permitindo cumprir um objectivo fundamental, que é o de eu perceber se há a mínima hipótese de isto correr bem.

William

Tem uma das virtudes mais difíceis de avaliar no futebol: a relutância patológica em fazer um passe que deixe o colega de equipa em dificuldades maiores do que o próprio William sentirá caso não o faça. Essa é a chave dos rodopios, do resguardar a posse com corcunda à Quasimodo, do por vezes interminável buffering enquanto múltiplas opções são escrutinadas - mas também das perdas de bola que (nem sempre, mas quase) ocorrem quando nenhuma opção corresponde ao seu exigente critério. Haverá quem discorde. Reparo, no entanto, que o site da Tribuna Expresso deixou de ter caixa de comentários, portanto esta é uma excelente oportunidade para partir do princípio que tenho imensa razão.

João Moutinho

É uma pequena tautologia passivo-agressiva que aqui temos: um estilo de jogo a insistir que é assim que se fazem as coisas porque as coisas se fazem assim, um treinador a insistir que Moutinho deve ser titular, porque, se repararem bem, a titularidade pertence a Moutinho. Que mais não seja, a sua presença no onze é útil porque injecta o único vestígio de dramatismo naquela planície de tranquilidade. Não pelo que joga, mas porque é o único que sabe como sofrer uma falta: aos berros, como se estivesse a cantar o dueto final da Carmen de Bizet, apontando o próprio cadáver com legítimo espalhafato. Com um bocado de sorte, pode ser que se engane outra vez num livre directo.

Francisco de Oliveira Geraldes

Embora haja uma tendência para o encarar, nos dias bons, como uma espécie de força impessoal, como se cada rodopio a 100 à hora fosse um fenómeno eólico e não uma decisão consciente, a verdade é que Gelson Martins é uma pessoa humana, daquelas com cláusula de rescisão que se suspeita negociável, e nesta fase da nossa vida ainda não nos dá jeito fazer essas contas.

Geraldes, por outro lado, não está a fazer nada na Polónia, terra convenientemente ali ao lado, pelo que uma convocatória de urgência faz todo o sentido. Mesmo que não houvesse outra razão, trata-se do futebolista português mais qualificado para defrontar futebolistas russos, tendo em conta os conhecimentos que adquiriu através da exposição prolongada à grande literatura produzida no país. Se Fernando Santos o enganar na palestra pré-jogo e lhe disser que o meio-campo adversário defende a supremacia de Dostoievski sobre Gógol, é ver Geraldes esgatanhar-se todo para os refutar.

Pizzi

"Pizzi" é uma sublime sucessão de caracteres, tão diferente de "André Gomes" que merece, só por isso, ser celebrada com júbilo e optimismo. E Pizzi é um jogador optimista; esta é, aliás, uma das suas virtudes mais adoráveis. O optimista vê sempre o copo meio cheio; o pessimista vê sempre o copo meio vazio; o André Gomes não tem a certeza e tenta pegar no copo para ver melhor, mas acaba por deixá-lo cair ao chão. A escolha é óbvia.

Cristiano Ronaldo

O que é que foi? Queriam outro no lugar deste, não?

André Silva

De acordo com a Teoria Especial da Postigavidade, assim que um objecto físico designado "ponta-de-lança português promissor" atravessa o Horizonte de Eventos representado pela maturidade, a perda de atributos é total e irrevogável,. No entanto, para a percepção de um observador externo, o contexto de dilatação temporal permite um número infinito de perdas posteriores, em quantidades cada vez mais ínfimas, ou seja, empréstimo ao Livorno. (Na Teoria Geral, que postula a aceleração do ponto de referência, este parágrafo pode vir a ser considerado embaraçoso no futuro, e portanto apagado à socapa.) Viva Portugal!

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