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Rogério Casanova

Eliseu Pereira dos Santos Has a Cold

Um perfil da autoria de Rogério Casanova inspirado no New Journalism sobre o nosso lateral-esquerdo, estrela do YouTube, personagem quase bíblica, a quem pede que nos continue a abençoar "mesmo ranhoso"

Rogério Casanova

KIRILL KUDRYAVTSEV/Getty

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Quem tentar confirmar o decepcionante rumor de que Eliseu se encontra constipado e em dúvida para o jogo de hoje, deparar-se-á com uma inesperada dificuldade inicial, cujas origens remontam à madrugada de 13 para 14 de Maio, altura em que a palavra "Eliseu" deixou de ser viável enquanto termo de busca para devolver informação de cariz desportivo. Sugestões tão sensatas como "Eliseu jogador", "Eliseu benfica", "Eliseu Portugal" ou "Eliseu lesão", oferecidas em tempos mais inocentes pela função auto-complete, eclipsaram-se da noite para o dia, enquanto Salvador Sobral amava pelos dois, e o Papa fugia de avião daqui para fora. O que resta, atestando a irrevogável mudança de paradigma, é "Eliseu mota", "Eliseu vespa", "Eliseu bike" e "Eliseu peão". Na busca por vídeos, o cenário é ainda mais devastador: é preciso avançar até à terceira página para encontrar imagens de jogos de futebol.

O que é anómalo nesta situação é que ela não é sequer anómala na pegada online de Eliseu. Existe um Youtube de seis minutos que reúne todos os 27 golos que marcou ao serviço do Málaga. O vídeo tem, à data, 1649 visualizações (sendo que as últimas duas foram minhas). Um outro vídeo, muito mais popular, intitula-se "El Show Eliseu" e regista os minutos finais de um jogo contra o Celta de Vigo. Eliseu cai ao chão num lance sem bola (e aparentemente sozinho). Queixa-se de dores intoleráveis. Reclama assistência médica. Obriga à entrada do carro-maca. Dificulta, tanto quanto lhe é possível, a sua remoção para o dito. É finalmente, e com imenso esforço de quatro pessoas,transportado para fora das quatro linhas. É assistido durante uma fracção de segundos, regressa ao relvado a tempo de receber a bola num lance de contra-ataque, faz um sprint fenomenal pela faixa direita, é derrubado em falta, e fica novamente a rebolar-se pelo chão como se estivesse a tentar assassinar uma toupeira. Quando se levanta, corre para o outro lado do campo com um aspecto extremamente saudável, recebe a bola, sente a presença de um adversário nas costas e simula nova falta dolorosa, à qual o árbitro responde, em claro desespero, com um cartão amarelo, enquanto Eliseu pede mais uma entrada do carro-maca. E assim se esgota o período de descontos. O vídeo é de 2008 vai em quase 19 mil visualizações. (O primeiro comentário, a título de curiosidade, é "Bien Vindo al Porto".)

Qualquer imagem pública se arrisca a ficar refém de circunstâncias arbitrárias e injustamente distorcidas. O homónimo bíblico de Eliseu, discípulo de Elias e um dos profetas menores da Bíblia, acumulou o maior catálogo de prodígios e milagres do Antigo Testamento. O homem salvou vítimas de credores com multiplicações de moeda, alimentou esfomeados com migalhas, separou as águas do Rio Jordão, curou leprosos, ressuscitou mortos. No entanto, a passagem do 2º Livro dos Reis que mais lhe moldou a reputação é uma em que, acossado por um grupo de jovens a escarnecer da sua calvície, reza a Deus para os castigar. Deus atende o pedido, e envia prontamente dois ursos que matam, desmembram e devoram as quarenta crianças que fizeram pouco de um careca. E Eliseu ficou permanentemente conhecido em círculos teológicos como "o gajo dos ursos" (facto).

Vespas e carros-maca. A consolidação da imagem de um futebolista no imaginário dos adeptos não é necessariamente um processo misterioso. Mas por ser um processo ao mesmo tempo colectivo e descentralizado, produz por vezes resultados perplexos. Os exageros, simplificações e efabulações acabam por reflectir uma personalidade, mas apenas da mesma forma que o fazem as caricaturas. Por norma, respeita-se uma correlação mínima entre talento, nível de excentricidade e a estenografia iconográfica gerada. Ao longo da sua carreira, Ibrahimovic não foi menos absurdo que Balotelli. No entanto, um deles foi quase sempre o melhor marcador e jogador mais decisivo nas equipas onde jogou e ganhou títulos, enquanto o outro acumulou médias de 4 jogos decentes a cada 40 - e a imagem que temos de ambos reflecte essa diferença mais do que as semelhanças.

A imagem de Eliseu junto dos adeptos do Benfica, e da própria selecção, é difícil de categorizar. Nomeado para o cargo permanente de pior jogador da equipa sempre que é titular (é uma inevitabilidade matemática que todas as equipas tenham um, mas não deixa de ser curioso que a escolha costume ser prévia), teimou e teima em protestar tacitamente o critério. Nas últimas duas épocas, sempre que o vi jogar, Eliseu foi sempre um pouco (ou mesmo bastante) melhor do que eu esperava - sem que em nenhuma ocasião as expectativas de base fossem calibradas pela surpresa anterior. Os seus bons jogos foram sempre uma surpresa. "Eliseu" e "boa exibição" nunca foi sugerido por qualquer auto-complete; e não é fácil conjugar os dois conceitos: é como se não existisse um verbo semanticamente plausível para ligar sujeito e predicado.

Parte da dissonância cognitiva pode ser explicada pelo seu pouco útil e bastante enganador aspecto físico. Embora seja alvo regular de piadas sobre o seu peso, a morfologia futebolística mais semelhante à sua é a de Hulk (vistos de trás, em corrida, são surpreendentemente parecidos). Eliseu corre como o gajo que guardou o maior saco de torresmos do mundo numa bolsa de cintura, e tem pressa de o abrir. E tem daqueles rostos em que não é fácil adivinhar a idade. O que é fácil é adivinhar o que está a pensar: sempre que uma jogada lhe corre bem, mostra uma expressão cínica (exactamente igual à que mostra quando uma jogada lhe corre mal), a expressão de um homem que acabou de confirmar suspeitas de longa data sobre a nossa sexualidade.

É raro, mas acontece, um futebolista tentar corrigir voluntariamente a construção injusta da sua imagem. Alguns adoptam a excentricidade como um refúgio: um atalho para escapar ao estatuto de bode expiatório (Abel Xavier), ou para atenuar a aura de expectativas não cumpridas (que terá sido, a partir de certa altura, o caso de Balotelli). Parece-me uma teoria verossímil que Eliseu, e os fogachos de excentricidade extra-curricular que o constituem, não seja uma erupção involuntária de carácter, mas um escape controlado: a forma que encontrou para reconciliar a exuberância passada de alguém capaz de dar origem a um YouTube com 28 golos, um terço dos quais espectaculares, com a natural incompetência periódica de alguém agora permanentemente rodeado por colegas melhores que ele. O Eliseu dos motores de busca não será o repositório secreto de propriedades carismáticas, mas um mecanismo de auto-defesa. O que salta à vista no já célebre vídeo dos festejos no balneário não é um extravasar carnavalesco de exuberância, mas a sua compenetração. No meio de um bando de miúdos descompensados, Eliseu mostra o ar atarefado (e até exasperado) de quem tenta fazer o seu trabalho, que na ocasião (como em campo) consiste em encontrar o modo mais lúcido e controlado de ser temporariamente avariado dos cornos. É a mesma atitude de quem sabe não conseguir ser um André Almeida ou um Esgaio, de quem nunca terá o consolo do anonimato. De quem se vê a obrigado a dar-nos circo porque sabe que o pão não chega.

E possível que a sua presença tutelar nos dê também um (imerecido) talismã. No calendário litúrgico cristão, o dia de Santo Eliseu calha a 14 de Junho. Foi a data em que Portugal se estreou, contra a Islândia, no torneio em França que fez do patinho feio campeão europeu. E foi a data em que a comitiva embarcou para a Rússia. Que continue a abençoar-nos, mesmo ranhoso.

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