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Rogério Casanova

Coentrão, uma pessoa completa deve sentir-se feliz só por saber que está viva e não precisa de pensos rápidos (por Rogério Casanova)

Rogério Casanova avisa: “Quis fazer uma brincadeira com citações inventadas do Gustavo Santos”. E esta é a sua análise aos reforços do Sporting no jogo de quarta-feira

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Piccini

Apanhar pela frente o anão mais perigoso do mundo a seguir a Podence e a uma personagem qualquer do Game of Thrones não proporciona as condições ideais para grande coisa a não ser para tirar conclusões precipitadas. Fez o que pode a defender, embora não tenha repetido a sua melhor acção: uma cacetada espectacular ao minuto 29 que virou Valbuena do avesso. A atacar, terá abusado dos lançamentos longos na primeira meia-hora, mas nota-se um conforto com a bola no pé muito diferente da do seu antecessor (duas perdas de posse perigosas, aliás, são consequência directa dessa confiança).

No fundo, “é melhor que o Schelotto, mas” é o ponto onde nos encontramos. “É melhor que o Schelotto, mas...”. Uma coisa parece clara: com todos os (esperados) titulares na sua melhor forma, será o elemento mais fraco do onze.

A opinião de Gustavo Santos: “O medo do futuro é o remoinho do presente onde confluem as correntes de todos os medos que julgamos ter perdido no passado”

Mathieu

O seu melhor momento a construir foi ao minuto 9, quando transformou o que seria um inconsequente alívio de primeira numa abertura perfeita para isolar Bruno Fernandes na faixa esquerda. Algumas falhas posicionais na articulação com o parceiro, mas nada de desmotivante nesta altura.

A opinião de Gustavo Santos: “O silêncio só nos incomoda quando nos habituámos a viver no meio do ruído”

Fábio Coentrão

Duas boas incursões em velocidade, a varrer toda a faixa até à linha de fundo, o ventrículo direito a bombear sangue venoso para as artérias pulmonares, onde o gás carbónico foi dizimado sem contemplações. O sangue, agora cheio de confiança e oxigénio, foi desmarcado para as veias pulmonares, regressando triunfantemente ao coração. A pressão durante a sístole ventricular mostrou-se sempre atenta e bem posicionada. Ouviu-se a vibração espasmódica de músculos pouco utilizados. Coentrão saiu de campo ao intervalo, pelo próprio pé, e com os sinais vitais estáveis. O condutor da ambulância à porta do recinto acendeu um pensativo cigarro.

A opinião de Gustavo Santos: “Uma pessoa completa deve sentir-se feliz só por saber que está viva, e não precisa, por exemplo, de pensos rápidos”

Petrovic

Criogenicamente preservado na memória dos adeptos como um problema, não lhe vai ser fácil mostrar que é solução - menos ainda se a saída de William for o problema adicional a resolver. Menos ágil e pujante do que no jogo com o Belenenses (onde parecia estar duas semanas de trabalho à frente dos colegas todos), mostrou-se hoje mais vulnerável a momentos de pressão do adversário.

Tem uma característica que é tão passível de ser a melhor das qualidades em bons jogadores como o pior dos defeitos em jogadores apenas razoáveis: tenta sempre procurar a melhor opção em vez da opção mais fácil. Contas feitas, é capaz de ser melhor ser humano do que jogador de futebol (e não é mau jogador de futebol).

A opinião de Gustavo Santos: “A hesitação é apenas outra forma de dizer que ainda não acabámos de pensar - portanto esperem um bocadinho e não me chateiem os cornos”

Bruno Fernandes

O típico médio português com estas características técnicas e morfológicas costuma descobrir precocemente uma paixão por triangulações. Talvez pelo percurso atípico, Bruno Fernandes parece menos absorvido pela utopia da tabelinha perfeita, pois embora os seus equiláteros, isósceles e até escalenos não sejam nada de deitar fora, o que ele gosta mesmo de praticar é uma versão futebolística de geocaching: alguém, algures, está sozinho em campo, e o que o motiva é fazer lá chegar a bola, quase sempre com sucesso. Ao minuto 32 partiu com cinco metros de atraso e ganhou um sprint a Iuri Medeiros para cortar um possível contra-ataque; foi inteligente a cortar linhas de passe adversárias; mostrou mais agressividade do que seria de esperar na procura da bola. Não engana.

O último jogador que chegou ao Sporting depois de tanto tempo em Itália chamava-se Hugo. Se alguém merecia esta recompensa somos nós.

A opinião de Gustavo Santos: “A mente serve para libertar o coração, não para o aprisionar. E também nos serve, e bem, para fazer esquecer o gajo que quer ir para Inglaterra”

Jonathan Silva

Estava em campo há menos de cinco minutos quando o árbitro o aconselhou a ter calma. Deve ser o centésimo árbitro na carreira a fazer-lhe a mesma recomendação. Jonathan joga futebol da mesma maneira que certas pessoas discutem na internet: nunca faz propriamente um argumento plausível, mas também nunca desliga o computador e vai dormir.

A opinião de Gustavo Santos: “Apenas o amor carrega dentro de si a coragem transformadora de perguntar, de peito aberto: QUANTOS SÃO? VENHAM CÁ!”

Battaglia

Tem um estilo mais assertivo que o de Petrovic (que trabalha menos por imposição do que por humilde sugestão) e presta-se mais a cair no goto de quem vê - embora também funcione por vezes como uma refeição demasiado quente para conseguirmos apreciar o sabor. Jogando a trinco perde talvez o melhor que tem - um raio de acção de alargado e a capacidade para queimar metros em progressão - mas ganha também o espaço necessário para respirar antes de decidir, o que talvez o beneficie.

Mas a sua energia e a intensidade serão certamente úteis, mesmo que não a tempo inteiro: depois do apito final ainda lá andava de braços abertos, a protestar com não sei quem, e provavelmente a tentar desarmar qualquer adepto indefeso à sua frente.

A opinião de Gustavo Santos: “A tua energia é como uma mesada para distribuir: deves saber investi-la só nos filhos preferidos, não nos outros”

Matheus Oliveira

Pela segunda vez pareceu completamente deslocado na linha e só melhorou quando derivou para o meio, onde mostrou critério e lucidez com a bola no pé, e uma inesperada tendência para o carrinho espalhafatoso a defender, sempre com aquele aspecto de quem vai, a qualquer momento, balbuciar profecias em aramaico, e exibir as chagas de Cristo.

A opinião de Gustavo Santos: “Nunca deixes de acreditar em ti mesmo, e no teu imenso potencial para seres assim-assim”

Doumbia

Ao longo dos seus cento e vinte anos de carreira marcou quintentos e cinquenta mil golos distribuídos pelos oitenta e sete clubes por onde passou, e tudo na sua presença em campo transpira currículo, experiência e qualidade não-problemática. Veio para um clube que não tem grandes razões de queixa da qualidade geral dos pontas-de-lança nos últimos 15 a 20 anos: Acosta, Jardel, Liedson, Slimani, Dost. Ter dois de tamanha qualidade em simultâneo é que não acontecia desde a regência do Mestre de Avis, altura em que Doumbia provavelmente já andava pela Flandres, de astrolábio na mão, à procura de balizas.

A opinião de Gustavo Santos: “A experiência é o hálito da eternidade a bafejar um guarda-redes indefeso”

O outro Geraldes

Destacou-se por duas razões: por não ser o outro Geraldes, e por ter levado uma cabeçada de um jogador do Fenerbahçe que deixou incapacitado o jogador do Fenerbahçe.

A opinião de Gustavo Santos: "Quem se conhece bem a si próprio saberá sempre expor-se de uma forma afirmativa sem nunca precisar que as pessoas se lembrem, por exemplo, do seu nome."

André Pinto

Bem... bem vindo ao clube e assim.

A opinião de Gustavo Santos: “Boa noite”.