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Rogério Casanova

Balakov, Barbosa, err... Hanuch e Ghilas: as melhores contratações da história, enfim, recente do Sporting (por Rogério Casanova)

Confuso? Talvez. Mas o autor da prosa justifica as suas escolhas quando enumera os melhores negócios do Sporting nos últimos tempos

Rogério Casanova

Gary M. Prior

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Balakov (1991)

Será difícil de convencer – ou sequer de explicar a – adeptos de futebol nascidos depois dos anos 80, mas houve uma altura em que era possível, e até com algum grau de conforto, não saber o que pensar sobre determinada situação, e sobreviver sem uma opinião firme. Nos tempos remotos e antediluvianos da modalidade – a era pré-YouTube, pré-Lei Bosman, pré-diários desportivos, pré-painéis de comentadores, pré-apostas online, pré-streams ilegais – uma nova contratação, por exemplo, era um fenómeno encharcado em mistério, e cada reforço cujo nome terminava em -ic, -ov, ou -inho não era uma página da wikipédia e um vasto conjunto de amostras, mas um emblema de expectativa e potencial. Uma opinião informada era a última coisa que nos passava pela cabeça.

Não saber o que pensar e não sentir vontade de divulgar o que pensamos deixaram de ser hipóteses viáveis. Em alguns casos recentes (Celsinho, Slavchev), terei visto mais minutos de um jogador via internet nas semanas que antecederam a contratação do que os minutos que os vi jogar com a camisola do clube depois da contratação. Quando Balakov chegou, em Janeiro de 1991 (vindo de um clube chamado, pela minha saúde, Etar), não só a maioria dos adeptos não o tinha visto jogar: nunca sequer tínhamos ouvido falar nele. Quem o contratou, aparentemente, também não. O infalível Sousa Cintra apresentou-o como ponta-de-lança e um “suplente quatro estrelas para o Gomes”.

Por tudo isto, mas não só, Balakov parece pertencer a um estágio anterior do desporto, o futebol tal como era construído na imaginação solene de uma criança a brincar aos adultos. Chegou na época em que a imagem platónica de um “grande” jogador” era ainda Maradona (e o seu sucedâneo europeu, Hagi): um esquerdino talentoso, ocupando uma posição indeterminadamente vagabunda entre o meio-campo e o ataque, com liberdade para não respeitar espartilhos tácticos e para resolver sozinho problemas colectivos. E assim foi. Um adulto não vê propriamente futebol à espera que um jogador marque um golo do meio-campo. Aos dez segundos de jogo. Num derby. Ou que o mesmo jogador finte toda a população da península de Setúbal antes de empurrar a bola para dentro da baliza. Para não falar de expectativas menos irreais, mas de certa maneira ainda mais inocentes, como a crença de que qualquer livre directo ou pontapé de canto pode ser uma genuína ocasião de perigo.

Fez 168 jogos pelo Sporting, e marcou 60 golos. Ganhou um único troféu, uma Taça de Portugal, no seu jogo de despedida. A sua saída deixou na memória de alguns adeptos o equivalente a cicatrizes de acne. Tudo o que veio a seguir fez já parte do desconforto bem informado da idade adulta.

Pedro Barbosa (1995)

Getty Images

Se para alguém nascido em 1980, Balakov foi o derradeiro representante do futebol edénico, Pedro Barbosa foi o primeiro ídolo na transição para a maturidade problemática: a pessoa ideal para nos agradar, ao mesmo tempo que anunciava o fim da era de emoções puras (no sentido em que qualquer emoção passou a ser necessariamente diluída por emoções paralelas e por vezes contraditórias).

A longevidade é parte da questão, e carreiras como a sua são hoje praticamente impossíveis: serão pouco mais do que residuais as probabilidades de um jogador talentoso emergir no campeonato nacional e resistir fora da órbita dos três grandes até aos 25 anos – muito antes disso será contratado pelo Benfica e emprestado ao Desportivo das Aves.

Barbosa chegou ao Sporting e cá ficou dez anos, o tempo suficiente para estar em campo nos jogos de estreia de Simão Sabrosa, Quaresma, Cristiano Ronaldo e João Moutinho. O tempo suficiente para participar na supertaça de Paris, no fim do jejum em Vidal Pinheiro, na semana do quase em 2005. O tempo suficiente para que a sua tantas vezes frustrante lentidão se adequasse ao bilhete de identidade. O tempo suficiente para nos ensinar que é possível manter uma franja mesmo sendo completamente careca.

Não deixando de ser uma figura “de culto” (está para certos adeptos de futebol como Captain Beefheart para certos melómanos) é possível que o seu estatuto fosse ainda mais sólido caso representasse uma anomalia clara na tradição futebolística a que pertence (como Le Tissier, por exemplo, foi para o futebol inglês). Na realidade, limitou-se a encarnar anacronicamente uma sublimação – ora esplêndida, ora caricatural – do que a sua tradição tinha sido na década anterior, mas também de um estranho futuro alternativo do futebol português em que a ”geração de ouro" nunca emigrasse: a frustrante estagnação produzida por um superavit de talento aliado ao défice crónico de consistência; a execução de um futebol de curvas, elipses e parábolas num período em que o jogo já convergia para procurar a distância mais curta e eficaz entre dois pontos.

Tivesse sido um bocadinho melhor e não teria ficado dez anos. Um bocadinho pior e teria sido provavelmente linchado pelos adeptos em pleno relvado. Combinou qualidades e defeitos na proporção exacta para alcançar uma congruência trágica com a identidade do clube a que dedicou os melhores anos, e que lhe dedicou os mais comovidos aplausos e mais exasperadas vaias.

Hanuch (1999)

Na cabeça de cada adepto existe uma pequena utopia sobre a maneira correcta de fazer as coisas e preparar uma época. Idealmente, os defeitos do plantel anterior são atempadamente diagnosticados; decide-se um naipe de “4 ou 5 contratações cirúrgicas” para colmatar essas lacunas e acrescentar real qualidade; preenche-se o resto do plantel dando “oportunidades” a talentos “da formação”; todos os jogadores cruciais chegam antes do regresso aos trabalhos na nova época; tudo corre bem daí para a frente, pois tamanha eficiência preparatória é meio caminho andado para o sucesso.

A época de 1999/00 que culminaria no final de um jejum de 18 anos, começou com a venda do melhor jogador ao Barcelona. Era mais ou menos unânime que o ponto fraco da equipa era o lugar de ponta-de-lança, onde pontuava uma colecção argentina de artrites reumatóides chamada Acosta. Portanto contratou-se um guarda-redes campeão europeu. E um médio espanhol chamado Robaina. E outro médio espanhol chamado Toñito. E por fim espatifou-se quase todo o orçamento da época num extremo argentino chamado Hanuch, “roubado” triunfantemente ao rival. O treinador que fez a pré-época foi despedido em Setembro, e os erros do plantel corrigidos só em Dezembro, com recurso a trocos, a veteranos e promessas adiadas repescadas ao campeonato belga, e a excedentes do Real Madrid B.

Ninguém sabe porque é que as coisas boas acontecem.

Enakarhire (2004)

MIGUEL RIOPA

Num clube que durante largos anos raramente fez negócios lucrativos com jogadores que não viessem da formação, Enakarhire foi uma das mais intrigantes exceções. Chegou da Bélgica com 21 anos, custou um milhão de euros, fez 19 jogos para o campeonato (nunca chegou propriamente a ser titular indiscutível), mais um punhado de exibições imponentes na caminhada até à final da EUFA, e foi vendido por seis milhões ao Dínamo de Moscovo.

Num espaço de dezoito meses, o mesmo clube russo contratou Nuno Espírito Santo, Maniche, Costinha, Derlei, Seitaridis, Frechaut, Danny. Jorge Ribeiro, Luis Loureiro, e mais uns quantos cujo nome só o Google ainda recorda. Enakarhire praticamente nem jogou em Moscovo: passou duas épocas emprestado, e abandonou prematuramente o futebol aos 26 anos (acabaria por regressar aos 30, no campeonato de San Marino).

Terá sido o primeiro vislumbre da deterioração lógica a que foi submetido o mercado de transferências, um prenúncio da entropia que, de acordo com a segunda lei da termodinâmica, vai fazendo com que a entropia de um sistema fechado permaneça a mesma em quantidade, mas decline gradualmente em qualidade – um processo físico cujo culminar será um período não muito distante em que todo o mercado de transferências vai consistir no Wolverhampton a vender o mesmo jogador a si próprio, todos os dias, para sempre.

Ghilas (2013)

No defeso de 2013/14 era preciso um avançado para fazer concorrência a Montero, e a escolha parecia óbvia: um promissor avançado argelino, alto, forte, raçudo, de crânio rapado, que parecia marcar golos de toda a maneira e feitio. Foi uma contratação bem f... não, não, afinal não, o FC Porto chegou-se à frente, pelo que se teve de ir buscar outra pessoa, da mesma nacionalidade, e com morfologia semelhante, mas com menos potencial, sem qualquer experiência no futebol europeu, e pelo embaraçoso preço de 300 mil euros. Paciência, há momentos assim.