Tribuna Expresso

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Rogério Casanova

Coentrão, um homem de coragem que disfarça sintomas de hipotermia, escorbuto, cólera, febre do Nilo, etc (conta Rogério Casanova)

Rogério Casanova acha ainda que Mattheus Oliveira é extremamente parecido com as imagens de Cristo que costumam aparecer nas revistas Sentinela e Despertai! a ilustrar artigos como "O Que Vai Deixar de Existir Quando o Reino de Deus Chegar?", "A Minha Luta Como Soldado de Cristo", e "Compre Este Médio Talentoso Mas Desnecessário Por Apenas 1 Milhão de Euros Mais Portes de Envio"

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Rui Patrício

Lidou horrivelmente com um atraso numa das suas primeiras intervenções, num lance que ia dando golo, mas foi só para testar os nervos dos adeptos que, como se sabe, nesta altura do ano, ainda andam à procura da melhor forma. Acabou por se redimir com uma defesa do outro mundo a um cabeceamento de alguém chamado Carrillo, mostrando uma comovente preocupação em evitar que alguém chamado Carrillo marcasse um golo em Alvalade, preocupação de resto não partilhada por todos os colegas.

Piccini

Teve direito a praxe mais violenta da pré-temporada. Depois de Valbuena, hoje apanhou com Mbappé, que descaiu várias vezes para o seu corredor, mostrando que não deve haver relatório de olheiros feito sobre o Sporting de há dois anos para cá que não aponte, em letras maiúsculas, a fragilidade da equipa a defender lançamentos em profundidade para a faixa direita. Piccini voltou a mostrar que é melhor a fechar por dentro do que a solucionar esse problema de longa data; que é menos rápido do que Schelotto, mas que usa a velocidade com muito mais inteligência; que sabe usar o físico e tem bom tempo de corte; que sobe pouco, cruza menos, e sempre visivelmente contrariado; que é um upgrade, mas não o desejado; que não é um grande lateral-direito (o que daria jeito ao Sporting), nem um desastre (o que daria jeito aos adversários, e possivelmente a esta plataforma digital).

Coates

Um "defesa de corpo inteiro" era algo que eu julgava ser um cliché, até ter visto o seu jogo de hoje. Ultrapassado por Mbappé aos 6', foi ao chão, mas virou-se com agilidade suficiente para interceptar a bola (com a nádega). Substituiu Patrício na linha de golo e fez uma grande defesa aos oito minutos (com o abdómen). Aos 16' foi cabecear a centímetros do poste (com a testa). Cortou uma bola de perigo já na pequena área ainda antes do intervalo (com a barriga da perna). Aos 68', grande intervenção no 1x1 com um avançado do Mónaco que vinha embalado direito a si, desarmando-o (com o pé, para variar).

É um descanso tê-lo por cá (no campo e no coração).

Mathieu

Jogo certinho e sem as aflições que marcaram os jogos na Suíça. Com a bola no pé, enfim... andou três anos a trocar a bola com o Iniesta sem destoar, vamos dar-lhe tempo.

Fábio Coentrão

É um grande jogador ainda a recuperar a melhor forma, portanto vão sendo as pequenas coisas: o transformar de um alívio numa desmarcação, o proteger a bola com o corpo sem qualquer vestígio de nervosismo, a lucidez a encontrar a melhor opção, a capacidade para receber bolas bombeadas a meia-altura e junto a linha, deixando-as jogáveis ao primeiro toque, as acelerações súbitas (e, por enquanto, de poucos metros) para se livrar da pressão dos extremos contrários, e acima de tudo a forma corajosa como conseguiu até agora disfarçar os vários sintomas que apresenta - de hipotermia, escorbuto, cólera, febre do Nilo, etc, - e fingir que não é uma pessoa lesionadíssima.

Battaglia

Vê-lo jogar é uma experiência estranhamente fatigante, em que uma bola perdida no meio-campo é apenas o primeiro capítulo de uma espécie de epopeia. Carrinhos, desarmes, faltas, arranques, carros a capotar, alguém a fazer rapel pela Torre Eiffel abaixo, outra pessoa a escapar por um triz a uma avalanche, um edifício a explodir, uma bomba em contagem decrescente, etc. É como assistir ao trailer de um filme de acção, onde cortaram todas as partes chatas é tudo condensado a dois minutos de efeitos especiais impressionantes e diálogo não muito bem escrito. Nunca vai (nem ele nem ninguém, em boa verdade) dar à equipa o que William dá em posse. Mas tem uma disponibilidade física fora do vulgar, e o tipo de agressividade que obriga constantemente o adversário a mudar de ideias. Pode ser que vá mudando as nossas também.

Gelson Martins

Scouting report by H. P. Lovecraft:

Vastly overrated attacking midfielder, whose eldritch proclivities when in possession of the hallowed sphere should make any sensitive scouting soul this side of Massachussets shudder in unnamable horror. Occasional ghoulish glimpses of a freakish abominable talent can be seen as they bubble up putrescently under the gibbous stadium floodlights, but his vile, batrachian movements offer no beauty and no freedom to the discerning eye of someone not bewitched by the horrid reputation of Alcochete's infested swamps.

Beware, o Greats of Manchester and Spain, perusing the dark horizons for the next shining star: all you will ever find here is gibbering hideousness and squamous perversity twitching and slithering in the endless night!

#Gelson #scouting #flops

Bruno Fernandes

Ao minuto 10, com todas as linhas de passe cortadas, teve calma e confiança suficientes para resguardar a posse de bola em zonas tradicionalmente proibidas até sofrer falta. Dois minutos depois, Battaglia efectuou um remate à queima contra os seus tornozelos, a meio metro de distância; Bruno Fernandes conseguiu, não me perguntem como, transformar o lance numa tabelinha. Marcou o golo do 1-0, aparecendo de repente em zona de finalização. Perto do intervalo, é ele quem vai ganhar o espaço a Sidibé na faixa esquerda, depois de este ter ultrapassado Acuña e Coentrão. Ao minuto 50, fez exactamente o mesmo na faixa direita, dobrando Gelson e Piccini. E foi ele, inclusive, quem veio escrever metade deste parágrafo, porque eu estou muito cansado.

Marcos Acuña

Deve ter decorado com afinco meia dúzia de instruções tácticas específicas, pois procurou insistentemente desmarcações interiores nos primeiros minutos, e mostrou sempre um cuidado patológico em ajudar o lateral do seu lado - mostrando ainda algum desacerto posicional, que compensou com tenacidade e uma surpreendente capacidade de desarme. Quanto à qualidade (já conhecida e anunciada) a bater livres e cantos, deu exemplos suficientes para comover um público que não via um novo reforço tão competente nas bolas paradas desde Didier Lang - comparação pela qual peço desde já imensa desculpa a todos os envolvidos.

Podence

Se Podence fosse um animal não seria propriamente daqueles que inspiram medo, como os predadores de grande porte, mas sim um daqueles que provocam irritação, como a melga. Estamos descansadinhos no sofá, ouvimos o zumbido de uma coisa diminuta a passar e quando damos por isso temos uma probóscide enfiada na pele, e um insecto a gargarejar o nosso sangue. Embora, enfim, neste caso não literalmente.

Melhor momento do jogo: o livre directo que ganhou ao minuto 56 depois de fazer um túnel a si próprio.

Bas Dost

Quem é que remata de cabeça ao ângulo, com aquela força, e àquela distância, quando a bola vem a fazer a curva ao contrário e não particularmente tensa? Mas quem é que este gajo julga que é?

Jonathan

Exibe, na minha maneira de ver as coisas, duas sobrancelhas excessivamente depiladas para o seu estilo de jogo.

William

O Sol brilhou, as nuvens escangalharam-se em hemorragias de luz, dos céus ouviu-se o som de trombetas, montanhas afastaram-se amavelmente da frente, vales abriram-se de livre e espontânea vontade, o horizonte recheou-se de portentos. Foi, por outras palavras, mais uma tarde de Sábado na vida de William Carvalho.

Adrien

Mas isto agora dos livres directos veio de onde e porquê?

Alan Ruiz

Qualquer ordem constitucional só é verdadeiramente democrática quando tolera e promove o acesso das oposições ao poder como resposta espontânea ao desgaste e descrédito dos titulares governativos, como diz o povo.

Doumbia

"A girar e a girar, em círculos cada vez mais amplos, o falcão já não ouve o falcoeiro", como explicou Yeats em "The Second Coming", o seu célebre poema sobre a armadilha do fora-de-jogo.

Iuri Medeiros

Pouco depois de entrar e pouco antes de sair, conseguiu fazer um movimento interior, uma boa recepção, um passe de primeira, uma perda de bola e uma falta sofrida em zona perigosa, tudo na mesma jogada. Não é bem o mesmo tipo de "polivalência" de Bruno César, mas não deixou de ser impressionante.

Tobias Figueiredo

Tem de melhorar a sua estratégia de comunicação.

Mattheus Oliveira

Há algo de bidimensional na sua presença - em campo, no estágio, no plantel - como se não fosse resultado de carne, osso e cartilagem, mas de um efeito tromp l'oeil. Uma coisa no entanto ninguém pode negar: Mattheus Oliveira é extremamente parecido com as imagens de Cristo que costumam aparecer nas revistas Sentinela e Despertai! a ilustrar artigos como "O Que Vai Deixar de Existir Quando o Reino de Deus Chegar?", "A Minha Luta Como Soldado de Cristo", e "Compre Este Médio Talentoso Mas Desnecessário Por Apenas 1 Milhão de Euros Mais Portes de Envio"

Francisco de Oliveira Geraldes

Fez uma pausa no preenchimento da papelada necessária para pedir asilo político no Império Austro-Húngaro e veio ao campo fazer três passes bons e um mau.

Beto

Fez uma única defesa e sofreu um golo em que nada podia fazer: a média de Rui Patrício numa boa mão-cheia de jogos da época transacta.