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Rogério Casanova

Rogério Casanova supõe que se o Steaua se tivesse apresentado em Alvalade com apenas Alibec a jogar o resultado seria exatamente o mesmo

Para Rogério Casanova, o pior em campo do Sporting-Steaua de Bucareste foi... o "Último Terço da Zona Central do Relvado na Direcção Para a Qual o Sporting Atacou"

Rogério Casanova

FRANCISCO LEONG

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Rui Patrício

Tendo em conta tudo o que se passou no jogo de hoje, é legítimo supor que o Steaua se podia ter apresentado em campo apenas com um jogador - Alibec - e o resultado seria exactamente igual, tal como igual seria a exibição de Rui Patrício, que não era tratado com tamanho desrespeito (remates antes da linha de meio campo?) desde os tempos em que ainda não era campeão europeu, nem tinha uma estátua.

Piccini

Demorou algum tempo a encontrar a sua forma, mas hoje lá arrancou finalmente para uma exibição à altura da desconfiança imediata e consensual que provocou, ainda a tinta no contrato estava susceptível a borrões. E borrões foi coisa que não faltou hoje, em parte porque o seu principal mecanismo de defesa - o perceptível e extremamente compreensível medo que tinha fazer cruzamentos - se desvaneceu. Ao ver toda a gente à sua volta a ensaiar cruzamentos inofensivos, decidiu juntar-se à festa, aproveitando também para esclarecer que além de ter perdido o medo de cruzar, também perdeu o medo de rematar, e perdeu o medo de fazer passes arriscados em zonas recuadas. Dava imenso jeito que começasse a ganhar medo de perder mais medos.

Coates

Perante a inoperância criativa do meio-campo, sentiram-se saudades das suas cavalgadas pontuais, mas à excepção de um ou outro lance em que foi à faixa direita explicar a Piccini como se finta uma pessoa com uma camisola diferente da nossa, teve um jogo recatado. Ou possivelmente deprimido.

Matthieu

Invariavelmente atento a defender (ainda foi obrigado a isso umas 4 ou 5 vezes), mostrou-se muito mais útil a descongestionar situações de barafunda recuada, com aquele instinto Barcelónico para encontrar sempre o colega livre, esteja ele à distância que estiver. Hoje os seus esforços foram tão inglórios como se tivesse feito os passes directamente para a Catalunha, mas a culpa não é dele. Tal como no jogo anterior, pareceu a pessoa mais lúcida e pujante dentro de campo nos últimos minutos de desespero.

A cara de total incompreensão que fez ao minuto 67, durante os breves segundos em que julgou que ia ser substituído (houve uma falha na placa electrónica) é uma cara que se costuma ver muito em Alvalade, mas normalmente nas bancadas.

Coentrão

Uma das exibições mais surpreendentes de um jogador não-convocado na história do clube.

Foi perdendo gás ao longo da segunda parte, o que na sua pessoa se costuma manifestar como uma perda de capacidade para evitar que a bola lhe deslize na sola da chuteira. A dez minutos do fim, e já com a certidão de óbito praticamente assinada pelos comentadores, ainda conseguiu participar na melhor tabelinha do jogo inteiro (com Doumbia), ganhar uma falta perigosa, e expulsar um adversário, depois de uma improvável recuperação de bola. Que tenha produzido tanto quando já mal se conseguia mexer diz bem dele. Não dirá é bem dos colegas.

Battaglia

Começou bem, em modo-locomotiva, acumulando três recuperações de bola nos três primeiros minutos, e aparecendo a ganhar cantos em situações de pressão. E conseguiu ainda lesionar o melhor jogador romeno sem sequer lhe tocar. Quanto ao resto, na verdade é uma situação muito simples: se a bola tem que chegar a sítios, Battaglia pode perfeitamente fazê-la lá chegar, desde que a leve. Não pode éenviá-la. Desde que este paradigma pré-digital de circulação de bens e serviços seja assimilado por ele e pelos colegas, não vai haver problemas.

Gelson

Sabem aqueles pesadelos em que estamos perdidos numa estação de metro, não conseguimos encontrar a plataforma, aparecem-nos sucessivos torniquetes para ultrapassar, o cartão Viva Viagem quase nunca funciona, não se vê um único funcionário para nos esclarecer, e temos de saltar os torniquetes, e às tantas cansamo-nos? E estamos de cuecas? O jogo de Gelson foi assim, tirando a parte das cuecas.

Adrien

Continua a tentar fazer de trinco na área do trinco da equipa adversária, e a fazer faltas na pequena lua para evitar contra-ataques, algo que hoje (a avaliar pelas peripécias do Steaua no ataque) se calhar não era preciso. De resto, sem William, parece... O que é que parece, exactamente? Marx sem o dinheiro de Engels? Raymond Carver sem as sugestões de Gordon Lish?

Será má forma física, será má forma táctica, ou será simplesmente Weltschmerz, a palavra convenientemente inventada por um escritor romântico alemão para definir a apatia provocada pela comparação do estado real do mundo com um estado idealizado.

Último Terço da Zona Central do Relvado na Direcção Para a Qual o Sporting Atacou

Exibição ingrata e tacticamente muito isolada desta pobre parcela do terreno de jogo, que morreu de tristeza e solidão durante a partida sem receber assistência médica, e sem que ninguém desse conta.

Acuña

Porque em jogos como o de hoje, em momentos como o actual, em clubes como este (e etc), é tentador criticar os mais fáceis de criticar (os maus, ou os assim-assim) e deixar em paz quem provavelmente é mesmo bom (que é o caso de Acuña), convém salientar que fez um jogo fraquíssimo. Falhou vários passes fáceis quando derivou para o meio, raramente conseguiu dar sequência a projectos de combinações, e mesmo o aproveitamento nas bolas paradas, tendo em conta a quantidade, foi escasso em qualidade. Acabou o jogo a defesa-esquerdo, algo que tenderá a acontecer mais vezes, sempre que jogar como Rodrigo Tello e não como o Acuña que apareceu contra o Mónaco e nos vídeos do YouTube

Podence

Começou interventivo no seu estilo enérgico e de piruetas constantes. Aos 6 minutos tirou um adversário da frente e rematou, com uma comovente fé na possibilidade de um dia conseguir marcar um golo de fora da área. Aos 23 inventou uma grande abertura para Acuña, cujo remate cruzado ainda rasou o poste. A partir daí pouco mais. O seu maior atributo é a capacidade para acelerar o jogo, mas, por ineficiência própria ou dos colegas, recebeu quase sempre a bola em situações que o obrigavam a fazer exactamente o contrário.

Bas Dost

Reza a lenda que Ésquilo morreu numa visita à Sicília, 456AC, quando uma ave de rapina confundiu a sua careca com um rochedo propício para rachar a carapaça de uma tartaruga e lhe acertou em cheio na tola com a dita cuja. O mais impressionante nesta história, apócrifa ou não, é a precisão da ave de rapina, que a uma distância de várias centenas de metros, conseguiu acertar com uma forma vagamente esférica na cabeça de uma pessoa. Não é tão fácil como parece, como Bas Dost pode atestar. E no entanto, mais fácil ainda deveria ser acertar uma devolução de bola a alguém situado a dois metros de si, ou conseguir ligar o jogo uma vez que fosse com os colegas. Não é tão fácil como parece, como os companheiros de equipa de Bas Dost podem atestar.

Doumbia

Heróico esforço de contenção ao minuto 69, quando não desfez as trombas a um romeno que impediu o seu sprint de iniciar um contra-ataque. Heróico também o esforço intelectual que deve fazer para compreender a sua não-titularidade nesta altura.

Bruno Fernandes e Iuri Medeiros

Não se ouviram trombetas à sua entrada, não se rasgaram os céus, não se alterou o marcador. Mas de repente começaram a aparecer médios em zonas de finalização, começou a rematar-se à baliza, começou a fintar-se para dentro, começaram a tentar-se ideias novas, e já não se acenderam, inclusive, tantos cigarros.