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Rogério Casanova

Rogério Casanova dá nota máxima ao VAR pela capacidade para criar dois momentos Alkmaar no espaço emocional normalmente reservado a bocejar

Ou a pensar onde é que se estacionou o carro. Rogério Casanova ia tendo uma síncope cardíaca no final do jogo do Sporting com o Estoril, mas antes disso ainda teve tempo para apreciar as chuteiras EXTREMAMENTE COR-DE-ROSA de Fábio Coentrão e uma recuperação de bola de Bruno Fernandes que foi, ao mesmo tempo, uma finta

Rogério Casanova

António Cotrim/LUSA

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Rui Patrício

Tocou na bola com as mãos pela primeira vez mais cedo do que o costume (logo aos 3 minutos). Por outro lado, o tradicional golo em que não teve quaisquer culpas surgiu na altura habitual: demasiado perto do fim para não parecer um presságio bíblico, acompanhado por cascatas de sangue e pragas de gafanhotos. Fora isso, um jogo descansadíssimo, em que a intervenção mais decisiva aconteceu a meio da primeira parte, quando saiu apressadamente da área para pontapear a bola na direcção da bancada. O que na altura pareceu um gesto democrático - permitindo ao público recrear-se também com o esférico - pode ser retroactivamente interpretado como uma profecia: tirem-me a bola do campo, o jogo está resolvido, nada de bom pode surgir daqui para a frente.

Piccini

O seu pior erro defensivo aconteceu discretamente ao minuto 23, quando se deixou antecipar num pontapé de canto e viu um jogador do Estoril falhar o cabeceamento decisivo. O alívio que acabou por se transformar numa assistência para o golaço de Evangelista não se pode sequer considerar um erro, pois é o tipo de coisas que aconteceria até ao Baresi caso ele jogasse no Sporting. De resto fez um jogo bastante razoável, e continua a mostrar uma condição física impressionante: um sprint de vinte metros em recuperação defensiva ao minuto 79 surpreendeu o próprio Coates, que vinha a correr para o dobrar, mas acabou por chegar depois dele.

Coates

Conseguiu jogar melhor do que na Roménia, proeza que estaria ao seu alcance mesmo se tivesse entrado em campo com os olhos vendados e numa cadeira de rodas. Na primeira parte e em quase toda a segunda, foi mais trinco do que central, acumulando cortes e intercepções, recorrendo ao seu expediente habitual de se posicionar entre a bola e o sítio para onde a bola tencionava deslocar-se, como o torniquete mais bem penteado do mundo.

Mathieu

Muitos defesas centrais jogam "de cabeça levantada", o que é boa ideia para toda a gente, até porque jogar de cabeça levantada é uma das formas mais seguras de evitar chegar ao fim do jogo a ter de levantar a cabeça. Quando observada em defesas centrais, a característica costuma ser prontamente aplicada à sua categorização enquanto defesas centrais: tornam-se "defesas centrais que jogam de cabeça levantada". Mas há muitas maneiras de jogar de cabeça levantada. Alguns centrais jogam de cabeça levantada porque não querem que aconteçam coisas más. Mathieu joga de cabeça levantada porque quer que aconteçam coisas más: ao adversário. E depressa. Já a seguir, de preferência. Esteve impecável a defender, mas a mais-valia que representa nota-se mesmo é quando a equipa ataca.

Fábio Coentrão

Mais discreto e resguardado nas peripécias atacantes do que nos jogos anteriores, não saíram grandes ocasiões de perigo das suas chuteiras EXTREMAMENTE COR-DE-ROSA. Esteve, no entanto, sempre presente para travar qualquer iniciativa do Estoril, bloqueando as trajectórias de inúmeros passes e cruzamentos com uma das suas chuteiras EXTREMAMENTE COR-DE-ROSA.

Battaglia

Não lhe podem pedir para "pensar" o jogo, porque Battaglia não é um pensador. O que ele é, bem vistas as coisas, é um catalogador, ou arquivista: anda por ali com paciência de santo a compilar as boas ideias do adversário e a arrumá-las todas numa cave escura, junto de outros resíduos tóxicos. Não se pode depender dele para mostrar o que deve ser feito; mas estará sempre lá para enumerar o que quase aconteceu, mas acabou por ser cancelado, temos pena (se necessário à bofetada). Com a entrada de Petrovic, avançou uns metros, alargou o raio de acção, e teve um par de boas investidas ofensivas, fortalecido pela confiança de quem pode aplicar o seu estilo muito peculiar de 1x1 (que consiste menos em fintas do que em micro-acelerações agressivas) sem a preocupação de perder a bola - como lhe aconteceu uma ou duas vezes hoje, em zonas proibidas.

Gelson Martins

Ao minuto 55 ganhou um canto. Quinze segundos mais tarde, chegou no momento certo, e antes de toda a gente, ao meio círculo, para cortar o contra-ataque do Estoril resultante desse mesmo canto. Foi um índice da sua exibição: tal como todas as pessoas obsessivamente pontuais, parece quase omnipresente, mas é muitas vezes obrigado a esperar pelos que não são pontuais. Com o tempo, tem aprendido a ganhar tempo, e a fazer tempo, artes que domina cada vez melhor.

Bruno Fernandes

Tem sido comovente este seu esforço para nos mostrar um truquezinho novo de cada vez, insinuando-se às prestações no nosso peito, ao invés de despejar o reportório todo à primeira oportunidade. Hoje, além de mostrar que os livres directos podem ter outro destino que não as barreiras ou Telheiras, também acumulou um número impressionante de recuperações de bola, uma das quais através de uma finta. Exacto: Bruno Fernandes fez uma recuperação de bola fintando o adversário que a tinha. Não sei explicar o incidente melhor do que isto, portanto remeto-vos para o minuto 43.

Acuña

Versão 1: Atravessa um péssimo momento de forma, como demonstrou logo numa das suas primeiras intervenções na partida: recebeu um passe de Coentrão com um mau primeiro toque, adiantou demasiado a bola, e depois tentou cruzar para Dost - mas mais uma vez o toque foi demasiado pesado e a bola só parou nos pés surpreendidos de Gelson. Enfim, um desperdício.

Versão 2: Continua a não parecer um perito em inventar espaços vazios sozinho; mas sabe como poucos descobrir os espaços vazios que já existem, mesmo quando não são óbvios para mais ninguém. Pode não ser um atributo tão impressionante para o espectador como a capacidade para ser consistentemente implacável no 1x1 - mas o certo é que já lá vão quatro assistências, um golo, várias oportunidades criadas, e um defesa-esquerdo que pode quase sempre sentir-se protegido.

Alan Ruiz

Em comparação com o início da época passada está inquestionavelmente mais magro. E mais baixo. E mais lento. E mais transparente. Deve ter sido uma dieta radical, daquelas que elimina não apenas os lípidos e hidratos de carbono, mas também as proteínas, vitaminas, oxigénio e água potável.

Conseguiu ganhar faltas com o seu truque mais fiável: transportar a bola em zonas vagamente ameaçadoras com tamanha lentidão que alguém acaba por derrubá-lo em falta, num acesso de frustração (normalmente um adversário, mas um dia destes pode bem ser um colega, o treinador, ou até um espectador). Uma dessas faltas deu o 2-0. E teve alguns outros bons momentos, a isolar Piccini na área, ou a combinar ao primeiro toque com Fernandes e Acuña. Terá sempre bons momentos, pois é bom jogador. Mas continua a mover-se com aquele jeito de desorganização física, como se os membros inferiores falassem um dialecto diferente do seu sistema nervoso central. E a mostrar a mesma incapacidade em girar sobre o próprio eixo a uma velocidade plausível. Se fosse um corpo celeste, um dia de Alan Ruiz duraria seiscentas horas. Até pode brilhar imenso, ao fim desse longo ciclo, mas é provável que os astrónomos já tenham todos adormecido ao telescópio.

Bas Dost

Foi um daqueles dias. Foi tanto um daqueles dias, aliás, que a dada altura (pouco depois do início da segunda parte) começou a aplaudir entusiasticamente boas ideias dos colegas - no caso, um cruzamento demasiado curto de Alan Ruiz - em vez de, como costuma fazer, aplaudir entusiasticamente apenas as boas ideias que são bem sucedidas. Ninguém fica satisfeito com medalhas de participação, portanto é esperar que depressa voltem oportunidades para distribuir abraços a sério.

Bruno César

Meia-hora de razoável competência a lateral-esquerdo, que incluiu fôlego e optimismo suficientes para várias investidas lá na frente, uma das quais foi quase uma réplica do lance de Acuña no 1-0, mas que Gelson desta vez não concretizou.

Petrovic

Entrou bem, e mostrou um conforto no transporte de bola que nem sempre se lhe viu no passado. Ao minuto 88 (ainda antes do delírio que foram os minutos finais) safou um contra-ataque perigoso do Estoril com bom posicionamento, um bom desarme e, suspeita-se, alguma sorte à mistura. E nunca são demais, os jogadores com sorte. São sempre bem vindos.

Iuri Medeiros

Sei que jogou os últimos minutos, mas confesso que na altura, a braços com uma tentativa de assassinato por parte das incidências do jogo, não prestei muita atenção.

VAR

Nota máxima pela capacidade para criar dois momentos Alkmaar no espaço emocional normalmente reservado a bocejar e a pensar onde se estacionou o automóvel.