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Rogério Casanova

Rogério Casanova está ligeiramente surpreendido. Afinal, há ligas que aceitam que instituições paguem €6 milhões por Zeegelaar e Schelotto

Este é, diz Rogério Casanova, "Uma viagem ao fim da noite", daquela noite em que os adeptos roem as unhas com dignidade à espera que o monitor se atualize a cada tecla F5 premida

Rogério Casanova

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Segundos antes de a bomba-relógio chegar ao zero, o actor principal do filme começa a transpirar e a fazer piadas nervosas. O milénio aproxima-se e pessoas compram oitocentas latas de atum por causa de um vírus informático. Um ano antes de o calendário Maia decretar o apocalipse, trinta e três mil sócios do Sporting votam em Godinho Lopes. Há uma propensão humana para comportamentos bizarros nas contagens decrescentes para datas arbitrárias.

O historiador Norman Cohn descreve fenómenos - e excessos - semelhantes em The Pursuit of the Millennium, o seu livro sobre cultos milenares na Europa medieval: as descargas de irracionalidade; a auto-flagelação colectiva; a iludida exaltação de charlatães; e a receptividade em larga escala a óbvias falsidades, desde que transportem uma narrativa de redenção. Era um lugar atarefado, a Europa medieval que Cohn descreve, repleta de falsos profetas e messias acidentais, pseudo-Fredericks e pseudo-Balduínos, onde a lotaria estava ao alcance de qualquer um, desde que fosse suficientemente desgrenhado, amnésico, e tivesse a sorte de chegar na hora certa ao rumor certo. Foi a Era Dourada do mito dos Imperadores Adormecidos (de onde também veio o nosso Sebastianismo). Um vagabundo podia sair a cambalear da floresta com uma ressaca monumental e ser prontamente aclamado Conde da Flandres e Imperador de Constantinopla.

Milhares de camponeses atropelavam-se para lhe beijar as cicatrizes ou acariciar as barbas; formavam filas ordeiras para beber a água da banheira onde se lavara. Tudo o que exigiam em troca era que evitasse o Apocalipse, lhes trouxesse uma vida melhor, e garantisse bons cruzamentos e consistência defensiva no flanco direito.

Foram estes pensamentos que me ocuparam uma fracção diminuta da cabeça na noite de 31 de Agosto, mais precisamente às 22h52, enquanto dilacerava a tecla F5 com a unha do indicador esquerdo que deixei crescer durante três semanas, de propósito para a ocasião. Às 22h55, depois de preparar uma sexta chávena de café e abrir um sétimo separador no browser, pensei também, com um sorriso tolerante e tremendamente racional, no quão pitoresca é a rotina de um adepto de futebol: o carinho com que memorizamos o endereço online da CMVM; a facilidade com que dominamos vocábulos como "Transferência" ou "Confirmado" em línguas que não as nossas; a dignidade com que roemos as unhas ou, em caso de extrema necessidade, as falanges distais. Nem mesmo às 22h58, quando coloquei entre os lábios gretados um isqueiro que tentei posteriormente acender com o cigarro que tinha na mão, me ocorreu a possibilidade de existirem melhores maneiras de viver.

Foi também por volta dessa altura que o rumor sobre o regresso de Slimani faleceu. Foi, no entanto, uma carreira fulgurante. Tendo saído da floresta pouco antes das oito da noite, deslumbrou tudo e todos com a sua plausibilidade, antes de morrer prematuramente às onze e meia, ceifado na flor da juventude. Não é difícil imaginar alguns excertos do seu trágico obituário, da sua traumatizada hagiografia. Hic iacet. Uma figura incontornável entre os rumores contemporâneos. Um rumor que deixa saudades a todos os que. À família enlutada do rumor endereçamos os. Requiescat in pace. O mundo dos rumores ficou mais pobre.

Resta saber se o plantel também ficou mais pobre, mas essa é a pergunta mais inútil nestas circunstâncias. Precisávamos mesmo de outro avançado? Mais valia perguntar a um camponês medieval se precisava mesmo de outro Conde da Flandres. A maioria das decisões tomadas no futebol têm menos a ver com o Moneyball do que com uma tragédia de Eurípides. O vocabulário interior não é o de um contabilista a analisar custo e benefício, mas de um membro da Máfia siciliana a decidir se foi ou não desrespeitado. Não se calculam prós e contras, vantagens e desvantagens, argumentos e conta-argumentos; lida-se com superstição e estados febris, e o que se pesa internamente é vergonha, vingança, dignidade ou domínio. Caso estejamos descontentes, procuramos motivos para exacerbar o descontentamento e transformá-lo em humilhação.

Caso estejamos optimistas, procuramos motivos para transformar esse optimismo na humilhação de terceiros. Um plantel equilibrado é, por várias ordens de magnitude, menos importante do que o facto de alguém, algures, ter feito um negócio ridículo, ou ridiculamente recusado um bom negócio. (Poucas coisas são mais ridículas do que um adepto de futebol a esforçar-se para convencer outros que acha ridículo o que na verdade acha apenas irritante; e no entanto todos tentamos esse truque, numa ou outra ocasião).

No caso específico de Adrien, as qualidades que tornavam a sua transferência por 30 milhões um mau negócio há doze meses atrás perderam-se há doze meses atrás. O dinheiro era insuficiente para colmatar o que o Sporting perdia - mas parte do que se ia perder (a parte mais difícil de nomear) perdeu-se com a sua reiterada vontade de sair. O que sobra é um médio acima da média que, quando em boa forma, possui a capacidade de dominar um meio-campo durante jornadas a fio. 25 milhões talvez comprassem um médio de características semelhantes no futebol de hoje (desde que não seja inglês: nesse caso nem 50), pelo que o Sporting talvez tenha feito um negócio ligeiramente melhor do que o Leicester. Ambos, ainda assim, estão a salvo do ridículo. Quanto ao resto, é possível que falte qualquer coisa, pois falta sempre qualquer coisa.

A questão dos excedentários foi mais ou menos bem resolvida, aproveitando, por exemplo, o facto de a lei inglesa permitir que instituições locais entreguem a instituições estrangeiras seis milhões de euros em troca de Zeegelaar e Schelotto sem arriscarem qualquer punição judicial. Só uma sequóia holandesa permanece firme no seu canteiro, e até às 23h59 ainda alimentei esperanças de ver uma entrevista polémica do pai do Sporting, a queixar-se da forma como Douglas estava a cortar as asas ao seu filho, o clube, impedindo-o de ser feliz. Cá estaremos a 31 de Janeiro, atentos à floresta, dispostos a acreditar em tudo novamente.