Tribuna Expresso

Perfil

Rogério Casanova

Rogério Casanova acredita que se William Carvalho fosse chef prepararia bonsais de bróculos e origamis de ostras para os amigos

Isto porque num jogo em que não verteu uma gota de transpiração, o capitão do Sporting passou o encontro a fazer experiências não gastronómicas mas sim futebolísticas tais como fazer passes em corte de carrinho, roubar a bola a um adversário desviando-o do caminho com um sopro ou ainda uma recuperação com o calcanhar, pelo meio das pernas, depois de tropeçar

Rogério Casanova

Carlos Rodrigues/Getty

Partilhar

Rui Patrício

Não sei se repararam que logo ao oitavo minuto, fez um passe por alto para Piccini que levou a bola a flutuar aproximadamente 50 metros por cima da cabeça do colega. Meia-hora depois tentou fazer-lhe um passe rasteiro, tendo a bola saído pela linha lateral, aproximadamente a 10 metro do sítio onde estava Piccini. E na segunda parte lá continuou a mandar a bola pela linha lateral várias vezes. Repetiu o procedimento com tamanha convicção que a única hipótese razoável é que se trata de um obscuro ritual maçónico. De certeza que à mesma hora, em lojas de todo o mundo, milhares de irmãos vestidos de avental atiravam formas esféricas pela janela.

Piccini

Os três milhões de euros que custou são um pilar de estabilidade no mundo volátil das coisas que custam três milhões de euros. Já tentaram comprar alguma coisa por três milhões de euros? Tentem comprar qualquer coisa por três milhões de euros: é quase impossível os três milhões de euros ficarem quietos. Mais tarde ou mais cedo, aquilo que custou três milhões de euros vai valer dois milhões e meio, ou quatro milhões, ou sete, ou quinze, ou quatrocentos mil euros, ou zero. Piccini continua a valer três milhões de euros e vai continuar a valer três milhões de euros até abandonar a carreira, altura em que vai ser incluído na 28ª edição do Nordhaus e Samuelson, e revolucionar toda a teoria económica. Bom jogo.

Coates

Ao minuto 22 já com o resultado em 0-2, teve uma estranha sensação de déja vu: percebeu que o corredor central do Olympiacos era essencialmente uma réplica do corredor central do Sporting nos momentos mais suaves da última época: uma tranquila zona pedonal. Portanto avançou por ali fora cheio de vontade de, também ele, falhar um golo isolado frente ao guarda-redes, tarefa na qual foi bem sucedido. Viria ainda a fazer um passe perfeito para o golo de Bruno Fernandes e dois cortes cruciais na segunda parte que impediram o pesadelo de começar mais cedo.

Mathieu

Aconteça o que acontecer durante o resto da época e do seu percurso no clube, saberei sempre isolar o momento exacto em que decidi casar-me e ter filhos com Jeremy Mathieu: ao minuto 50 do jogo de hoje, num momento de pressão alta do adversário, recebeu um passe à queima de Patrício efectuado mais ou menos para o seu estômago, com um jogador do Olympiacos a correr feito louco na sua direcção e outro a aproximar-se pelas costas. Dois toques e três segundos mais tarde, a bola estava em segurança, nos pés de um colega, a vinte metros daquela zona. Tem feito isto quatro ou cinco vezes por jogo, e é nesta altura a coisa mais parecida que a equipa tem com um comprimido para os nervos.

Jonathan Franzen

Claramente não consegue sozinho dar resposta a todas as exigências de uma tarefa tão complexa. Há muitas pessoas em campo, e metade delas não procuram defender os seus melhores interesses. Porque não um lateral-esquerdo-assistente para o auxiliar? Ou um vídeo-lateral-esquerdo que possa validar as suas decisões? É certo que tornará o jogo mais lento, mas se a tecnologia existe é uma pena não a utilizarmos, deixando assim um rapaz esforçado cruelmente entregue os seus próprios erros.

William Carvalho

A facilidade com que conseguiu mandar naquilo tudo sem sequer ser preciso verter uma gota de transpiração tornou o jogo aborrecido para si logo nos minutos iniciais. Como um chef de elite que renuncia aos restaurantes e passa o resto da vida a preparar bonsais de bróculos e origamis de ostras para os amigos, William passou o resto do jogo a fazer experiências. Fazer um passe em corte de carrinho? Ora essa, minuto 44. Roubar a bola a um adversário desviando-o do caminho com um sopro? Com certeza, minuto 45. Fazer uma recuperação com o calcanhar, pelo meio das pernas, depois de tropeçar? Minuto 53. Roubar a bola a Battaglia no segundo exacto antes de ele fazer um passe disparatado? Minuto 55. Hoje era daqueles dias em que podia ter jogado com uma venda nos olhos.

Gelson Martins

Depois de uma época em que quase nunca conseguiu participar em contra-ataques por falta de companhia, hoje apanhou a companhia perfeita no outro lado do campo. Na ausência de Schelotto, o único que chegava aos sítios à mesma hora, e com quem sentia uma obrigação ética de tentar tabelar, bastou-lhe furar por ali fora sozinho e marcar um golo. E ainda teve tempo, numa comovente homenagem a outro ex-colega, hoje em Itália, para falhar outro.

Battaglia

Percebeu cedo que discordâncias filosóficas insanáveis o separavam dos jogadores adversários. Por conseguinte, e numa tentativa de reconciliar escolas de pensamento opostas, pregou uma cacetada nos joelhos de Marin, que é como se assinala uma diferença de opinião entre pessoas civilizadas. Obstinadamente agarrados aos seus sofismas, às suas falácias, os jogadores do Olympiacos insistiram em tentar passear com a bola ao seu lado, acções que pouco avançam a causa do conhecimento, e que obrigaram Battaglia a esclarecê-los sucessivamente sobre a verdade dos factos.

Acuña

Sofreu a falta na origem do golo inaugural e contabilizou mais uma assistência. De resto, esteve muito, muito bem sem bola; e entre o razoável e o fraco com bola. Deixou-se, um número quase indesculpável de vezes, antecipar por pessoas que se aproximaram sorrateiramente pelas suas costas. Pode ser uma questão de frescura física, ou falta de experiência a jogar à apanhada na infância, embora a primeira opção seja mais plausível, pois é algo que ele próprio costuma fazer aos adversários.

Bruno Fernandes

Estreou-se hoje a marcar golos normais. O momento tinha de chegar, mais tarde ou mais cedo, e Bruno Fernandes estava com certeza psicologicamente preparado. Habituado a enfrentar cenários adversos, não irá naturalmente baixar a cabeça, tal como não o fizeram Ibrahimovic e Messi que, quando se estrearam a marcar golos normais, marcaram golos muitíssimo mais normais do que este.

Doumbia

É um homem simples, mas sério, e está ali para trabalhar. Metam-no a titular e, pronto, ele marca um golo. Metam-no numa carpintaria e pronto, ele faz uma mesa. Depois dedicou-se a servir outros colegas para que eles próprios fizessem o seu trabalho. Foi substituído na segunda parte, foi tomar o seu banhinho, comer uma canjinha, e repousar antes de uma viagem longa.

Bas Dost

Em perfeita sintonia com o espírito e objectivos da equipa, tratou de rematar uma bola contra a barriga do guarda-redes e outra à barra, tal como praticamente toda a gente fez hoje.

Bruno César

Cumpriu, ao seu nível habitual, as instruções que recebera para entrar em campo e ser o futebolista mais razoável do mundo.

Ristovski

Uma boa estreia, permitindo a todas as pessoas responsáveis por escrever o seu nome no futuro uma oportunidade para memorizarem a correcta sequência de caracteres.

Partilhar