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Rogério Casanova

O mistério de alguém que tem no nome uma tentativa de batota no Scrabble

Rogério Casanova também quis ressalvar como já cá mora um macedónio que custou um valor desajustado ao que mostrou jogar. E que "Doumbia joga como se não soubesse sequer em que década estamos"

Rogério Casanova

FRANCISCO LEONG/Getty

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Salin

A mais vívida memória que tinha de Salin em Alvalade remonta a Setembro de 2013, quando visitou o estádio ao serviço do Rio Ave e, a meio da primeira parte, teve uma saída disparatada que acabou com uma assistência involuntária para Wilson Eduardo inaugurar o marcador (num jogo que acabaria empatado). Muita coisa mudou desde então: Wilson Eduardo deixou de marcar golos pelo Sporting e passou a marcar golos quase exclusivamente contra o Sporting; o irmão de Wilson Eduardo começou a fazer praticamente tudo o que se pode fazer num estádio excepto marcar golos, e o pai de Wilson Eduardo e do irmão de Wilson Eduardo destacou-se na arte de conceder entrevistas bombásticas. Inalterável manteve-se apenas a tendência de Salin para fazer assistências involuntárias para adversários a meio das primeiras partes, em jogos que terminam empatados. Tirando esse pequeno solecismo, até esteve bem no pouquíssimo trabalho que teve.

Ristovski

Pode parecer pouca coisa, mas a Macedónia detinha, na Antiguidade Clássica, uma invejável reputação enquanto líder na tecnologia de cercos militares. Para o Cerco de Rodes, por exemplo, o Rei Demétrio I encomendou de propósito uma torre com catapulta de quarenta metros de altura, oito rodas gigantescas e operada por milhares de soldados, capaz de espatifar a mais bonita arquitectura. Ristovski, de acordo com a internet, mede apenas um metro e oitenta, e não tem rodas, embora a sua omnipresença hoje deixe dúvidas sobre esta última informação. Foi o melhor em campo e, mesmo não sendo as circunstâncias ideais para conclusões entusiásticas, é inevitável pensar que os dois milhões e duzentos mil euros que custou configuram um caso óbvio de avaliação incorrecta.

Tobias Figueiredo

Embora exiba no currículo uma suposta "formação em Alcochete", todas as evidências indicam que Tobias Figueiredo aprendeu a jogar à bola sozinho. O pânico típico do auto-didacta é a única explicação para o permanente nervosismo com que se apresenta em campo. Não é fácil, a vida dos auto-didactas: vivem em em secreto e perpétuo sofrimento - pois o medo da ignorância (o medo de serem apanhados em falso) é quase um medo atávico, como o medo do escuro ou do desconhecido. O que sentirá Tobias quando olha à sua volta nos treinos e vê o peer review constituído por Coates, Mathieu, William, Gelson ou Bruno Fenandes, com as suas cornucópias de mestrados, os seus ramalhetes de doutoramentos? Não sei, mas não deve ser uma vida fácil.

André Pinto

Como o aluno que, não sendo o mais inteligente, espalhafatoso ou atleticamente apto da turma (nem o mais burro, nem o mais coxo, nem o mais patologicamente tímido), suspeita-se que o seu projecto é transformar uma aura de insignificância num atributo positivo e a extrair dessa improbabilidade o ocasional reconhecimento de mérito, ou, por outras palavras, que o Mathieu nunca se lesione era ideal para todos.

Jonathan Silva

Começou em grande nível, com uma colecção de decisões erradas, maus passes, alívios defeituosos e toda uma panóplia diversificada de cruzamentos que, em boa verdade, não são propriamente cruzamentos, mas sim fantasmas de cruzamentos, a pairar espectralmente numa dimensão errada, sempre um bocadinho longos demais, um bocadinho recuados demais, um bocadinho para trás da baliza ou um bocadinho para o fosso. Recuperou também bastantes bolas, quase todas perdidas por ele. Melhorou um pouco na segunda parte, não por ter sofrido uma súbita injecção de critério, mas porque a sua capacidade física para fazer sprints pela linha é tanto mais útil quanto menos ideias houver em campo para fazer outras coisas.

Petrovic

Depois de um longo blackout abandonou hoje a pose serena de mutismo institucional e apresentou-se em campo cheio de vontade de implementar uma estratégia de comunicação. Fartou-se de fazer comunicados pertinentes, anúncios competentes, updates concisos. A dada altura chegou mesmo a promover uma conferência de imprensa simultânea com as canelas e a anca de um jogador do Marítimo, tendo conseguido esclarecer todos os envolvidos de forma robusta. Mostrou a habitual simplicidade lúcida na construção, sendo, além de Ruiz, o único jogador em campo a conseguir passar a bola a colegas que se encontrassem a mais de dois metros. Bom jogo.

Iuri Medeiros

Começou mal, com uma corrida desenfreada do lado errado da linha lateral, e nunca conseguiu melhorar. Pouco preciso nos cruzamentos, tanto de bola parada como de bola corrida, e pouco hábil a livrar-se das marcações, passou a noite assombrado por sucessivos ataques de esprit de l'escalier: a pensar nas jogadas que devia ter feito, em vez daquelas.

Mattheus Oliveira

Jogou não como o recipiente de instruções tácticas pormenorizadas, mas sim como o portador de um segredo terrível, cuja natureza era sua missão proteger a qualquer custo. Sente-se que grande parte das suas acções no terreno são concebidas para poupar tempo. Mas poupar tempo para quê? Para quem? O que é que acontece a todo esse tempo poupado? Onde é que o guardou? Para que efeito? Dá para ir lá buscar algum? Não é mau jogador. Sabe jogar ao primeiro toque, por exemplo (o pior são os toques seguintes). Mas o motivo da sua contratação continua a não ser claro. Um mistério quase tão grande como aquela consoante duplicada no seu nome, como se alguém tivesse tentado fazer batota no Scrabble.

Bruno César

Exacto, é o Bruno César, chama-se Bruno César, jogou nas posições de Bruno César, fez um jogo à Bruno César, o que é que vocês querem saber mais?

Alan Ruiz

Esta frase, recentemente inaugurada, e ainda, de certa maneira, tocada pela recordação - é a palavra certa - de outras frases que a antecederam no tempo, deverá, por assim dizer, iniciar um processo que, expondo humildemente as suas fraquezas intrínsecas - de um modo consciente e até, dir-se-ia, orgulhoso da sua condição precária - se predisponha ainda assim, sem a precipitação tantas vezes funesta do entusiasmo, à execução das manobras que pareçam as mais apropriadas, na medida em que, não renegando a sua natureza efectiva de manobras, evitem um compromisso inequívoco com a concisão, a concluir um raciocínio sobre o paciente estilo de jogo de Alan Ruiz, e demonstrando por isso uma fidelidade extrema à sua própria maneira de executar uma jogada, não sei se me faço entender.

Doumbia

Num jogador tão compenetrado em fazer o seu trabalho, que é marcar golos, podem notar-se poucas diferenças na sua linguagem corporal entre as ocasiões em que o consegue e aquelas em que não consegue, como hoje. Mas há que ter em atenção que Doumbia é imortal, e não mede o tempo como nós, nem, por conseguinte, avalia os acontecimentos da mesma forma. Ricardo Quaresma sempre me pareceu jogar como se não soubesse qual era o adversário nem a competição em que se encontrava. Doumbia joga como se não soubesse sequer em que década estamos. Muito menos há cá "jogos", no plural: na sua percepção tudo o que acontece faz parte do mesmo interminável jogo de futebol, em que de vez em quando se marcam golos, e de vez em quando não se marca. Ele não está ali para vistas curtas, mas para a eternidade. Não fiquem nervosos que ele também não.

Podence

Consegue provocar um enorme chavascal sempre que entra e hoje, numa noite tão anestesiada, o efeito foi multiplicado. Ganhou vários lances no 1x1, e até alguns no 1x2 (em que o segundo adversário era a sua própria pressa), sacou amarelos, ganhou cantos, e desarrumou genericamente a paz de espírito de todos os transeuntes. Ao minuto 61, teve tempo e espaço para demonstrar mais uma vez que pode fazer muito no futebol, mas nunca, em qualquer circunstância, deve tentar rematar à baliza.

Acuña

Costuma começar os jogos cansado e vai perdendo a fadiga com o passar do tempo, tempo que hoje não teve. Se o jogo ainda decorresse, estaria mais ou menos por esta altura a atingir a sua forma ideal.

Battaglia

Comprovou o que já se suspeitava: se a ideia é utilizá-lo vindo do banco, será sempre um suplente mais útil em ocasiões de risco, quando é preciso segurar um resultado perigoso, como nos jogos em que nos encontramos tragicamente a ganhar por 3-0 a dez minutos do fim. Para empates a 0 como o de hoje, quando está toda a gente calma e descontraída, as suas características não são as mais indicadas.