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Rogério Casanova

A palavra que Rogério Casanova foi buscar à língua alemã para designar estas situações: "Chüpem"

Houve uma jogada em que Paulinho apareceu, e falhou, na cara de Rui Patrício, o guarda-redes que "não se importa de sofrer golos de uma pessoa chamada Paulinho. Mas só uma. E nos treinos. E não é este Paulinho". E Rogério Casanova imagina ainda deva estar em casa "em tronco nu, a mudar a mobília toda de sítio, e cheio de vontade que um vizinho venha queixar-se do barulho"

Rogério Casanova

Octavio Passos

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Rui Patrício

Longe vão os tempos em que Rui Patrício alternava entre não ter qualquer trabalho (e não ter culpas no golo sofrido) aos fins-de-semana - e ser o melhor em campo (e não ter culpas nos 3, 5 ou 7 golos sofridos) às quartas-feiras. Hoje tem uma rotina muito mais estável, que lhe permite fazer o mesmo tipo de exibições a qualquer dia da semana, e sofrer o mesmo número de golos (nos quais não teve qualquer culpa) de Moreirense e Barcelona. Trabalho não teve muito, e só precisou de puxar dos galões já perto do fim, quando alguém chamado Paulinho pretendeu marcar-lhe um golo. Patrício não se importa de sofrer golos de uma pessoa chamada Paulinho. Mas só uma. E nos treinos. E não é este Paulinho.

Piccini

É um risco que correm as pessoas que custam três milhões de euros com tão inusitada correcção: começam a ser vistas não como pessoas, mas como três milhões de euros. Foi provavelmente o que pensaram, além dos espertalhões que produzem conteúdos digitais, os jogadores do Barcelona nos cumprimentos pré-jogo, ao passarem pela figura familiar de Piccini, com quem se cruzaram na Liga Espanhola: “olha, aqueles três milhões de euros que fintei no ano passado”. Mas as pessoas não são números, e ao minuto 17 Piccini, um ser humano, recebeu de peito junto à linha, galopou dez metros, desviou-se de vários adversários, e rematou forte de pé esquerdo. A língua alemã tem uma palavra para designar estas situações: a palavra é “Chüpem”. Bom jogo, como é hábito.

Coates

Uma exibição despreocupadíssima durante toda a primeira parte, típica de quem percebeu, se calhar ainda no balneário, que o seu colega de sector ia dar conta da maioria dos recados. Esteve mais activo na última meia hora e fez alguns cortes importantes (não obstante um deslize comprometedor já perto do fim). Foi vítima de um azar imerecido e incaracterístico, marcando um auto-golo que julgava só acontecer ao Paulo Oliveira, daqueles em que até a geometria abana a cabeça, quanto mais um adepto de carne e osso.

Mathieu

O tipo de exibição que levou à invenção do bloco de notas, e da cassete de vídeo: corte na área sobre Messi aos 4 minutos, calma sobrenatural na saída de bola (rodeado de adversários e sem linhas de passe) aos 11, outro corte sobre Suárez aos 12, um desvio milagroso depois de um livre a safar um golo certo no último segundo aos 37, e assim sucessivamente. O seu melhor momento (e a escolha é difícil) foi talvez ao minuto 41: no primeiro slalom bem sucedido de Messi, daqueles que deixa meia equipa espalhada pelo relvado depois de carrinhos mal sucedidos, decidiu não se mexer e esperar tranquilamente que a bola viesse ter consigo de livre vontade. O que veio a acontecer. Mesmo a única falta que cometeu foi exemplarmente escolhida: uma cacetada em Busquets, que só pecou por não ter sido dada com mais força, e num órgão vital. É um génio. Chegou ao Sporting com 33 anos, cumpriu 29 assim que começaram os jogos oficiais e festejou hoje os 25. A continuar assim, chegará a Maio sem precisar de fazer a barba.

Fábio Coentrão

Presença atenta na linha lateral, sempre pronto para intervir a qualquer momento e passar alguns segundos a corrigir as indicações tácticas de Jorge Jesus. Ao minuto 39, recitou oito cantos dos Lusíadas na cara do treinador, que respondeu com um monossílabo e apontando o braço para um sítio. Coentrão retorquiu fluentemente com dezassete ensaios de David Hume, ao que o treinador respondeu com o mesmo monossílabo e apontando o braço para o mesmo sítio. Não faço a menor ideia do conteúdo da conversa, mas incendiava de bom grado uma biblioteca para ter acesso à transcrição.

William Carvalho

É a solidez estrutural que suporta efemeridades menores, como paixões humanas, destinos colectivos, e outras questões de vida ou morte. Uma massa compacta de calma e lucidez, William limita-se a ser a temperatura a que decorrem todas estas coisas, a gramática que permite que os outros transeuntes articulem frases. Não fez um jogo perfeito porque, como ele seria o primeiro a lembrar, não existem jogos perfeitos. Actos esporádicos como o passe para Doumbia que fez na direcção de Bas Dost, por exemplo, ou o remate por cima da barra, são apenas a sua maneira de imitar o Rei Canuto, que mandou colocar o trono à beira-mar e ordenou à maré que não subisse, numa tentativa de esclarecer os seus cortesãos sobre os limites do poder secular.

Battaglia

O melhor em campo e um debate na internet em forma humana. Apresentou-se ao serviço com os caninos à mostra, os pitons untados com adrenalina, e um cabaz de opiniões. Não tem a menor importância se as opiniões são correctas, ou sequer baseadas em factos. O que é importante é arremessá-las com muita força às trombas de quem possui opiniões contrárias. Do primeiro ao último minuto, ninguém conseguiu ganhar uma discussão consigo: Battaglia falou mais alto, fez mais memes, fez mais barulho, mudou mais vezes de assunto, nunca se cansou, nunca se calou. Toda a gente já fez log-out nesta altura, e metade do plantel já está em casa a dormir, excepto Battaglia, que deve estar em tronco nu, a mudar a mobília toda de sítio, e cheio de vontade que um vizinho venha queixar-se do barulho.

Gelson Martins

Entra sempre em campo com o sistema nervoso de um piloto de F-16 carregado de anfetaminas, o corpo tão tenso e retesado que seria possível pegar-lhe nos tendões e tocar os primeiros acordes do “Smoke on the Water”. Nos últimos jogos é isso que tem tido (e não deixa de ser extremamente útil) no lugar da inspiração. O excesso de energia ainda lhe permitiu ensaiar alguns dribles nos momentos finais, em corridas contra o relógio, contra as expectativas, contra as leis da probabilidade, e contra Jordi Alba. Honra lhe seja feita, ultrapassou quase sempre três desses quatro obstáculos.

Acuña

O jogo passou-lhe ao lado, por se passar do outro lado, durante quase toda a primeira meia-hora, e só emergiu do anonimato posicional ao minuto 28, quando conseguiu ultrapassar Semedo e cruzar para o coração da área. Ganhou um canto, mas não viria a ganhar mais lances semelhantes. Foi um de muitos jogadores do Sporting justamente amarelados por se terem apresentado em campo com os seus corpos de carne e osso.

Bruno Fernandes

Está mais do que na altura de falarmos naquele rosto. Visto a contra-luz, a silhueta recortada contra os holofotes, podia ser o logotipo da Associação dos Técnicos Oficiais de Contas. É só quando o vemos em movimento que as características ganham definição, e percebemos que podíamos estar perante uma personagem de um romance russo, um daqueles niilistas tuberculosos saídos de Turgenev, que sabem quão pouco o mundo tem para lhes oferecer, que transportam um ressentimento do tamanho da sua geração, e que discutem imenso com o pai e com os amigos, não porque os odeiam, mas porque os amam demasiado. Hoje mostrou que também estes são jogos para ele. Mesmo com os altos e baixos que terá naturalmente ao longo da época, haverá poucos que não sejam.

Doumbia

Na retina fica uma recepção-relâmpago ao minuto 13, que provocou uma insuficiência renal a Piqué, e também vários sprints ingratos, alguns de um lado ao outro do campo, a tentar morder os calcanhares de quatro dos defesas com melhor jogo de pés da actualidade. Saiu antes do intervalo, com uma das poucas lesões que as leis do jogo obrigam a punir automaticamente com a amostragem de um cartão amarelo.

Bas Dost

É possível que a assistência para Bruno Fernandes ao minuto 72 pudesse ter sido pensada de forma mais egoísta. Se de facto há ali um problema de confiança, devem esconder-lhe a qualquer custo a informação de que uma noite da Champions chegou ao fim e Wolfswinkel marcou mais golos que ele.

Bruno César

Entrou a todo o gás, mostrando que estava ali para não deixar o Barcelona jogar, e cedendo logo um lançamento lateral. O facto de o ter feito através de um cruzamento do outro lado do campo não belisca minimamente a nobreza das suas intenções.

Jonathan Silva

Jonathan Silva foi dos poucos jogadores da sua equipa a não ver um cartão amarelo. Releiam a frase anterior. Saboreiem-na. É uma frase única, nunca antes escrita na história da humanidade, e talvez nunca mais tenhamos a oportunidade de a reencontrar. Aproveitemos o momento.