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Rogério Casanova

A Tarja de Tchékhov: as 10 inquietações de Rogério Casanova com o Sporting-FCP (e com Marega, pois claro)

Dez perguntas sobre o Sporting-FC Porto seguidas naturalmente de outras tantas respostas em que vamos ficar a saber, por exemplo, que Bruno Fernandes vai deslocar-se a uma mesa de voto em Quarteira e espetar o boletim numa urna em Ermesinde ao ângulo e que o Brahimi vai circum-navegar habilmente sete secções de voto antes de depositar um voto em branco na oitava. E Rogério lança um grande alerta à comunidade sportinguista: as estrondosas goleadas morais sobre colossos espanhóis não costumam produzir sequelas felizes

Rogério Casanova

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Qual a importância deste jogo para o resto do campeonato?
Nenhuma. Zero. Ou alguma. Ou muitíssima. Ninguém sabe, nesta altura. Consequentemente, Marega.

Quais os respetivos estados de espírito das duas equipas?
Completamente distintos. O Porto vem de uma vitória à tangente por 0-3 sobre o Mónaco, mas tem o mérito de ter conseguido aguentar esse perigosíssimo 0-3 ao longo dos quatro ou cinco derradeiros minutos do jogo, algo que, de acordo com a minha experiência enquanto sportinguista, é uma das proezas mais improváveis no futebol moderno. Acrescenta-se a isto o valor simbólico do resultado, que reproduz com deprimente exatidão o momento mais alto da sua história recente. O Sporting, por seu lado, vai chegar a domingo vindo de uma estrondosa goleada moral sobre o Barcelona, e se há coisa que a época passada nos ensinou é que os jogos que se seguem a estrondosas goleadas morais sobre colossos espanhóis não costumam produzir sequelas felizes. Consequentemente, Marega.

Uma vez que o clássico se vai realizar no dia de um importante ato eleitoral, é possível adivinhar as intenções de voto de alguns dos jogadores?
Iker Casillas vai votar no Partido Popular Monárquico. Marcos Acuña vai votar no PCTP/MRPP. Bas Dost vai votar no PAN, tal como Maxi Pereira, embora por motivos opostos. Bruno César vai votar em 17 partidos diferentes. O boletim de Rui Patrício vai perder-se na contagem, uma situação da qual o próprio Rui Patrício estará isento de culpas. Brahimi vai circum-navegar habilmente sete secções de voto antes de depositar um voto em branco na oitava. Bruno Fernandes vai deslocar-se a uma mesa de voto em Quarteira e espetar o boletim numa urna em Ermesinde, ao ângulo. William Carvalho vai escrever uma adenda à Constituição em pentâmetro iâmbico. Battaglia vai correr de freguesia em freguesia até anular todos os votos anteriormente mencionados, tarefa que deve concluir antes da hora de almoço. Alan Ruiz vai votar em Teresa Leal Coelho, tarefa que deve concluir lá para dezembro. Marega vai desenhar uma única cruz, não no papel, mas no sítio onde dói mais.

Porque é que tudo vai dar ao Marega? Tem alguma coisa que ver com a célebre tarja do ano passado?
Com certeza. A tarja fatídica do “Mete o Marega”, descompensadamente erguida pelos adeptos do Sporting a 28 de agosto de 2016, colocou em marcha um processo inexorável que faz com que, 13 meses depois, o Marega seja o mais relevante, e talvez único motivo de interesse moral, ético e psiquiátrico neste jogo. Consequentemente, Tchékhov.

O que é que o Tchékhov tem que ver com isto?
Exatamente; ou, por outras palavras: isso mesmo. Tchékhov foi um escritor e dramaturgo russo que conheceu biblicamente mais atrizes que o George Best, e a quem um amigo atribuiu postumamente uma frase de grande sucesso em oficinas de escrita criativa: “Se escrevemos no primeiro capítulo que há uma espingarda pendurada na parede, então a espingarda deve ser disparada no terceiro capítulo, caso contrário não está lá a fazer nada”. A aplicação futebolística deste princípio de organização narrativa tem sido sucessivamente demonstrada ao longo dos anos e nenhum adepto racional a deve ignorar: a tarja foi a espingarda; o terceiro capítulo é agora.

No caso específico em questão, a espingarda não apareceu já em cena uma vez, ou melhor, três vezes, que foi o número de golos que o Marega marcou ao Sporting na época anterior, ao serviço do Guimarães?
Seria essa a conclusão óbvia a tirar, caso a história do Sporting se assemelhasse a um drama clássico, e não, como é o caso, a um spaghetti western, onde as balas nunca acabam.

Que conclusões podemos retirar do facto de "Mete o Marega" ser um anagrama de “gema ao meter”?
Poucas, pelo menos adultas. E mesmo ao nível de conclusões pueris, só há uma, e nada bonita.

Esta forma violentíssima de retribuição cósmica também acontece aos outros clubes ou apenas ao Sporting?
Apenas ao Sporting. A claque do Porto podia ter exibido uma tarja de quinhentos hectares em agosto de 1998 contendo profeticamente todo o onze inicial que o Sporting apresentaria agora, 20 anos mais tarde, e também um conjunto de smilies, e também um desenho a carvão de um punho com o dedo do meio estendido, e nada de mau lhes ia acontecer. A claque do Porto podia desdobrar no domingo, com o jogo a decorrer, uma tarja a dizer “mete o Alan Ruiz”, e o mais provável seria o Alan Ruiz marcar: marcar um autogolo. Por outro lado, se uma única criancinha inocente de dez anos, adepta do Sporting, no sossego do seu quarto, sussurrar em voz baixa, e com a luz apagada, um comentário depreciativo sobre um colega de turma, é absolutamente garantido que esse colega vai tornar-se futebolista profissional e marcar um hat-trick ao Sporting em fevereiro de 2028.

Mas não é pelo menos teoricamente possível que o jogo seja resolvido para o lado do Bem, com um remate de fora da área do Bruno Fernandes?
Seria, sim, seria teoricamente possível, caso a hipótese não tivesse sido levantada, caso esta pergunta não tivesse sido feita. Agora fica muito mais difícil.

O que contaria, afinal, como uma vitória inequívoca do Sporting?
O Marega não marcar o golo decisivo contaria como uma vitória inequívoca do Sporting. Já se, por absurdo, o Marega falhar um golo decisivo, tropeçando nas próprias pernas ao minuto 95, isolado perante Rui Patrício, justifica-se inteiramente irmos todo para o Marquês e fazermos uma orgia de duas semanas.