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Rogério Casanova

Como incluir Jonathan Silva é, por vezes, o equivalente a construir um Stradivarius para tocar o “Jardim da Celeste”

Este cronista também comparou a noite de Bas Dost com a viagem marítima de um certo velejador que passou mil cento e cinquenta e dois dias, sem meter o pé em terra, e sem contactar directamente com qualquer outro ser humano

Rogério Casanova

Justin Setterfield

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Rui Patrício

Passam-se meses sem termos oportunidade para recordar que Patrício é um bom guarda-redes, e de repente, como os autocarros, chegam várias ao mesmo tempo. Boa defesa a remate traiçoeiro de Brahimi ao minuto 2, grande saída aos pés de Aboubakar ao minuto 40 e mais uma ou outra demonstração de segurança e estabilidade. A coroa de glória, no entanto, surgiu aos setenta e nove minutos, quando evitou um golo certo de Marega, no momento mais importante da sua carreira desde que se estreou no futebol profissional em Novembro de 2006.

Trave da Baliza Vítor Damas, no Topo Sul

Passam-se meses sem termos oportunidade para recordar o que é que a trave está exactamente ali a fazer, e hoje parecia outra noite igual, sem trabalho, em que se limita a ser uma espectadora atenta dos acontecimentos. A coroa de glória, no entanto, surgiu aos quarenta e quatro minutos, quando evitou um golo certo de Marega, no momento mais importante da sua carreira desde que se estreou no futebol profissional em Agosto de 2003.

Piccini

Ganhou um primeiro canto da equipa aos sete minutos, depois de um lance que ele próprio iniciou exibindo um dos seus melhores atributos: o imaculado controlo de bola ao receber passes longos. Pouco tempo depois, foi inteligente a temporizar e a conter Brahimi, esperando que ele perdesse a bola sozinho. Nem sempre conseguiu fazê-lo, mas mesmo nos lances em que foi ultrapassado (e não há muita gente no planeta que consiga passar um jogo inteiro sem ser ultrapassado por Brahimi) encarnou sempre um semáforo amarelo: Brahimi conseguiu avançar, mas com cautela e sem maluquices. Ao minuto 33 conseguiu ainda mostrar aos adeptos mais impacientes (que teimam em querer vê-lo cruzar) porque é que isso quase nunca acontece: porque Piccini, além de perceber muito de futebol, também percebe muito de Piccini.

Coates

Não adoptou a sua habitual postura de hostilidade reprimida em relação a espécies invasoras, comportando-se mais com a distante competência que costumamos associar aos assistentes pessoais de celebridades – um daqueles intermediários na relação entre entidades VIP (neste caso a baliza) e os impulsos voyeurísticos ou predatórios do mundo exterior. Sem espalhafato, mas com intransigente competência, encarnou o papel de relações-públicas taciturno, ou guarda-costas aborrecido, e desfiou 90 minutos de intercepções à porta de entrada e cancelamento abrupto de credenciais. Houve gente que passou, mas poucos passaram por ele.

Mathieu

O corte crucial sobre Marega na área ao minuto 36 já seria mais do que suficiente para lhe garantir uma futura estátua no museu, mas é de assinalar também a demonstração de inteligência emocional que deu na segunda parte. Ao perceber, com a perspicácia dos predestinados, que Jonathan é incapaz de receber um bom passe, começou a fazer-lhe maus passes, em série, dando o mote para o resto da equipa começar a fazer o mesmo. Foi uma brilhante jogada psicológica, que alcançou o objectivo essencial: Jonathan não voltou a estragar jogadas com a sua incompetência, porque as jogadas já lhe chegavam competentemente estragadas.

Jonathan Silva

Algures num arquipélago remoto no Pacífico, numa daquelas grutas que só costumam aparecer em filmes de terror de série B, um soldado japonês com 90 anos de idade, que passou as últimas sete décadas sozinho, convencido que a II Guerra Mundial nunca terminou, a comer ratos assados e a conversar lunaticamente com pássaros, a cumprir obedientemente as suas obsoletas instruções para não abandonar o posto e proteger o Império Nipónico contra o inimigo, dedicou o último segundo da sua existência terrena a pensar: “Sabem que mais, pássaros? Tenho mais controlo de bola, sentido posicional, e juízo nos cornos que o Jonathan Silva”.

William Carvalho

O seu estilo ilusoriamente elaborado e deliberado tem o condão de transformar quase todos os espectadores, olheiros e adversários em puristas estéticos, convencendo-se que as superfícies visíveis que admiram contêm profundezas ocultas. Aquele movimento vagaroso não parece minimalista, portanto deve ser barroco. Aquela mudança de direcção não parece realista, portanto a jogada que inicia deve ser surreal. E enquanto eles ficam entretidos a fazer crítica de Arte, William dedica-se ao único propósito que o motiva: o respeito por princípios elementares, a procura da linha recta mais próxima e da distância mais segura entre dois pontos. Conseguiu jogar bem, num meio-campo que não existiu além dele.

Battaglia

Como o funcionário mais diligente de uma ONG humanitária, passou grande parte do jogo a corrigir desigualdades e a tentar construir um campeonato mais justo através da redistribuição de posse de bola. Fez um passe extremamente bem sucedido para um jogador do Porto logo ao sexto minuto, outro ao minuto 12, e depois foi vê-lo entusiasmar-se, tentando, com alguma megalomania, fazer passes para jogadores do Porto com grau de dificuldade cada vez mais elevado, o que o levou, naturalmente, a falhar alguns, que foram parar aos pés de colegas de equipa. Na segunda parte retraiu mais os seus impulsos filantrópicos e pareceu mais sintonizado com a ética da equipa, como se viu no facto de, também ele, ter feito um passe demasiado forte para Jonathan.

Gelson Martins

Sem conseguir desequilibrar, rodeado de carraças sem bola, comportou-se como uma carraça com bola, tentando mantê-la junto a si o máximo tempo possível, expediente que, pelo menos durante a primeira parte, era a única forma de a equipa não a perder de imediato. Pouco depois do intervalo derivou para o flanco esquerdo, onde artilhou o toque mais artístico do jogo inteiro: um toque de calcanhar que desposicionou momentaneamente a defesa do Porto, e isolou... Jonathan Silva. Foi o equivalente a construir um Stradivarius para tocar o “Jardim da Celeste”, mas fica a intenção.

Bruno Fernandes

Foi o último jogador em campo a tocar na bola, o que pode parecer um dado estatístico puramente acidental, mas que reflecte as dificuldades que sentiu para encontrar espaço. Mesmo quando o encontrou, e talvez mais por mérito do Porto do que por demérito próprio, ficou a ideia que lhe faltou sempre uma fracção de segundos adicional para desenvolver a ideia que tinha na cabeça. Caiu-lhe aos pés a melhor oportunidade da equipa ao minuto 59: Bruno Fernandes optou por fazer um remate de longe, opção que se compreende, mas que funciona muito melhor quando está realmente longe, e não, como era o caso, perto.

Marcos Acuña

Logo aos quatro minutos, a bola fez uma daquelas coisas que as bolas de futebol fazem de tempos a tempos: colidiu com a bandeirola de campo quando toda a gente pensava que ia sair e virara costas ao lance. Toda a gente, salvo seja, pois Acuña foi quem lá chegou primeiro para resolver o assunto. O lance é uma boa ilustração do jogo que fez: precioso na ajuda defensiva (muitas vezes foi obrigado a ser, por motivos óbvios, lateral-esquerdo), sempre útil na contenção a meio-campo (tem uma esperteza característica a bloquear linhas de passe quando a jogada decorre no centro ou no flanco oposto), e um verdadeiro líbero avançado em situações potenciais de contra-ataque adversário. Travou dois assim, um dos quais perto do fim, quando já não devia ter energia para tal. Tivessem as bolas paradas estado ao mesmo nível – inúmeros cantos demasiado curtos – e seria o melhor do Sporting hoje.

Bas Dost

Entre 2007 e 2010, o velejador americano Reid Stowe completou uma viagem marítima de mil cento e cinquenta e dois dias, sem meter o pé em terra, e sem contactar directamente com qualquer outro ser humano, uma experiência talvez um pouco mais isolada e solitária do que a noite de Bas Dost.

Bruno César

Duas boas intervenções em que conseguiu jogar bem ao primeiro toque, dois toques que conseguiram ao mesmo tempo descomplicar e acelerar a jogada. Não deram em nada, mas não por sua culpa. Tal como não foi (exclusivamente) culpa sua o anonimato que lhe pautou o resto da exibição.

Podence

Ganhou uma falta assim que entrou, através do expediente revolucionário de se mexer mais depressa com a bola do que dois jogadores do Porto sem ela, uma manobra que não testemunhava há tanto tempo que nem me lembrava que era legal: quando o árbitro apitou, julguei que ia marcar falta a Podence.

  • E alguém acabou a dizer: vamos ser campeões

    Futebol nacional

    O primeiro clássico da época acabou empatado (0-0) e há duas formas de o encarar: o FC Porto pode lamentar os dois pontos que deixou em Alvalade pelos 45 minutos atacantes, dominadores e rematadores que fez; o Sporting pode contentar-se por ser a primeira equipa a travar os dragões no campeonato pelo cansaço e falta de ritmo que foi acusando