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Rogério Casanova

Piccini, esse lateral que parece um concorrente do Secret Story que perdeu o depilador de sobrancelhas (por Rogério Casanova)

O autor reflete demoradamente sobre os jogadores do Sporting que arrancaram uma vitória no limite em Vila do Conde, diante do Rio Ave. É ler para perceber.

Rogério Casanova

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Rui Patrício
Um jogo com sabor aos bons velhos tempos, antes deste recente e lamentável acréscimo geral de segurança defensiva que o transforma em figurante na maioria das ocasiões. Entre meia dúzia de encaixes seguros, fez pelo menos duas "defesas da noite": uma a evitar um golo de cabeça do advogado João Nabais, e outra em resposta a um remate de longe do sociólogo António Barreto. O grande momento, no entanto, surgiu ao minuto 84, quando safou o 1-0 usando apenas o seu prestígio: depois de esbofetear para a frente um remate traiçoeiro, deixou a bola à mercê de Guedes, que, em vez de calcular a altura de Patrício (1,90m), optou por avaliar correctamente a sua estatura moral (cerca de 40 metros), tendo por isso rematado por cima da barra, e na direcção do meu cardiologista.
Piccini
Piccini, não sei se já repararam, nunca pensa em movimento; os seus instantes de reflexão acontecem invariavelmente antes de começar a correr. É fácil verificar isto, porque é sempre possível perceber quando Piccini está a pensar. Quando não está a pensar parece um concorrente do Secret Story que perdeu o depilador de sobrancelhas e portanto aguarda que os pelos caiam naturalmente. Quando está a pensar tem exactamente o mesmo aspecto, mas um bocadinho mais intenso: os globos oculares estremecem e perscrutam o horizonte, à procura de Gelson, Coates ou Rui Patrício, as únicas pessoas no hemisfério Norte a quem alguma vez tentou passar a bola. Não fez a sua melhor exibição, mas foi um lateral de quatrocentos mil euros a atacar e um lateral de cinco milhões e seiscentos mil euros a defender, mantendo dessa forma a estabilidade da sua cotação.
Coates
Deixou-se antecipar uma única vez (ao minuto 32), mas antes e depois foi acumulando uma série de cortes de grau de dificuldade elevado, com destaque para uma bola que conseguiu aliviar para canto em vez de marcar o auto-golo que tanto o historial do clube como Paulo Oliveira nos habituaram a esperar. Já na segunda parte, percebeu também que a manobra ofensiva não estava a carburar e recuperou um hábito da época passada, ensaiando uma maradonice por ali fora, em que conseguiu passar por todos os adversários menos pelo adversário que não passou.
Mathieu
Como diz a velha maldição chinesa, estamos prestes a viver umas semanas interessantes.
Fábio Coentrão
Pouco antes do intervalo, após um sprint pela faixa esquerda, caiu ao chão e ficou agarrado a várias partes do corpo em simultâneo, como de resto Nostradamus previu numa das suas centúrias. Temeu-se o pior, mas uma das vantagens de ter 50% do corpo constituído por próteses, enxertos e placas de metal unidas com adesivo e elásticos é a invulnerabilidade a lesões menores. Felizmente. Até nem teve uma noite muito inspirada, mas o simples facto de não ser substituído a dez minutos do fim foi o suficiente para garantir os três pontos.
William
Grande parte do que acontece num meio-campo, qualquer meio-campo, sendo essencialmente o resultado de efémeros acordos de cooperação entre a vontade humana e a arbitrariedade do Universo, consiste em momentos nos quais um futebolista revela sensibilidade suficiente para resgatar ao caos ao possibilidade mais próxima, normalmente escondida uns centímetros à direita ou à esquerda da sua intenção consciente (a consciência curva-se na direcção da verdade, mas é o instinto que lá chega primeiro). No caso de William, que por vezes nem parece um terráqueo, quanto mais um centrocampista, a analogia mais correcta é um orador muito talentoso a ler um discurso no teleponto, com a nuance de que não só foi ele a escrever o discurso, mas também foi ele a construir o teleponto na sua oficina. Essa sensação de que joga sem improvisar, cumprindo um plano prévio, e num plano temporal alternativo ao resto do jogo, está sempre presente, quer quando descongestiona qualquer barafunda com decisões tão clarividentes que parecem inevitáveis (como aconteceu várias vezes esta noite) quer quando os adversários passeiam à vontade pelos calendários de espaço que deixa sistematicamente vazios nas suas costas (como também aconteceu várias vezes esta noite).
Gelson Martins
A utilidade do costume a fazer de segundo lateral-direito, ou a corrigir na recuperação defensiva as bolas que ele próprio perdeu, mas o certo é que já vamos quase em Novembro e a sua prestação ofensiva mais desequilibrante da época continua a ser a do jogo de apresentação aos sócios contra o Mónaco. E apesar de a temperatura continuar a mesma, já lá vão mais de três meses, a hora está quase a mudar, e começa a ser altura de termos uma conversa séria sobre fontes de energia alternativas.
Bruno Fernandes
Sem estar muito em jogo - como seria de esperar numa ocasião em que a sua equipa foi para o intervalo com 40% de posse de bola - foi o elemento mais esclarecido em posse durante toda a primeira parte, e o único a conseguir fazer com sucesso quase tudo o que tentou, ou seja, descobrir a única linha de passe ofensiva que por acaso não estava bloqueada por setenta jogadores do Rio Ave. Na segunda parte avançou no terreno e continuou a fazer o seu melhor para descobrir espaços vazios; encontrou alguns, o maior dos quais na minha alma, depois de festejar o que ambos julgámos ser o golo inaugural com um chorrilho de palavrões que as circunstâncias confirmaram pouco depois ser inteiramente justificado.
Acuña
Adoptou alguma da aura polivalente de Bruno César, com a (significativa) diferença de que, enquanto Bruno César podia ser médio-ala, médio-centro e defesa-lateral no mesmo jogo, Acuña pode ser médio-ala, médio-centro e defesa-lateral na mesma jogada. É uma situação de superioridade numérica em forma humana. É possível que a sua esposa esteja a praticar poligamia apenas por ser casada com ele.
Podence
Pareceu desde o primeiro minuto o candidato mais forte a criar ocasiões de perigo (ou pelo menos de desequilíbrio pré-perigo, a sua especialidade), e o único capaz de receber a bola com um adversário nas costas, e conseguir virar-se e ultrapassá-lo com apenas dois toques. O facto de ter sido ele, e não Gelson, a sair ao intervalo, só tem uma explicação, que é também o maior elogio ao Rio Ave feito esta noite: Gelson defende melhor.
Bas Dost
A sequência de jogos sem marcar (ou sequer rematar) conferiu-lhe o aspecto de vítima de maldição, convertendo geometricamente todos os seus escrúpulos e receios numa linha recta que lhe trespassava os ombros como um cabide, deixando-o suspenso no deserto de cinco metros quadrados permanentemente instalado à sua volta. O hat-trick da semana passada restaurou a normalidade e devolveu-lhe uma confiança que se nota até quando anda para ali a correr atrás de bolas impossíveis ou a disputar na mesosfera pontapés de Rui Patrício. Marcou o golo da vitória: caído do céu, tal como ele.
André Pinto
Defensivamente, as coisas não pioraram quando substituiu Mathieu. Uma vez que a expectativa mais optimista era que as coisas piorassem apenas um pouco (em vez de piorarem de forma catastrófica) acabou por ser uma surpresa positiva. Lá na frente, pouco antes do intervalo, uma carga de ombro ilegal sobre Bas Dost, impedindo-o de marcar golo, devia ter sido punida com falta, cartão amarelo, e um calduço na nuca.
Battaglia
Entrou para dar músculo ao meio-campo e reforçar a capacidade defensiva da equipa, portanto evidentemente não recuperou uma única bola e fez o cruzamento para o golo com o seu pior pé.
#Sistemas_Tácticos
Doumbia
Aposto mil euros em como Doumbia não se lembrava do resultado do jogo quando tentou marcar o que podia ser o golo da tranquilidade com toda a brandura de um trovador medieval a dedilhar o seu alaúde. Aposto outros quinhentos em como nesta altura já se voltou a esquecer.