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Rogério Casanova

Sem Coentrão, o onze de Rogério Casanova para esta noite tem Kévin Rodrigues. Como podia ter um Geórge Fernandes ou um Denzél Oliveira

Rogério Casanova propõe ainda que, face ao incrível leque de selecionáveis para a lateral-direita, se avance para uma solução salomónica neste jogo de preparação com a Arábia Saudita: a adaptação de Gelson Martins à posição

Rogério Casanova

David Ramos/Getty

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José Sá
Chegou à concentração certamente moralizado pelo seu recém-adquirido estatuto de "pessoa-que-relegou-Iker-Casillas-para-o-banco-de-suplentes", ascendendo assim ao panteão mais restrito do futebol internacional, até agora ocupado apenas pelo mítico Antonio Adán. Talvez já merecesse esta oportunidade. José Sá apresentou-se-nos no Europeu de sub-21 em 2015, competição em que foi eleito melhor guarda-redes, e na qual imprimiu a sua imagem de marca na memória dos portugueses - aqueles reflexos, aquela barba ruiva de Viking, aqueles olhos assustados de vítima de Viking. Finalmente titular num grande, vai chegar ao Mundial com 25 anos e não tem muito mais tempo para cimentar a reputação de "promessa"; resta-lhe aproveitar ocasiões como esta para cumprir o seu potencial e começar finalmente a marcar auto-golos com as costas ou defender cruzamentos meio metro dentro da baliza.

Gelson Martins
Pela primeira vez em muitos anos, a posição de lateral-direito é aquela em que o leque de seleccionáveis apresenta maior qualidade. Não só nas opções já maduras, como Semedo, Cedric, Cancelo e Ricardo, como até nas que ainda nem sequer estão na calha (um dos juniores mais promissores do futebol nacional, Diogo Dalot, é lateral-direito). É impossível manter esta gente toda satisfeita em simultâneo, e a titularidade de um arrisca-se a provocar automaticamente ressentimentos nos outros, com a consequente erupção de intoleráveis FOCOS DE INSTABILIDADE NO GRUPO. A única solução viável, diria até salomónica, é deixá-los a todos no banco e fazer o que sempre se fez em emergências: adaptar um extremo ao lugar.

Pepe
"Será que o Pepe ainda é o mesmo?" é a pergunta que fazem todas as pessoas que, caso tenham amor à sua integridade física, se encontram a alguns quilómetros de distância de Pepe. Em princípio, estarão a referir-se à idade, ou à recente despromoção voluntária para um futebol menos competitivo. Mas a pergunta depressa se torna irrelevante, pois mesmo que alguém num cargo de responsabilidade fosse capaz de concluir que Pepe já não é o mesmo, e que pode e deve deixar de ser primeira opção, isso implicaria atravessar a zona desmilitarizada entre Pepe e a sua integridade física, explicar-lhe pessoalmente que ia passar a ser suplente, e aceitar as consequências desse acto temerário e descompensado.

Edgar Ié
Com todo o respeito por Bruno Alves e José Fonte, a verdade é que não somos o Milão nem isto vai ser a Liga Italiana nos anos 90: jogar um Campeonato do Mundo com uma dupla de centrais de idade combinada superior a setenta anos não pode ser boa ideia nem deixa ninguém descansado. Temos precisamente sete meses para descobrir (ou inventar) um defesa-central para emparelhar com Pepe, e de nível semelhante ao talento acumulado noutras posições. Não faço ideia se Edgar Ié é o jogador certo, ou sequer se tem feito uma boa época no Lille. Sei, no entanto, que num jogo contra o Troyes em Outubro foi expulso por uma falta cometida por outro jogador, e este talento para ser expulso por uma falta cometida por outro jogador é um dos atributos mais úteis que um colega de Pepe pode ter.

Kévin Rodrigues
Dando Raphael Guerreiro como garantido, a única dúvida que a posição oferece à futura lista de convocados para o Mundial é a precariedade anatómica de Fábio Coentrão, um grande futebolista, mas um ser humano que infelizmente pode ser desconjuntado por uma rajada de vento mais forte. Coentrão não jogou os últimos dois encontros ao serviço do Sporting. Tentei ler um diário desportivo para saber novidades sobre a sua condição física, mas as folhas do jornal desfizeram-se em pó. Tentei consultar o site do Sporting à procura do boletim médico, mas o laptop incendiou-se. É o tipo de coisas que acontece nas imediações de Fábio Coentrão. O mero facto de ter escrito o seu nome três vezes provocou-me mialgias de esforço. Até estas questões serem cabalmente esclarecidas resta-nos arranjar maneiras simpáticas de passar o tempo, chamem-se elas Kévin Rodrigues, Geórge Fernandes ou Denzél Oliveira .

Danilo
Foi amavelmente poupado por Sérgio Conceição no último jogo para o campeonato, pelo que estará nas condições físicas ideais para jogar os 90 minutos contra a Arábia Saudita, ir a correr atrás do autocarro desde Leiria até Viseu, ser novamente titular o jogo inteiro contra os Estados Unidos, e depois ir a pé de regresso ao Porto. Uma selecção é tão mais forte quanto a sua Liga for competitiva, e a exaustão de Danilo pode ser um factor determinante na competitividade da nossa.

André Gomes
De acordo com a informação veiculada nos órgãos de comunicação social, André Gomes não foi convocado para esta dupla jornada de jogos de preparação, um facto surpreendente, mas que em nada compromete a sua capacidade para dar à selecção nacional exactamente o mesmo contributo dentro das quatro linhas que deu nas suas 27 anteriores internacionalizações.

João Mário e Bernardo Silva
Os dois maiores talentos naturais das suas respectivas gerações, e dois jogadores que seriam titulares indiscutíveis em 95% dos clubes do mundo - excepto, por coincidência, naqueles que representam actualmente. O caso não é grave; podiam não jogar mais um minuto que fosse durante o resto da época e a titularidade de ambos no Mundial continuaria a fazer sentido. Nem se trata aqui de querer "dar-lhes minutos", ou permitir-lhes "manter a forma", ou outras monotonias afins. Devem jogar agora simplesmente porque nós merecemos vê-los jogar.

Bruma
A sua presença gera natural curiosidade, não só pelo que pode fazer dentro de campo, mas acima de tudo pelo que pode dizer fora dele. Após derrotar o Porto ao serviço do Leipzig, assumiu na flash interview, com memorável franqueza, que lhe restava "levantar a cabeça e continuar a trabalhar". Só Deus sabe o que lhe virá ao espírito caso Portugal goleie a Arábia com um hat-trick seu, mas não se deve excluir a hipótese de chegar à sala de imprensa lavado em lágrimas, antes de apresentar um pedido de desculpas à nação.

André Silva
A sua titularidade tem como principal função impedir a titularidade de Eder. É justo que Eder seja convocado e faça parte do grupo, mas dar-lhe minutos em campo seria um erro, uma injustiça, e uma grave descaracterização da contingência mais fortuita que testemunhámos no nosso tempo de vida. Reconheço que não será uma situação fácil de gerir, mas não é propriamente uma experiência inédita na nossa história. Somos, afinal, um país cujo maior sucesso militar ficou indelevelmente associado a uma funcionária da panificação, circunstância a que soubemos reagir com louvável sanidade: não nomeámos a Dona Brites de Almeida Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, não a enviámos para novas frentes de batalha; limitámo-nos a dar o seu nome a uma Praça, a erguer-lhe uma estátua em Aljubarrota e a contar a sua história para sempre, de geração em geração. É esse o destino próprio (e mais do que merecido) de Ederzito Macedo Lopes, e não que o transformemos num monumento em carne e osso à arbitrariedade do Universo.