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Rogério Casanova

Passes destrambelhados, rins retalhados, intervenções atabalhoadas e faltas disparatadas: o Portugal-EUA, por Rogério Casanova

O Portugal-EUA (1-1) serviu para Rogério Casanova concluir a superioridade de Antunes sobre a civilização helénica e para desejar ver Bruma numa ida ao bingo

Rogério Casanova

Octavio Passos

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Beto
Conseguiu cumprir os pré-requisitos mínimos para substituir condignamente Rui Patrício, no sentido em que não teve culpas no golo sofrido - algo que não poderia ser dito do segundo, perto do intervalo, que acabou por ser anulado. Redimiu-se na segunda parte com três defesas impressionantes, a primeira com a mão esquerda, a segunda com a mão direita e a terceira com os pés - uma espécie de "hat-trick perfeito", mas ao contrário.
Nélson Semedo
Abriu as hostilidades com um passe destrambelhado a isolar um adversário logo ao segundo minuto e marcou todos os jogadores americanos que passavam pela sua zona com a mesma gentileza com que o General Lee cumprimentou Grant depois da Batalha de Appomattox. Jogasse sempre desta maneira (felizmente não o faz) e não só não tirava o lugar a Cédric e Cancelo, como nem sequer o tirava a Douglas ou André Almeida. Melhorou depois do intervalo, especialmente a subir com a bola no pé.
Pepe
Jogou apenas oito minutos, tendo saído com uma lesão no pé direito, um acontecimento cuja consequência imediata é a inserção de todos os futebolistas americanos que lhe tocaram esta noite num programa de proteção de testemunhas, onde a sua segurança física vai ser garantida até ao fim das suas vidas por um grupo de tropas de elite.
Ricardo Ferreira
Não era a estreia que desejava, nem é estreia que se deseje a ninguém. Exceto momentos em que sobressaiu do anonimato para ver os rins retalhados por uma finta ou para falhar uma intercepção, foi uma presença tão passiva e inerte no centro da defesa que quase se esperava ver Paddy Cosgrave sentadinho numa mesa a jantar ao pé dele.
Antunes
Conta-se que Crísipo de Solis, um dos sistematizadores do Estoicismo, faleceu com um ataque de riso incontrolável, após testemunhar um burro a empoleirar-se nas patas traseiras para tentar comer figos directamente da árvore. Na noite de hoje, tanto eu como Antunes testemunhámos a ação do guarda-redes americano no golo do empate e ainda aqui estamos os dois. O que prova, pelo menos, a nossa superioridade sobre a civilização helénica. Fez um bom jogo.
Danilo
Um começo desconcentrado, deixando-se antecipar um par de vezes e oferecendo algumas bolas ao adversário, num impulso tão generoso de filantropia que, no país contra o qual jogou, seria certamente recompensado com benefícios fiscais. Ao minuto 39, podia ter aproveitado melhor um novo erro do guarda-redes, mas optou por fazer um remate fraco e à figura, ou, nas palavras do comentador televisivo, um remate "denunciado" - que é precisamente o que se deve fazer aos crimes.
Manuel Fernandes
É um bom jogador (algo que se notou várias vezes durante o jogo, tanto em transporte de bola como no passe longo) e merece fazer parte, pelo menos, do lote de selecionáveis. Mas também desenvolveu hoje um mecanismo revolucionário e de dúbia utilidade: o passe intransitivo, que consiste num passe com um significado tão completo e auto-contido que não necessita sequer de agregar complementos, ou de chegar a colegas, para constituir um predicado.
Bruno Fernandes
Brilhante momento defensivo antes do intervalo, ao sofrer a falta que possibilitou ao árbitro anular o que seria o 1-2 dos Estados Unidos. De resto, cumpriu hoje a sua principal obrigação, que era, por tudo quanto é sagrado, não sofrer uma lesão muscular.
Gelson Martins
Um lance característico ao minuto 11, quando deixou um defesa nas covas com um drible repentino e depois cruzou para uma área onde não havia ninguém a não ser futuros soldados num conflito militar a decorrer na Península Coreana. Esteve irrequieto e mostrou a habitual disponibilidade - tanto física como ética - para receber sempre a bola, sejam quais forem as circunstâncias. Tal como Bruno Fernandes, conseguiu não se lesionar.
Bruma
Foi dos que mais procurou quebrar a monotonia da primeira parte, quase sempre bem com a bola no pé, quer em cavalgadas, quer a temporizar quando finalmente percebia que tinha cavalgado sozinho. Menos bem em momentos de definição: um remate de primeira na área contrária por pouco não transformou a bola no primeiro satélite português, (e ao minuto 25 fez um cruzamento tão mau que o árbitro marcou canto, por misericórdia). Na flash interview não desiludiu, afirmando a sua satisfação por a equipa ter saído de campo "com um ponto". Deve ser uma experiência memorável ir com ele ao Bingo.
Gonçalo Guedes
Percebe-se a tentação para o usar como elemento mais avançado neste tipo de jogos em que anda tudo tacticamente meio perdido, pois Guedes, além de não ser nada mau a receber a bola com uma matilha nas costas, também tem uma predileção natural para jogar isolado, sem ninguém num raio de vinte metros. Continua a ser um jogador pouco elegante em posse, mas aquele físico, agressividade e incapacidade de deixar alguém descansar serão sempre úteis (mais ainda numa equipa que, francamente, não joga assim muito bem).
* * *
Luís Neto
Entrou para substituir Pepe e também para melhorar ligeiramente a auto-estima de Ricardo Ferreira, tarefa que cumpriu com um leque diversificadode intervenções atabalhoadas e faltas disparatadas. A maneira como derrubou Sapong ao minuto 70 foi tão trágica que levou imediatamente as mãos ao rosto, segurando-o como se o mesmo fosse o receptáculo de alguma substância sacramental, tipo incenso, mirra, ou as lágrimas de Jesus - que, salvo erro, um dia o tentou contratar.
João Mário
Entrou com a atitude mais apropriada: não vou fazer disparates, mas também não julguem que vou meter-me aqui a fazer poemas com um frio destes.
Gonçalo Paciência
Nma situação que se arrasta há décadas, encontrar um ponta-de-lança português à altura do talento disponível noutras posições é como procurar uma agulha num palheiro. Hoje tentou-se Gonçalo Paciência que, não sendo propriamente um tosco, acaba por parecer uma palha num monte de agulhas. Ainda assim, por pouco não se estreava a marcar.
Rúben Neves
Num jogo em que a diretiva tática do meio-campo era falhar o maior número de passes possível, algo que é congenitamente incapaz de fazer, era natural que não se integrasse muito bem no coletivo, portanto teve de encontrar outras maneiras mais criativas de perder a bola, como tentar fazer cabritos a adversários.
Bernardo Silva
Pouco depois de entrar, conseguiu receber um péssimo passe longo de Neto e um péssimo passe curto de Manuel Fernandes, tudo no espaço de 4 segundos. "Não saber jogar mal" dá um bocado mais de trabalho em noites assim, mas não é impossível.